terça-feira, 15 de setembro de 2009

Top Seven: Filmes Brasileiros Polêmicos


O Emílio sugeriu, mês passado, um post baseado numa lista dos 10
filmes mais controversos e polêmicos do cinema
. Na hora eu pensei: mais legal é fazer uma lista com filmes nacionais. Afinal de contas, qualquer top-alguma-coisa de produções internacionais conterá os mesmos títulos (no caso dos polêmicos, presenças certas de Laranja Mecânica, O Último Tango em Paris e um dos favoritos do Chico, Um Cão Andaluz), com poucas variações. Mas desconheço uma listagem assim para as produções tupiniquins.

Então elaborei a minha própria coletânea de sete filmes polêmicos realizados no Brasil. Por que sete? Bem, porque é mais justo que um "top five" (ao incluir aqueles títulos que a gente sempre gostaria de colocar) e mais objetivo que um "top ten" (ao descartar a necessidade de se tirar filmes da cartola só para preencher os espaços restantes). E porque, enfim, falamos da Sétima Arte:

7. Deus e o Diabo na Terra do Sol (direção de Glauber Rocha, 1964): quem conhece os meus gostos cinematográficos sabe o quanto eu sou crítico ao movimento do Cinema Novo e, acima de tudo, à obra de Glauber Rocha. Este é considerado seu filme mais importante, e causou celeuma à época por conta de uma cena em que um bebê era assassinado durante um sacrifício religioso. Hoje, o debate em torno dele centra-se entre os que defendem seu status de obra-prima e os que dizem que ele é uma grande merda. O que importa é que a polêmica continua.

6. Como era Gostoso o meu Francês (direção de Nelson Pereira dos Santos, 1971): parte do ciclo final do Cinema Novo, esta aventura satírica incomodou o público no início dos 70, ao mostrar o seu elenco nu (lógico, a história se passa numa tribo indígena do século XVI), falando uma língua exótica (tupi) quase sem usar legendas e terminando (para o horror da plateia) num ritual antropofágico onde se devorava o protagonista branco -- tudo devidamente realçado pelo uso de película colorida (de uso esporádico no Brasil àquela época).

5. Bonitinha mas Ordinária (direção de Braz Chediak, 1981): não era a primeira adaptação rodriguiana para o cinema, mas certamente foi uma das mais rumorosas -- graças especialmente à transcrição cinematográfica do estupro coletivo. Tentando soar séria mais com os dois pés no trash, a cena é tão exagerada (com Lucélia Santos berrando "NEGROOOO!") que tu não sabe se ela é perturbadora ou se é hilária. Hoje, o filme é lembrado pela piada do contínuo e por ser, bem, muito ruim mesmo. Esperar o quê de um diretor que fez fitas que atendem por títulos como Eu Dou o que Ela Gosta e Banana Mecânica???

4. Os Cafajestes (direção de Ruy Guerra, 1962): o filme que nasceu para ser polêmico. Os Cafajestes é imensamente conhecido por ser a primeira produção nacional a mostrar uma cena de nu frontal. No caso, a atriz que realizou a proeza foi Norma Bengell (que, apesar de hoje ser um jaburu, já foi musa), contracenando com ninguém menos que Jece Valadão, o deus supremo dos cafajestes (da classe, não só do filme).

3. À Meia-Noite Levarei sua Alma (direção de José Mojica Marins, 1964): os cineastas do Cinema Novo podiam até achar que estavam revolucionando e contestando a sociedade. Mas transgressão mesmo foi a do heroico José Mojica Marins, na pele de Zé do Caixão. O primeiro filme com o personagem (um agente funerário psicopata ultracético) tem assassinatos, mutilações, suicídios, exposição de cadáver, alucinações, estupro e demais sanguinolências -- tudo isso embebedado pelo discurso antirreligioso e antissocial de Zé do Caixão, uma verdadeira sequência de porradas nos valores cultivados no Brasil da época. Nos anos seguintes, a subversão da obra de Mojica só aumentou (com banquetes canibais, descidas a infernos congelados e sexo explícito). Não é à toa que o homem tem o epíteto de "maldito".

2. Tropa de Elite (direção de José Padilha, 2007): Nenhuma película recente propôs tamanho falatório nos meios de formação de opinião como esta visão do até então documentarista Padilha a respeito da polícia brasileira. Fenômeno popular como nenhum filme conseguiu ser no Brasil, a obra foi tachado de ser fascista (mesmo não sendo esta a intenção do diretor) e, mais incrível ainda, louvada exatamente por este hipotético conteúdo de extrema direita. No fim das contas, as reações a Tropa de Elite mostraram o quanto nosso país ainda recorre à idealização da violência como melhor remédio para nossas mazelas.

1. Rio Babilônia (direção de Neville D'Almeida, 1982): os filmes de Neville D'Almeida poderiam encher quase que esta lista inteira -- ele, que é um dos diretores mais constantes da nossa cinematografia (constantemente ruim, entendam bem). São dele joias do trash erótico (um subgênero?) nacional como Os Sete Gatinhos e A Dama do Lotação. Este Rio Babilônia ajudou a criar o imaginário popular de que "filme brasileiro só tem putaria". A trama mistura violência, consumo de drogas e orgias quase explícitas. A cena símbolo da produção é daquelas que quase todo mundo lembra, mas não admite: um molhado ménage-a-trois (ou seja, sacanagem da braba) numa piscina entre Denise Dumont, atriz icônica do espírito liberal oitentista, e dois sujeitos. Não sabe? Ora, a moça caía de boca no cara sentado na escadinha da piscina, enquanto o outro indivíduo mandava ver na outra ponta -- e não é figura de linguagem: reza a lenda que o ator de fato "entrou" no personagem (o da Denise Dumont, não o dele). No melhor estilo carioca da época, nenhum dos envolvidos desmentiu ou confirmou o acontecido.

Agora... Como diabos deverá ser o tal Banana Mecânica?

Update -- corrigindo injustiças: como toda lista de mais/melhores/piores, esta também tem sua ausência importante, bem lembrada pelo Fábio: Amor Estranho Amor (direção de Walter Hugou Khouri, 1982). Uma das personagens do filme, a prostituta ninfeta Tamara, é representada por Xuxa Meneghel (que, na época da filmagem, tinha 16 anos) e conhecida a sua cena de sexo um ator que na época tinha 12 -- nada demais, já que, no adiante da história, o menino transa com a própria mãe, feita por Vera Fischer.

A controvérsia se instaurou quando o filme foi lançado em VHS em fins daquela década, coincidindo com o ápice de Xuxa como apresentadora infantil. Num ato de censura tola, a "rainha" comprou os direitos do filme após batalha juducial e impediu a sua distribuição. Pessoas foram contratadas para comprar as cópias restantes nas locadoras. O ato apenas gerou mais publicidade gratuita para a produção, e, no fim das contas, foi inócuo: além de ser possível baixá-lo na íntegra pela internet, Amor Estranho Amor foi lançado em DVD nos EUA em 2005, apesar dos esforços de Xuxa de impedi-lo. É possível adquirir o filme em qualquer site de venda de DVDs norte-americano.

Então, Amor Estranho Amor é o "número 0" desta lista. ;)

14 comentários:

  1. Uli, a lista ficou realmente boa. Apesar de não ter assistido a todos, tuas descrições me deram vontade de olhar alguns para dar umas boas risadas.

    Agora, sendo sincero. Existe filme nacional que tu realmente acha bom? Pergunto isso pelo seguinte. Se a lista acima seria de coisas bizarras, eu ficaria na dúvidade de colocar Tropa de Elite. Sim, como tu descreveu tem umas cenas bem hilárias, mas no final eu achei um filme bom. E não sei pq fiquei esperando Cidade de Deus ou Carandiru logo depois.

    A pergunta é, quais filmes brasileiros tu realmente admira?

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  2. A lista não é dos bizarros, a lista é dos polêmicos. Posso fazer uma lista de bizarros depois, se a galera quiser (óbvio que quer...). Tem tanto filme ruim como filme bom aqui. E cheguei a cogitar Cidade de Deus aqui nesta ocasião.

    Tem vários filmes nacionais que eu admiro, e por diversos motivos. Cidade de Deus é obra-prima incontestável, por exemplo. Dos últimos anos, temos vários filmes muito bons ou excelentes mesmo. Os do Jorge Furtado, como O Homem que Copiava, os do Sergio Rezende, como Guerra de Canudos, além de vários documentários, como Estamira e Corumbiara, até filmes menos pretensiosos, como Narradores de Javé e A Máquina, entre outros. E mesmo entre as velharias existem coisas de muito valor, que eu gosto bastante.

    Por que, parece que eu sou um detrator do cinema nacional?

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  3. Uli disse:
    Por que, parece que eu sou um detrator do cinema nacional?

    Jean disse:
    Não, é que me pareceu a primeira vista, meio sem critério(como todas listas Top). Umas coisas q considero boas no meio de outras estranhas (bizarras). Mas tu já explicou. A lista é de polêmicos, não de bons ou ruins. E olhando por essa ótica ficou bem colocado.

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  4. Outro filme que merece pelo menos uma citação é O Beijo no Asfalto, com a cena bizarra do beijo na boca entre Nei(la)torraca e Tarcício Meira.

    Sobre Tropa de Elite, ignorando toda conotação política, é um bom filme de ação. Não me lembro de outra fita do gënero com esta qualidade no cinema nacional. E assim como as comédias românticas, é um estilo muito procurado pelo público, mas até pouco tempo não explorado no cinema brasileiro.

    No fim das contas, as reações a Tropa de Elite mostraram o quanto nosso país ainda recorre à idealização da violência como melhor remédio para nossas mazelas.

    That's the "American Way of Life", my brother...

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  5. Ulisses, o produto saiu melhor que a encomenda! Tks!
    Agora que tal uma lista dos filmes realmente bons feitos aqui nos trópicos? Acredito que deve dar mais trabalho pois não tem muitos mas assisti filmes muito bons principalmente mais recentes com o legalzinho O Cheiro do Ralo e o exelente Não Por Acaso.

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  6. Boa lembrança do Roberto, Beijo no Asfalto poderia estar na lista. Mas não quis repetir diretores (senão a lista só teria o Mojicão) e, por conseguinte, não quis colocar mais de um filme baseado no Nelson Rodrigues.

    Quanto ao Tropa, ele não é só um bom filme de ação, é um ótimo filme de ação -- ainda que a "ação" em si não seja o foco --, um dos melhores que eu já assisti.

    Já debati muito com o Jackson (nosso produtor sem -noção) a questão de se fazer filmes de ação nacionais. Sempre fui meio contrário à ideia, enquanto o Jackson sempre foi entusiasta (Tropa provou que ele estava certo).

    Mas, de qualquer maneira, vejo a existência de alguns empecilhos, tais como: A) criar uma identidade para universo de ação para o Brasil (não basta importar um modelo americano e transplantá-lo aqui, o filme tem que ser coerente culturalmente -- coisa que franceses e e japoneses, por exemplo, fazem muito bem) e o que eu considero o mais "complicado"; B) a falta de know-how (técnicos de efeitos cênicos, etc) para se elaborar cenas de ação, sempre muito complicadas de se realizar; C) o inchamento que este tipo de cena acarreta no orçamento do filme (um eterno problema para a produção nacional); e D) falta de tecnologia necessária para dar uma boa finalização a uma produção deste tipo -- nem estou falando de computação gráfica, mas sim de questões até mais essenciais para o impacto de um filme de ação, como a edição de efeitos sonoros e a mixagem de som.

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  7. Ah, sim, fora uma questão de preconceito de público em relação ao cinema nacional. Meus debates a respeito com o Jackson sempre terminavam com o seguinte argumento: "quem pagaria ingresso para ver um filme de ação nacional?" -- lembrando que Tropa de Elite não foi vendido/divulgado/anunciado como sendo deste gênero.

    Bem, podemos tirar estas dúvidas em breve: temos duas produções de ação prestes a serem lançadas no Brasil, e as duas testam o meu primeiro argumento de diferentes formas: um filme que tenta achar uma "alma brasileira" para um gênero estrangeiro, o Wuxia (filme de artes marciais chineses), Besouro (que conta a história de um legendário capoeirista); e outro, Segurança Nacional, que pega uma trama típica do cinemão hollywoodiano, com todos seus elementos e maneirismos mais que conhecidos, e a refaz no Brasil.

    Vamos ver que resposta se dá a eles nas bilheterias. Vejam os dois trailers, ambos são bem feitos.

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  8. Valeu, Emílio, bom que tu gostou. :)

    Ok, uma lista de filmes brasileiros bizarros e outra de filmes brasileiros muito bons. Vamos anotando...

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  9. Na lista de filmes bizarros, não pode faltar Cinderela Bahiana...

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  10. O Uli gosta mesmo é do Glauber, não tem jeito.
    Moser

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  11. E o "Amor estranho amor" ?, uma bizarrisse da xuxa....

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  12. Verdade, "Amor Estranho Amor" cabia não nos bizarros, mas nos polêmicos sem dúvida... Que erro o meu...

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  13. A Xuxa teria dois nessa lista, certamente.

    E essa lista aqui? Morro de rir só com os títulos dos filmes...

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  14. HAAAAAAAAAAAAAA HAHAHAHAHAHAHAHAHA, que lista genial! EU queria ter feito ela!

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