segunda-feira, 31 de agosto de 2009

70 anos da maior das guerras

Amanhã, dia primeiro de setembro, completa-se sete décadas do início da Segunda Guerra Mundial. Não só o maior conflito da história humana, como também o mais complexo, o mais determinante, o que mais mudou o planeta. Existe um mundo antes dela, e outro depois. O universo humano que surgiu pós-1945 era tão complexo que se precisou dar um nome genérico e pouco explicativo à nossa era: Pós-Modernidade. Antes da guerra, ainda existiam impérios coloniais, cientistas pregavam que havia seres humanos superiores aos outros, a política ditatorial era parte do senso comum dos cidadãos.

Apesar de ter data de início e de fim, a Segunda Guerra era um conflito inevitável, que começou bem antes. Iria acontecer, uma hora ou outra. Não por um pretenso "Destino da Humanidade", mas por conta de inúmeros interesses nacionais conflitantes. Ela pode ser vista como uma coletânea de várias guerras diferentes, sem necessariamente os mesmos objetivos, que apenas calharam de acontecer mais ou menos na mesma hora. Havia um conflito pelo controle do Pacífico entre Estados Unidos e Japão; o mesmo Japão que travava há anos uma guerra de extermínio contra os chineses, e que assinou acordos de não-agressão com a União Soviética -- nação que, por sua vez, praticamente venceu com suas próprias forças em terras europeias a Alemanha toda-poderosa, que precisava mandar seus exércitos à África para contornar as tolices estratégicas de sua aliada Itália, empenhada numa tentativa de recriar o Império Romano, sonho combatido até por pobres soldados do Brasil, devidamente recrutados pelos... Estados Unidos.

Não é à toa que se produz arte e pesquisa em quantidades cada vez maiores sobre o conflito: tantos foram os países envolvidos, que praticamente cada lugar do mundo tem sua história com a Segunda Guerra, da Tailândia à Etiópia, da Noruega à Austrália. Várias delas ainda não são de domínio público, mas conhecê-las nos faz ver que a Guerra foi muito mais do que bombardeios, campos de concentração, extermínio dos judeus e o Dia D.

Há, por exemplo, o caso singular da Finlândia, única democracia a se aliar à Alemanha Nazista. Isolada entre a Escandinávia e o Leste europeu, esta nação foi invadida pelo Exército Vermelho logo nos primeiros dias do conflito. Buscando apoio junto a Hitler, os finlandeses invadiram ao lado da Wehrmachat o território russo. Quando a balança pendeu favoravelmente aos soviéticos, a Finlândia tratou de assinar a paz e expulsar os alemães do país.

A própria posição da URSS é duvidosa: quando a guerra estoura, Stálin havia acordado um pacto de não-agressão com Hitler. Assim que os nazistas adentram na Polônia, os russos invadem imediatamente Letônia, Estônia, Lituânia e Finlândia, entre outros, e dividem o território polonês com os alemães -- não necessariamente aliados, mas como uma hiena e um coiote divindo a mesma carcaça, enquanto rangem dentes um para o outro. A Grande Guerra Patriótica (como os russos chamam a Segunda Guerra) começa mesmo em 1941, quando Hitler faz aquela besteira de atacá-los. Mesmo se aliando à Inglaterra e aos EUA, a União Soviética não abre guerra contra o Japão e, no fim das contas, foi a grande beneficiada politicamente com a paz, ao receber quase que de presente todo o Leste Europeu sob sua cortina de influência -- seu objetivo inicial ao começarem as batalhas.

Sem contar, claro, o Brasil. Todo mundo sabe que entramos no baile por conta do afundamento de navios na nossa costa (fora os interesses políticos norte-americanos em colocar um país sulamericano ao lado dos Aliados, para diminuir a força dos movimentos fascistas no continente, em especial na Argentina). O que pouca gente sabe é que morreu mais brasileiros em águas territoriais tupiniquins do que no gelos dos Apeninos italianos: foram 1.074 vítimas fatais nos naufrágios, enquanto 457 pracinhas pereceram na campanha da Força Expedicionária Brasileira. A maior parte das mortes foi causada por um único submarino alemão, o U-507, comandado por Haro Schacht. Esta embarcação foi responsável por torpedear, num espaço de oito horas na noite entre os dias 14 e 15 de agosto de 1942, nada menos que três embarcações, matando 551 pessoas (incluindo mulheres e crianças), mais do que as baixas totais (mortos e feridos) da FEB na famosa tomada de Monte Castelo. A tragédia maior foi a do navio Baependi: apenas 36 sobreviventes chegaram ao litoral, junto com os corpos de 269 vítimas.

Como toda boa história de guerra, o U-507 encontrou seu fim de maneira dramática: após pôr a pique outras embarcações brasileiras, foi flagrado por uma patrulha da Força Aérea Americana em janeiro de 1943, nas proximidades de Natal, sendo destruído com cargas de profundidade. Seus 54 tripulantes morreram. Apenas mais uma nota de rodapé nas imensas crônicas da Segunda Guerra Mundial.

Mesa-redonda bola-quadrada: Inter x Goiás, Botafogo x Grêmio

Rodada emocionante no Campeonato Brasileiro, com muitos gols nos jogos da dupla Grenal:
  • Inter 4x0 Goiás
  • Botafogo 3x3 Grêmio
Como eu só ouvi os jogos não tenho muito o que comentar (ouvindo a gente sempre tem a impressão de que a partida foi uma batalha de proporções apocalípticas). Estou botando o post logo pra abrir as discussões.

No jogo do Inter, muita expectativa para o retorno de Fernandão ao Beira-Rio. A torcida fez um papel bonito e o aplaudiu antes do jogo e vaiou durante o jogo; já Fernandão foi expulso aos 13 minutos em um lance muito esquisito -- vendo depois pareceu excesso de rigidez do árbitro; eu teria dado um amarelo, mas se o juiz na hora achou que ele foi com o cotovelo, o vermelho seria justificável. Inter de 3-5-2, Fabiano Eller motivadíssimo comandando a zaga, Kleber fazendo provavelmente a sua melhor partida no Inter e a feliz surpresa de Marquinhos no ataque. Com tudo isso a estreia de Edu ficou meio apagada, mas ele deve aparecer mais nos próximos jogos quando estiver em melhores condições. Outra cena que merece ser comentada é Giuliano fazendo gol com a camisa 10 e correndo para abraçar Andrezinho fora de campo, o outro dono da camisa 10. Falando nisso, tem mais um dono da camisa 10 voltando... D'Alessandro já deve estar à disposição no próximo jogo.

No jogo do Grêmio, a primeira vitória fora de casa quase saiu. Estava ouvindo a transmissão na Gaúcha em paralelo com a do Inter e mal conseguia entender o que estava acontecendo em meio à chuva de gols nas duas partidas. O Grêmio, que saíra perdendo, parecia que ia levar pra casa um bravo 3x2, até que a hilária narração descreveu um "gol espírita" de Leandro Guerreiro. Não vi o gol ainda, mas acho que nem quero ver porque não deve ser tão interessante quanto o quadro que o narrador pintou. É por essas que ouvir jogo no rádio é tão divertido...

Enquanto isso na Série D, tivemos os jogos de ida da terceira fase. Agora os times começam a cruzar distâncias maiores e parece que o fator local tem pesado -- nenhum visitante venceu:
  • São Raimundo 4x1 Cristal
  • Sergipe 3x1 Alecrim
  • Tupi 1x1 Macaé
  • Uberaba 2x0 Araguaia
  • Chapecoense 2x1 Londrina
E novidades na seção: a partir da próxima rodada, o responsável pelo Mesa-redonda Bola-quadrada será o gremista Roberto Coutinho, já que eu estarei fora nas próximas três semanas. Depois da minha volta, a ideia é que alternemos a autoria dos posts, o que deve dar uma dinâmica mais interessante para a seção (e uma folguinha para este que vos escreve!).

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Jean-Claude Van Damme e os metafilmes

Metalinguagem é a linguagem que fala da própria liguagem (os das Exatas podem dar um conceito mais amplo, já que vem a fazer parte também do jargão da Informática). Uma derivação da metalinguagem nas artes é o metafilme, ou metacinema. Em suma, é o filme que fala do próprio filme, o cinema que trata de si próprio. São filmes que versam sobre o próprio fazer do cinema, e que costumam ser fascinantes e maravilhosos, especialmente aos olhos dos cinéfilos. Podem ser tanto biografias de grandes cineastas (O Aviador) ou de artistas medíocres (Ed Wood), podem ser o melhor do entretenimento (Cantando na Chuva) ou dramas poderosos (Crepúsculo dos Deuses). Podem ainda usar a metalinguagem com leveza e humor (Saneamento Básico) ou aprofundar-se em experimentos narrativos desconcertantes (Adaptação).

O que é raro no metacinema é um artista se auto-imaginar num processo metalinguístico e conseguir, ainda em vida, ter a possibilidade de fazer uma auto-análise de sua própria obra e persona cinematográficas -- e se eu fosse um filósofo como o Hisham, completaria dizendo que é raro o artista conseguir olhar para o próprio devir e, neste processo, despir-se de sua magnitude atribuída por mídia, fãs e o caralho-a-quatro (ok, o Hisham não finalizaria a frase com esta expressão) e ver-se criticamente. O meu ídolo nacional, José Mojica Marins, tentou isso num filme impressionante, Delírios de um Anormal (1978 -- atenção para 6min20seg), em que ele estudava a força da sua criatura, Zé do Caixão, no imaginário cultural tupiniquim durante os Anos de Chumbo. Para tanto, usou trechos de filmes anteriores (incluindo aqueles proibidos pela Censura) e colocou a si próprio, José Mojica, como personagem.

Se o véio Mojicão inclinou-se sobre seu personagem, nosso conhecido "rei das locadoras" de 15 anos atrás, Jean-Claude Van Damme, foi além: num filme lançado diretamente em DVD este mês no Brasil, o astro das artes marciais e presença em alguns dos "melhores piores" filmes de ação de fim dos Oitenta e início dos Noventa, resolveu olhar direto para si mesmo. JCVD é o título desta produção belga (sim, ele voltou ao país natal para fazer este filme), onde Van Damme interpreta Van Damme num pesado processo de autocrítica. E ele não deixa pedra sobre pedra sobre si mesmo: ele se vê como um astro decadente, que participa de piores filmes a cada ano, afundado no vício das drogas e álcool, um mau pai e um homem que não sabe viver com a sua popularidade. Qual a grande contribuição do carateca belga para a Sétima das Artes, na sua própria visão? Ter levado John Woo para Hollywood.

Talvez o lance mais inteligente do filme foi colocar o ator numa situação de tensão (um assalto a uma agência de correio), onde ele tenta desesperadamente ser o mesmo heroi que nos acostumamos a ver nos filmes. Jean-Claude não sabe se vive uma fantasia ou se se rende frente ao mundo real (o que me faz lembrar do último Rocky: "Nada bate mais forte que a vida"). Ainda assim, a fita é toda feita em tom de farsa: os vilões são improváveis e os coadjuvantes meio bizarros parecem ter saído de um filme barato dos irmãos Coen. A própria cena de abertura (um plano-sequência de um filme de ação ao mesmo tempo complicado tecnicamente e propositadamente ruim) é descabida. De verdade, real mesmo, só Van Damme -- que improvisou, na liberdade de sua língua pátria, quase todos seus diálogos (incluindo um tocante monólogo, onde fantasia e realidade não têm fronteiras).

O filme é uma pequena pérola, que acaba dizendo mais do que talvez quisesse num primeiro momento. Sim, é o melhor filme de Van Damme e sua existência meio que justifica todas aquelas deliciosas bobagens, aulas de como não se fazer filmes, como O Grande Dragão Branco e Soldado Universal, que eu costumei devorar no bom e velho VHS.

Mesa-redonda bola-quadrada: Santos x Inter

E aí vai um mini-MRBQ: não tivemos rodada completa do Campeonato Brasileiro -- pois teve a primeira rodada da Sul-Americana (no qual o Inter está pré-classificado como campeão; só joga a partir da próxima fase) -- mas o Inter jogou um dos seus tão falados "jogos atrasados". Aqueles que faziam a gente, sempre que olhava pra tabela, somar mentalmente 6 pontos a mais pro Inter "só pra conferir"... Bom, os primeiros três pontos não vieram, veio só um:
  • Santos 3x3 Inter
Há quem diga que é um bom resultado: empate fora de casa. Além disso, foi incrivelmente o primeiro ponto conquistado pelo Inter na Vila Belmiro na história dos Campeonatos Brasileiros. Mas pra quem saiu vencendo por 2x0 e virou a 3x2, deixar escapar a vitória teve um gosto amargo. Pior que isso, foi perder Alecsandro, o autor dos três gols, com uma lesão muscular e ver algumas substituições estranhas do Tite no segundo tempo que deixaram o time totalmente na retranca: tirou Andrezinho (que saiu dizendo que foi por opção do técnico; Tite na entrevista disse que ele estava sentindo), Giuliano e o lesionado Alecsandro para colocar Marcelo Cordeiro, Danny Morais e Magrão, deixando o time com três volantes, Taison sozinho no ataque e nenhum meia-atacante pra fazer a ligação.

As explicações de Tite na entrevista foram que o Marcelo Cordeiro foi pra reforçar a cobertura do lado que o Neymar estava atacando perigosamente, e que o Danny Morais tinha que entrar pra recompor a zaga quando Sorondo foi expulso. Só o que não tem explicação foi a entrada de Magrão...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O valor dos clichês

Esses dias estávamos conversando por email e veio o assunto daqueles rankings bobos de "melhor guitarrista de todos os tempos" e "melhor filme de todos os tempos". Sobre os guitarristas, eu falei meio brincando que fazendo uma lista com Jimi Hendrix em primeiro e Eddie Van Halen em segundo, eles poderiam distribuir as demais posições à vontade. Pouco tempo depois, como eles sempre aparecem, pintou mais um desses rankings de guitarristas. O Chico comentou que Hendrix em primeiro já virou "modinha". O Ulisses fez um comentário interessante:
Jimi Hendrix melhor guitarrista é que nem Cidadão Kane como melhor filme: todo mundo aceita, mas ninguém lembra mais porquê.
Eu concordo com a observação, mas ao mesmo tempo se eu tivesse que fazer uma lista eu realmente colocaria o Hendrix em primeiro, mesmo não sendo nem de longe o meu guitarrista preferido. Motivo: os anos passam e eu não paro de me surpreender da influência que ele teve. De tempos em tempos eu me dou conta de que alguma coisa muito fundamental relativa ao mundo da guitarra se deve a ele (por exemplo: a música Sgt. Pepper's, dos Beatles).

Pra justificar o Hendrix em primeiro, é só ouvir o som da guitarra antes e depois do cara e tentar procurar alguém que promoveu tamanha mudança.

Cidadão Kane é um dos meus filmes preferidos (e preferiria revê-lo a ouvir um disco do Hendrix) e eu sei que nem de longe eu consigo dimensionar o impacto que ele teve na história do cinema, mas só pelo fato de que ele é um dos poucos filmes antigos que quando vi fiquei com a impressão "é um excelente filme" em vez de "é um excelente filme de mil-novecentos-e-guaraná-com-rolha", eu tendo a aceitar vê-lo em primeiro nas listas.

Sim, Hendrix em Kane em primeiro nas listas são dois clichês, mas os clichês não se formam do nada.

Falando em clichês, ontem o Chico me perguntou se eu tinha ouvido as músicas novas do Kiss e do Bon Jovi -- dois veteranos do rock que estão pra lançar discos novos. Não tinha escutado, mas depois parei pra ouvir.

A música nova do Kiss, Modern Day Delilah é um anacronismo intencional total: eles disseram que queriam fazer um disco que soasse como um dos seus álbuns clássicos dos anos 70. Sonoridade, letra e melodia totalmente retrôs, calcadas em cima dos clichês que o Kiss ajudou a construir. Curiosamente o bridge e o refrão (que eu achei a parte mais fraca da música) me soaram mais Kiss 80s do que Kiss 70s. Estou ouvindo agora uma segunda vez e tenho que citar o meu desgosto com o solo: o cara imita os trejeitos do Ace até no estilo da palhetada, pra fazer a música "soar Kiss". Só teve uma coisa que me deixou pensando quando ouvi a música a primeira vez ontem: tudo é clichê e genérico e não posso dizer que "gostei" da música, mas o riff é muito bom. Ouvindo agora a segunda vez, fico me perguntando se não é talvez a única coisa não-datada na música. Ele soa clichê também? Eu não sei, é uma pergunta pros amigos. Será que não soa clichê pra mim só porque eu gostei? Pra mim ele soa como se pudesse estar num disco do Led Zeppelin nos 70s, ou do Tesla nos 80s, ou do Soundgarden nos 90s, ou do Audioslave nos 00s. Por outro lado, talvez o "soar moderno" dele seja porque ele soa parecido com o tema principal de um single do Black Eyed Peas lançado no início desse ano! (Taí uma possibilidade de mashup engraçada!)

Já a música nova do Bon Jovi, We Weren't Born to Follow parece outro tipo de clichê. A música também é toda feita de elementos que a banda já explorou em anos e discos anteriores: a paradinha antes do refrão, a letra esperançosa, a dinâmica, o "jingle-jangle" do andamento mid-tempo... Por um lado ela me soa um pouco mais original que a do Kiss, porque os elementos são característicos da fase recente da banda e não um movimento retrô explícito -- ela é projetada pra tocar na rádio atual junto outras músicas e não soar "velha", enquanto a do Kiss é projetada pra tocar no shuffle dos fãs de Kiss junto com os outros clássicos. Mas não tem nada na música do Bon Jovi que me impressione; me soou como uma música "média" em todos os aspectos, e isso talvez seja pior do que soar datado.

E aí? O artista está na prerrogativa de viver à base dos clichês que ele mesmo criou? A tarefa de quem trabalha com processos criativos não seria, bem, continuar criando? Por outro lado, o clichê perde a validade com o passar do tempo? Aliás, ele não se constitui justamente com o passar do tempo? Ou é esse o tempo de vida de uma ideia, que nasce genial, vira clichê e, como disse o Kundera, depois vira kitsch e finalmente é esquecida?

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mesa-redonda bola-quadrada: Grêmio x Atlético-MG, Palmeiras x Inter

E lá vamos nós para mais um Mesa-redonda Bola-quadrada! Parece que este blogueiro colorado não anda muito animado em escrever sobre os acontecimentos futebolísticos ultimamente... ;-) Mas a explicação dessa vez é que eu estava esperando as fotos do jogo do Zequinha. Mas vamos guardar o melhor pro final e falar primeiro da Série A.
  • Grêmio 4x1 Atlético-MG
  • Palmeiras 2x1 Inter
Grêmio jogando em casa - já nem é mais surpresa: imponente vitória tricolor. Domingo à tarde eu comentava mesmo com um gremista que a torcida do Grêmio ajuda tanto o time que até parece que os jogadores se acostumaram e não conseguem jogar mais sem esse handicap a favor. :-)

Já o Inter perdeu outra, desanimando de vez quem achava que as vitórias depois do Japão eram indicativas de uma nova guinada. Não só perdeu como jogou pior: a falta de finalizações no primeiro tempo chegou a virar motivo de piada entre nós que assistíamos a partida.

Mas o grande evento esportivo do fim de semana foi a rodada de volta dos mata-matas da segunda fase da Série D: o Sol Desafinado estava lá no Passo da Areia para acompanhar o São José na árdua tarefa de vencer o Londrina!

Dos editores do blog fomos eu e o Gustavo, acompanhados dos amigos Fábio, Flávio e Sérgio Medeiros, esse último nosso comentarista e presença assídua do blog, que também tirou as fotos (os demais solistas todos furaram, com desculpas acadêmicas,
trabalhistas e/ou esfarrapadas).

O Zequinha precisava vencer pois dois gols pra reverter o 3x1 de Londrina. "Um gol por tempo", aquele velho papo. Quando chegamos no Passo da Areia, já estava 1x0 pro São José. Parecia questão de tempo! O time estava empolgado, a pressão era grande, mas o gol não entrava. No meio do jogo o Sérgio me disse "esse goleiro tá com toda pinta que, se estiver 1x0 ainda no fim do jogo, ele vai correr pra área".

Proféticas palavras. Nos últimos minutos, lá foi o goleiro Rafael. Chegou até o meio do campo e começou a literalmente empurrar os zagueiros em direção ao ataque, e saiu correndo para a área para dar o exemplo. Cobrança do escanteio, confusão na área e a bola escapa pelo lado em direção à linha de fundo. O atacante do São José intercepta a bola de bicicleta, mandando-a de volta para o centro da área... e quem está lá para recebê-la? O goleiro Rafael, que emenda outra bicicleta em direção ao gol! Infelizmente o goleiro adversário defendeu aquele que seria o gol mais lindo dos últimos tempos em qualquer divisão no futebol brasileiro -- duas bicicletas consecutivas resultando num gol de goleiro que seria o gol da classificação... pena que não entrou!

Além das emoções do futebol, outro aspecto interessante foi conhecer um pouco do mundo dos jogos dos times menores. O jogo foi com ingresso liberado nas arquibancadas (R$10 nas cadeiras) e teve bom público, até. O que nos chamou a atenção foi a gurizada que comandava os cantos e batucadas: uma espécie de Popular/Geral juvenil. Era engraçado vê-los adaptando as músicas de outros times (as que eu conhecia eram as do Inter, assumo que as demais eram as do Grêmio) cantando coisas como "minha camisa celeste, e a cachaça na mão... o Passo da Areia me espera para começar a festa!" (com a devida estranheza ao tentar encaixar "Passo da Areia" na métrica da letra). De qualquer forma, muito legal ver a piazada do bairro se divertindo com o futebol local.

Outra coisa que me surpreendeu foi a torcida adversária. Minha estimativa é que eles lotaram um ônibus de torcedores para vir até Porto Alegre empurrar o Londrina, e vieram com faixas, instrumentos e muita energia. O Londrina é um clube com considerável torcida (sétima maior média de público da Série D até agora) e pega na próxima fase o Chapecoense, o outro representante do Sul do Brasil ainda na competição.

Os times que ganharam a simpatia dos Solistas Desafinados todos classificaram: São Raimundo, Alecrim e Macaé estão na terceira fase. Aqui está a lista dos próximos confrontos:
  • Cristal (AP) x São Raimundo (PA)
  • Sergipe (SE) x Alecrim (RN)
  • Macaé (RJ) x Tupi (MG)
  • Uberaba (MG) x Araguaia (MT)
  • Chapecoense (SC) x Londrina (PR)
É isso aí então... a Série D se encerra para o Rio Grande do Sul, mas nós aqui do blog continuaremos acompanhando a competição!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Barreiras do debate: as pautas proibidas


Os comentários feitos pelos nobres colegas blogueiros Hisham e Ulisses em um post passado me encorajaram a escrever sobre um assunto que me incomoda algumas vezes: as barreiras do debate. Por que existem assuntos proibidos de serem discutidos? E por que, mesmo podendo-se debater, existe muitas vezes uma inibição ao se colocar contra alguma idéia?

Como se diz no popular, "política, religião e futebol não se discute... se respeita!" Ok! Respeitemos as diferenças... mas contrariar idéias é deselegância, falta de educação, pecado??? O problema está em como e com quem se debate o assunto. Pode-se conversar sobre futebol tranquilamente se existirem opiniões razoáveis sobre organização tática, qualidade dos jogadores, retrospectos das equipes, conhecimento das regras do jogo... mas geralmente os debates esportivos se tornam facilmente um bate-boca incontrolável. Em política é pior ainda, pois muitas vezes o choque de opiniões é precedido de interesses pessoais e partidários. Na religião o caso é mais grave ainda, já que duvidar de Deus ou dos dogmas religiosos é pecado e pode levar o sujeito diretamente ao inferno.

Na verdade, vejo que o grande problema em todos estes assuntos "proibidos" são as paixões e os interesses. As paixões fazem com que percamos o senso de realidade e tornemos o debate um jogo de ofensas pessoais. Já os interesses fazem com que não nos demos por vencidos e tentemos impor nossa opinião até o fim. Isto transforma a discussão em um jogo de ganha-perde, onde apenas um lado vence e o outro é sumariamente derrotado.

Contrariando essas idéias, acredito que todos assuntos são passíveis de debate. Principalmente se tratando de política e religião, onde esta cultura do "intocável" foi de certa forma imposta, afim de evitar que o sujeito comum pense muito sobre isso e acabe por se dar conta do quão ridículo são algumas idéias e ações praticadas nesses meios. Ao abrir a mente para novas opiniões e diferentes pontos de vista, com certeza crescemos intelectualmente. Podemos ver os defeitos de nossas crenças ou então reforçar nossas convicções. No momento em que deixamos de lado as paixões e os interesses, transformamos um jogo ganha-perde em um jogo ganha-ganha, onde as duas partes saem em vantagem. Além disso, uma discussão inteligente é um ótimo exercício de retórica e tolerância!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Gilberto Gil e Lei Rouanet: igualdade ou privilégio?

O site da Folha de São Paulo noticiou hoje que o ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, teve aprovado pela Lei Rouanet um projeto de um DVD baseado no seu atual show. A Lei Rouanet é aquela que dá a possibilidade a projetos culturais de recolherem, junto a empresas, dinheiro que elas usariam inicialmente para pagar o Imposto de Renda (a tal da renúncia fiscal). Surgida no início dos anos 1990, ela tem por objetivo fomentar a produção cultural no país, com projetos que contemplassem artistas consagrados e desconhecidos, direcionados a todos os públicos.

Prestes a sofrer alterações importantes, a Lei Rouanet é alvo, há tempos, de debates e polêmicas -- especialmente porque aprova captação de recursos para projetos e artistas não só consagrados, como comercialmente viáveis. O Cirque du Soleil, por exemplo, ganhou uma liberação espetacular de 9,4 milhões de reais em 2006. Seria ótimo se o incentivo fiscal deixasse os ingressos da apresentação mais acessíveis à população, o que não aconteceu. As entradas variavam de R$ 50,00 a R$ 370,00. Até mesmo Vanessa da Matta (R$ 900.000) e Caetano Veloso (R$ 1,7 mi) tiveram projetos aprovados. Pelo menos no caso de Caetano, o Ministério da Cultura exigiu que os ingressos girassem entre R$ 20,00 e R$ 40,00 -- e não R$ 200,00, como planejado incialmente pelos produtores.

Agora, Gilberto Gil é o beneficiado: seus produtores foram autorizados pelo MinC a captar o valor exato de R$ 445.362,50. Todo este dinheiro para produzir DVDs que custarão cerca de R$ 50,00, gravados em shows cujos ingresos podem custar R$ 60,00. Ou seja, os ganhos da produção ainda serão consideráveis, fora o dinheiro proveniente de renúncia fiscal.

Fora o fato de ser um absurdo em si (um artista consagrado pegando dinheiro que seria público para a confecção de um produto sobre o qual ele vai ganhar ainda mais dinheiro), Gil tem a resposabilidade moral e ética de não pedir dinheiro para o governo atual, do qual já foi parte integrante do Executivo. Para a lei não é, mas para mim é tráfico de influência. A justificativa? Um distorcido, porém irretocável, argumento de que a "lei é para todos". Busca-se explicar este ato (senão reprovável, pelo menos questionável) na base da igualdade. Já dizia o Humbertão: "uns mais iguais que os outros" -- ou ainda, como diria Jackson Ritter, "Explica mas não justifica".

Já tevem um tempo que o "P" de MPB quis dizer "popular". O que significaria agora?

Entendendo a Lei Rouanet - um resumo:

O funcionamento da Lei Rouanet é relativamente simples na teoria. Seria mais ou menos assim:

• O artista ou produtor cultural envia o seu projeto para o Ministério da Cultura, para que ele seja avaliado por uma comissão técnica. O projeto pode ser de qualquer atividade cultural: filme, teatro, música, artes plásticas, folclore, etc.

• O MinC aprova ou não os projetos. Em caso de aprovação, ele pode liberar todo o montante pedido pelo artista ou produtor cultural, ou apenas uma parte.

• Com a aprovação do MinC, o artista ou produtor cultural pode recolher o valor junto a empresas ou particulares. Elas podem dedicar uma porcentagem (4% para as pessoas jurídicas e 6% para as físicas) do seu Imposto de Renda devido, que elas invariavelmente dariam ao Estado, para estas produções, ganhando várias contrapartidas (publicidade gratuita e ganhos de bilheteria e comercialização).

• O artista ou produtor cultural realiza o seu projeto e precisa fazer uma criteriosa prestação de contas para o MinC.

• Ou seja: de forma indireta, o artista ou produtor cultural está se usando de dinheiro público (que seria usado para os gastos da União) para realizar a sua obra ou evento artístico. Este uso é o maior causador de discussões em torno da Lei Rouanet.

Vale-cultura:

Não sei o quanto os meus colegas Solistas Desafinados estão inteirados a este respeito: o Governo Federal lançou recentemente o programa Vale-Cultura, uma espécie de Bolsa-Família para bens culturais. De acordo com este projeto, os trabalhadores de baixa renda receberiam um cartão magnético, com o qual pode comprar livros e CDs, ir a shows, peças e cinemas. O valor inicial mensal é de R$ 50,00, mas há planos de aumentá-lo para R$ 150,00 com o passar do tempo. Pensa-se agora que professores devem também receber o Vale. De novo, a justificativa: apenas 13% da população tem acesso a manifestações culturais.

O Vale-Cultura custará aos cofres públicos o estimado de sete bilhões de reais. Ou seja, mais oneração aos cofres públicos e risco de aumento de impostos. No entanto, para nós da classe artísitica (e todos que escrevem neste blog o são, com maior ou menos intensidade), a notícia é simplesmente maravilhosa (e eu, como professor, seria duplamente favorecido).

Então, a questão para nós é: defendemos nossos próprios interesses e saudamos o Vale-Cultura ou nos preocupamos com o quadro geral, com o saneamento das contas do Estado, criticando o programa que vai gastar ainda mais dinheiro público? Deixo vocês responderem antes de dar minha posição.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Mesa-redonda bola-quadrada: Grêmio x Flamengo, Santo André x Inter, Inter x Corinthians, Santos x Grêmio

Algum dia teria que acontecer: passou uma rodada e eu esqueci de fazer o post referente no blog. :) Bom, aí vai então o sumário das duas últimas rodadas:
  • Grêmio 4x1 Flamengo
  • Santo André 0x2 Inter
  • Inter 1x2 Corinthians
  • Santos 1x0 Grêmio
Um fim de semana de vitórias e um meio de semana de derrotas para a dupla Grenal. O jogo em Santo André foi uma várzea só, com o gramado mais tosco do campeonato. Já a partida contra o Corinthians foi a primeira derrota em casa: dois gols corintianos que o Tira-Teima apontou como impedidos, mas isso é do futebol. Já o Grêmio impôs mais uma vitória de respeito em casa e mais uma derrota fora de casa.

Tivemos também os jogos de ida da segunda fase da Série D:
  • Cristal 1x1 Nacional-AM, Genus 1x1 São Raimundo - O Cristal conseguiu segurar um empate em Amapá, mas o Nacional decide em casa. Idem para o Genus, que empatou em Rondônia: ficou tudo pra se resolver em Santarém.
  • Sergipe 2x0 Ferroviário, Alecrim 2x0 Central - Sergipe e Alecrim abriram boas vantagens em casa.
  • Paulista 0x0 Macaé - O único zero a zero dos mata-matas. Cadê o Macaé 100% do início do campeonato, Chico?
  • Fluminense 1x1 Tupi - Empate em Feira de Santana. Decisão fica pra Juiz de Fora.
  • Brasília 3x2 Uberaba, Uberlândia 3x2 Araguaia - Mais placares repetidos. Desse jeito eu fico sem ideias do que escrever!
  • Corinthians Paranaense 0x3 Chapecoense - O time catarinense foi o único visitante a vencer nessa fase até agora.
  • Londrina 3x1 São José de POA - O Zequinha vai tentar a virada nesse sábado, às 3 da tarde no Passo da Areia. Pode ser o último jogo da Série D no Rio Grande do Sul... é agora ou nunca! Vamos?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Kikitos de Gramado: melhores frases

Terminou o Festival de Gramado, o filme vencedor, Corumbiara, é incrível e mereceu seus cinco prêmios, a ressaca moral de ter ido à Villa de Caras é maior do que a ressaca tradicional das Stella Artois de graça, vimos a Xuxa e vários "famosos quem?" querendo chamar a atenção. E, como toda boa aglomeração humana, o pendor para o hilário foi maior do que para o sisudo. Abaixo, algumas das melhores frases e diálogos do festival:

Sobre o Discurso de Xuxa:

Xuxa (terminando sua fala no púlpito): Não tenho vergonha de dizer que sou loura, sou povo e vitoriosa.

(não bastou ela dizer que era "suburbana" e que era "povinho". Precisava de um final arrebatador!)

Zé Vítor Castiel (puto da cara, tentando retomar o cerimonial enquanto a imprensa tumultuava o recinto durante a saída de Xuxa): Voltemos ao Cinema!

Anônimo na plateia (apoiando com aplausos Zé Vitor): É isso aí!

Outro anônimo na plateia (ao iniciar um clipe com cenas dos filmes da Xuxa): Amor estranho amor!!!

Eu (durante o mesmo clipe): Fuscão Pretoooooooo!

No debate sobre sobre Canção de Baal:

Um crítico da Rádio CBN: Eu entendi a história. Quer dizer que ela foi mal contada?

O mesmo crítico da Rádio CBN: Você disse que fez um filme para que as pessoas sentissem. Eu não senti nada, ao não ser sono e tédio.

Na entrada da ExpoGramado, onde fica a administração do Festival:

Paulo Baiano (jornalista louco, cinquentão e com dread locks com aparência centenária): Eu precisava de uma tranfusão de sangue. Só que os morcegos fazem transfusão de sangue. Eles mordem uma pessoa aqui (apontando para o pescoço) e, quando morde outra pessoa, passa o sangue pra ela. Eu precisava da transfusão, mas daí um morcego me mordeu e me passou sangue. E estou vivo até hoje.

Eu (em resposta à constatação de Paulo Baiano, de que ele ainda estaria vivo): Tem certeza?

Sobre o clima de Gramado:

Alessandra (membro do júri popular, moradora de Salvador): Oxi... Vou falá lá em Salvador: cê abre o freezer e bota a cara dentro e pronto: isso é Gramado.

Dentro do Palácio dos Festivais:

Max, vencedor do último Big Brother (para um repórter que perguntou o que ele estava achando dos filmes): Não, cara, eu nem gosto muito de cinema.

O prefeito de Gramado (bebaço, reagindo à notícia do fim do chope Stella Artois na noite de terça-feira): Estou baixando um decreto municipal hoje, mandando que não falte mais cerveja!

Durante o churrasco na Villa de Caras:

Eu (para os demais integrantes do júri popular): Com todo este glamour, estas celebridades por perto, com toda essa pompa, não dá em vocês uma baita vontade... de peidar?

Na cerimônia de Premiação, sábado:

Helena Ignez (diretora do bendito Canção de Baal, num momento de total falta de modéstia ao receber um dos prêmios menores, o de melhor filme pelo júri da crítica): Não esperava subir no palco tão cedo.

(detalhe: esse foi o único prêmio do filme...)

Rogério Beretta (um dos Homens de Perto, fazendo uma intervenção cômica e recebendo um Kikito de chocolate): Eu queria dizer que eu sou povo. Eu sou suburbano. Eu sou careca mas sou vitorioso!

"Lado A Desafinado": os 50 anos do Kind Of Blue, de Miles Davis

No dia de hoje inicio uma série de celebrações de "50 anos" de um monte de coisas. Nos próximos 10 anos terei muitos discos para celebrar, nos 10 seguintes nem tanto - a não ser pelos meus próprios 50 anos (se a minha comemoração de 32 foi daquele jeito, imaginem como vai ser a festa aos 50...).

E a estréia é com o álbum Kind Of Blue, lançado em 17 de agosto de 1959, cujas sessões ocorreram nos dias 2 de março (lado A) e 22 de abril (lado B). O trumpetista Miles Davis reuniu a que talvez seja a melhor linha de frente do jazz de todos os tempos com os saxofonistas 'Cannonball' Adderley (sax alto) e John Coltrane (sax tenor). Ao piano ele teve Bill Evans (o grande co-compositor não-creditado do álbum) - mas para a faixa mais blues do álbum, Wynton Kelly tocou piano. Completam o sexteto: Paul Chambers no baixo e Jimmy Cobb na bateria - este último, o único ainda vivo do sexteto.

Miles queria a total espontaneidade dos músicos - nenhum deles tinha grande idéia do que iriam gravar naquela tarde da primeira sessão. Miles utilizou o conceito de jazz modal ("por escala"), livrando-se da forte dependência da melodia com a harmonia que o jazz (e o bebop, principalmente) tinha até então. Um esqueleto simples de acordes, a restrita utilização de escalas igualmente simples, e um andamento mais cadenciado deram asas à criatividade dos músicos e a álbum se tornou um marco da música, firmando o "Cool Jazz".

Ano passado foi lançada (antecipadamente) uma edição de 50 anos do Kind Of Blue, incluindo todo o c*ralho-a-quatro: vinil em cor azul, CD, DVD, e encartes com muitas fotos. Os comentários dos compradores sobre esta edição não são boas. Além de reclamações em relação à estrutura da caixa (que facilita o surgimento de arranhões no CD), há comentários sobre o pouco material extra de estúdio. Esta última crítica talvez seja injusta: naquelas duas sessões foi gravado apenas um take completo de cada música, com exceção de "Flamenco Sketches" - e ainda assim, este "Alternate take" já está presente nos CDs anteriores a partir de 1997.

E finalmente, explicando o título do Post, que é um link com o título do Blog: apenas na década de 80 descobriram que o equipamento que gravou a sessão do dia 2 de março (o lado A do álbum), estava com um pequeno problema de velocidade. As três músicas ficaram, portanto, levemente fora do tom. A partir de 1992, todos os lançamentos do disco estão com a "corrected speed".

Músicas:
Lado A:
1. So What (9:22)
2. Freddie Freeloader (9:46)
3. Blue in Green (5:37)

Lado B:
1. All Blues (11:33)
2. Flamenco Sketches (9:26)

Vídeos:
- Documentário (compacto) sobre os 50 anos
- "So What" ao vivo (1959)

Para saber mais:
- Kind of Blue no Wikipedia
- Livro do Ashley Kahn sobre o álbum. Já li, é muito bom. Recomendo não só para quem quer saber sobre a história do álbum quanto para quem gosta dos detalhes técnicos de gravação.

domingo, 16 de agosto de 2009

Les Paul (1915-2009)

O Sílvio perguntou se não iríamos comentar nada sobre a morte de Les Paul, ocorrida essa semana. Para muitos fãs de rock não é um nome conhecido; para muitos músicos é o nome de um modelo de guitarra -- aliás, a guitarra que ilustra o pôr-do-sol-desafinado desse blog. Mas antes disso, Les Paul foi um músico que emplacou hits #1 nos anos 40 e que seguia na ativa tocando jazz aos 94 anos de idade.

O legado maior dele foi, mais do que a música, as inovações que ele contribuiu para a música. Graças a pessoas como ele, Adolph Rickenbacker e Leo Fender, a guitarra deixou de ser um "violão amplificado". Um inventor de mão cheia, a quem a gente deve muita coisa -- não necessariamente o design da Gibson Les Paul, que ele aprovou mas não foi o arquiteto principal -- mas outras ainda mais importantes. Em particular, ele foi o primeiro a fazer gravação multi-canal:
"Em 1948, a Capitol Records lançou uma gravação que havia começado como um experimento na garagem de Paul, intitulada "Lover (When You're Near Me)", na qual Paul tocou oito partes diferentes na guitarra, algumas gravadas em meia velocidade, portanto soando no dobro da velocidade quando tocadas normalmente para a produção da gravação master. ("Brazil", similarmente gravada, estava no lado B.)

Esta foi a primeira vez que gravação multi-canal foi realizada. Estas gravações não foram feitas com fita magnética, mas com discos de acetato. Paul gravava uma trilha em um disco e então gravava a si mesmo tocando uma segunda parte junto com o disco em um segundo disco e assim sucessivamente. Ele construiu a gravação multi-canal com trilhas sobrepostas, ao invés de paralelas como ele mesmo fez mais tarde. Até chegar em um resultado com o qual estava satisfeito, ele descartou aproximadamente 500 discos de acetato."
Ouçam e apreciem.

Não tem como não lembrar dos experimentos do Brian May décadas depois. O fato de que Les Paul conseguiu esse resultado fantástico usando um método muito mais rudimentar já em 1948 diz muito... é um nome que ficará gravado não só no headstock das nossas guitarras, mas na história.

Felizes dos que conseguiram assisti-lo ao vivo tocando no clube de jazz em NYC onde ele se apresentava todas as segundas com a sua Gibson Les Paul Recording (talvez a LP mais esquisita de todas, por muitos renegada, mas incrivelmente favorecida pelo próprio guitarrista que deu o nome à série de instrumentos).

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Kikitos de Gramado: a Xaga de Xuxa

Para quem não sabe, o que se prenuncia ser o evento maior deste 37o Festival de Gramado será hoje: a entrega de um prêmio especial para Xuxa, por sua "contribuição ao cinema nacional".

Hein? Como assim? Como que filmes (se é que são dignos deste nome) como Xuxa Requebra, Xuxa e os Duendes, Super Xuxa Contra o Baixo Astral podem ser considerados "contribuições" para alguma coisa, além, talvez, da disseminação do mau gosto? Pois é, amigos, a homenagem leva em conta os mais de 30 milhões de ingressos que seus filmes venderam -- um cálculo viciado, já que contabiliza cinco filmes com os Trapalhões, alguns deles com a formação original, sempre sucesso por si sós.

O interessante é que a filmografia de Xuxa que consta na programação oficial e no material de imprensa omite as produções prévias à fase familiar dos filmes de Maria da Graça Meneghel. O mais conhecido, lógico, é Amor Estranho Amor, de 1982, célebre por uma cena em que ela transa com um menor de idade (daí ela ser a "Rainha dos Baixinhos", por supuesto). Mas há algo infinitamente mais vergonhoso, uma obra anterior, chamada Fuscão Preto.

Também realizado no início da década de 80, o filme tinha um Fuca com personalidade, aos moldes do familiar Herbie, só que com intenções infinitamente mais escusas, como sua cor indica. E sim, é baseado na música "crássica" de Almir Rogério.

No filme, Xuxa transa com o carro (isso mesmo), enquanto se apaixona por ele. Neste vídeo do Youtube (o número musical do filme -- atentem para a cena a 2min30m) dá para ter uma ideia do tipo de passado Xuxa quer se desvincilhar. A tosqueira e o mau gosto são os mesmos. Só mudou o lado pudico.

Esta é só a introdução para um texto do Chico, que vai dar um relato de bastidores -- incluindo a chegada triunfal de Xuxa num helicóptero. Aguardem.

Kikitos de Gramado: frases de Baal

Não posso comentar os filmes, como já disse, mas posso relatar o que acontece neles. Como é o caso do musical nacional Canção de Baal, que contém as seguintes frases:

"O melhor lugar do mundo é a privada".

"Se você entendeu a história, é porque ela foi mal contada".

"Meu nome é Baal / Meu nome é Baal / Meu canto e poesia / eu faço com meu pau".

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

La machinerie de l'art: Tudo é relativizado?

Acabei de voltar da terceira noite do seminário "La machinerie de l'art", onde assisti a uma palestra do Juremir Machado da Silva, na qual se discutiu entre outras coisas o pós-modernismo e as suas manifestações. Foi uma palestra bem irônica e interessante, onde ele arriscou umas definições bem boas -- uma delas, em que no pós-modernismo "tudo é relativizado" (e sim, ele mesmo apontou o paradoxo dessa definição). Mais adiante ele citou Heidegger e "A Questão da Técnica", em que ele diz que "a técnica não é igual à essência da técnica", que está além da técnica.

Esse além, esse "meta", me fez pensar em "O que é a filosofia?" de Deleuze e Guattari. Ao longo do livro eles discutem arte, filosofia e ciência, traçando um paralelo entre elas ao buscar as suas essências. Eles chegam ao que eles chamam de plano de imanência, onde estaria uma pré-arte, uma pré-filosofia e uma pré-ciência. Eles se debruçam mais sobre essa noção de pré-filosofia, claro, mas pra mim o paralelo com a pré-ciência era evidente.

A ciência existe numa busca de respostas e obviamente procura os próprios fundamentos. O mais primordial onde a ciência consegue chegar sobre a sua natureza é na sua axiomatização: ao atingir os axiomas chegamos na base da ciência. Mas esses axiomas estão sustentados em algo que os fazem serem considerados por nós válidos, aceitos como tal. Aí está a pré-ciência.

O que me intriga é que essa pré-ciência parece ser comum a todos. Simplificando um pouco, todos os povos da humanidade chegaram independentemente no "1+1=2", salvo meras variações de representação1. Ao concordarem com esse conjunto de axiomas, todos esses povos estão implicitamente concordando com uma noção única de "Ciência com C maiúsculo". Assim, todos os cientistas estão fazendo uma mesma ciência, buscando alcançar essa Ciência arquetípica ao tentar produzir relações que ressoem harmoniosamente com esses axiomas fundamentais que, por mais abstratos e arbitrários que sejam (afinal, a noção de "um" e de "soma" não são verdades absolutas, mas abstrações humanas construídas) são tidos por nós como válidos por ressoarem com a realidade.

Perguntei ao Juremir se, uma vez que a ciência se fundamenta numa pré-ciência que por sua vez é constituída de modo que temos uma referência comum (e portanto uma só Ciência), e a arte é fundamentada numa pré-arte que remete a esse mesmo "plano de imanência", então a pré-arte não seria também uma manifestação de uma Arte arquetípica comum a todos, indo contra a noção de que "tudo é relativizado" pregada pelo pós-modernismo?

Infelizmente ele não entendeu minha pergunta. A resposta dele foi de que discordava com a minha premissa de "uma só ciência". Ele disse que vê muitas ciências diferentes sendo realizadas, que umas são aceitas e outras não e que muitas discordam entre si pois com o passar do tempo umas teorias científicas refutam as outras.

Talvez eu tenha me expressado mal (e o mediador mandando eu fazer a pergunta mais rápido também não ajudou muito), mas a parte que ele não pegou da pergunta foi que o meu foco não era nas ciências aplicadas, nem no fazer da ciência e nem nas teorias científicas, mas sim na axiomatização da ciência (termo que eu citei rapidamente durante a pergunta, sem toda a explicação de um parágrafo que eu pude escrever aqui). Sim, a relatividade não confere com Newton e a teoria quântica não confere com a relatividade. No que isso acontece, o peso de "verdade científica" da teoria anterior diminui, o seu status de assim-é-o-mundo, mas não o seu valor como fazer científico onde o fazer científico é a busca por essa Ciência comum fundamentada nos axiomas que nós humanos inventamos2.

Para não perdermos o fio da meada: essa pré-ciência no qual a ciência se fundamenta não são os axiomas da ciência. Mas algo que vem antes, aquela coisa que nos faz escolher alguns axiomas e não outros. Não estaria a arte galgada numa pré-arte que também nos é comum? É a pergunta para a qual não tenho resposta.

É mais difícil tentar visualizar essa "pré-arte" (origem da arte no plano de imanência) uma vez que na arte não há uma "ordem" que nos leve facilmente ao limiar, ao contrário da ciência, que é toda "quadradinha" e tem nos seus axiomas o seu limiar; e da filosofia, onde podemos ir até a metafísica e questionar a noção do que é "ser". Assim, enquanto os cientistas normalmente olham para o todo e veem "uma só Ciência" (não raro enganados achando que estão vendo o Mundo), não me parece familiar aos artistas a noção de ver "uma só Arte", ainda mais porque para cada artista falamos sempre na "sua arte".

Ainda assim, quando se pergunta, como se tem perguntado tão frequentemente nessa série de seminários, "o que é arte?", não estamos falando de uma arte, nem que seja "a" arte enquanto um conceito geral? E se essa é uma pergunta válida, e exista um conceito geral do que é arte3, não haveria em todas as manifestações artísticas atributos seus que remetem aos atributos desse conceito geral, por mais indiretamente que seja?

Se nas manifestações científicas e filosóficas o caminho até as noções fundamentais é normalmente longo, não esperaria que na arte fosse diferente. Mas se eu vejo na ciência e na filosofia, por todas as divergências que as correntes internas de cada uma têm entre si, um ímpeto comum que agrega todas elas como um todo, seria tão estranho de pensar que seria o mesmo na arte? Ela é tão fundamentalmente diferente? Pra mim não há como não pensar em Hofstadter nesse ponto e dizer "não, ela não é".

Como na ciência os povos chegaram independentemente aos mesmos axiomas guiados por ímpetos comuns, e vários acabaram inventando o "1+1=2" e um bom tempo depois a noção de "zero" e assim por diante, esses mesmos povos atingiram muitas vezes resultados comuns na arte. O desenho, a noção de arte figurativa, a noção posterior de arte abstrata, a escala pentatônica na música... claro que estes estão muito longe de serem "axiomas da arte", mas ainda assim não apontam em uma direção comum? E se há uma direção comum, então a noção pós-moderna do "tudo é relativizado" não seria um erro?

Perguntas, perguntas, perguntas...



1 - A noção de soma pode ser construída a partir de axiomas mais fundamentais, como demonstram os Axiomas de Peano, mas a soma de naturais basta como exemplo de noção científica basilar e incontestada. (voltar)

2 - Há quem simplifique e diga que a ciência busca a "Verdade com V maiúsculo", mas aí caímos na discussão do que é verdade: na filosofia, atividade que no mesmo livro Deleuze chamou de "criação de conceitos". O fazer científico se calca nos seus próprios axiomas e deles não passa. Simplificando novamente: se eu tento modelar um processo físico com uma equação e ela não bate com os experimentos empíricos, eu concluo que ou a equação não é um bom modelo, ou ela é um bom modelo e eu errei o cálculo. Não se questiona que a noção de "igualdade" possa estar errada. (voltar)

3 - Talvez o conceito geral de arte não "caiba na linguagem" -- para parafrasear o próprio Juremir -- e por isso estaríamos condenados a falar e falar sobre ele sem chegar numa conclusão satisfatória.
(voltar)

A 1a. bebê com duas mães biológicas: homem pra quê?


Freud se revira na tumba: Lluna é o nome da primeira bebê do mundo a ser registrada com duas mães biológicas. O fato ocorreu na Espanha, onde um casal de lésbicas fez o seguinte: o óvulo de uma foi implantado na barriga de outra. Ao pai biológico, é preservado o anonimato, da mesma forma que nos casos semelhantes.

Não me causou espanto a notícia. A técnica é pra lá de antiga - lembram quando se falava direto em "Barriga de Aluguel"? O que me chama atenção é que este fato é mais uma comprovação de uma teoria que tenho há algum tempo: os homens são realmente necessários para dar continuidade à espécie humana? Certamente que sim, pois sem o seu "suco", a gravidez não ocorre.

Mas agora imaginemos o seguinte cenário: o mundo dominado pelas mulheres. A tecnologia biomédica está evoluída a ponto de ser possível escolher o sexo do bebê com 100% de certeza. De tempos em tempos, as mulheres escolhem entre elas as suas melhores espécimes para engravidar, dão a luz a um bebê homem, que será criado em cativeiro, e que terá a partir de sua puberdade condições de fornecer seus espermatozóides a milhares de mulheres. E assim a vida humana prossegue sua jornada.

Claro que nos dias de hoje ainda existe a dependência física e psicológica das mulheres (algumas com mais, outras com menos) em relação aos homens. Mas a evolução deverá tratar este assunto: à medida que a "necessidade de homem" for diminuindo - como evidencia esse caso ocorrido na Espanha - também diminuirá gradativamente a dependência. Ambiente mais que propício para o cenário que apresentei antes.

Será que chegou a hora das mulheres vingarem os milhares de anos de dominação masculina?

Kikitos de Gramado: pergunta do dia

Por que o Roberto Farias, e o Reginaldo Faria?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Kikitos de Gramado: tietagem septuagenária

Cenário: pavilhão da Expo Gramado, onde acontecem as coletivas de imprensa dos filmes em competição e dos homenageados do Festival.

Personagens: três senhoras na faixa dos seus 70 e poucos anos, com máquina fotográfica na mão e crachá de visitante do Festival; Reginaldo Faria, o homenageado-mor dessa edição do Festival de Gramado.

Diálogo

Senhora 1: - Ai, que horas esse homem chega, hein?

Senhora 2: - AHHHHHH! Ali vem ele!

Senhora 1: - Onde?

Senhora 3: - Ali, ó (apontando pra escadaria)! Olha as perninhas tortas, só pode ser ele!

Senhora 1: - Ai, mas que coisa gostosa esse homem!

Senhora 2: - É um pedaço de mau caminho... ui!

Senhora 3: - Reginaldo!!!!! Posso tirar um retrato contigo?

Reginaldo: - Claro...

E assim mais três tietes foram satisfeitas.

Kikitos de Gramado: que espanhol que nada...

No debate que aconteceu hoje pela manhã, sobre o documentário argentino La Próxima Estación, foi uma constante: o representante do filme no Festival é o seu produtor (o diretor é deputado e tinha agendas políticas ou simplesmente não quis vir). Como bom argentino, não fala nada de português. No entanto, vários repórteres, críticos e outros presentes tentaram falar em espanhol com ele. Espanhol mesmo, não portunhol. Resultado: o sotaque dos falantes era tão carregado e incompreensível para ouvidos portenhos, que o produtor precisava que o tradutor vertesse do espanhol dos debatedores para o espanhol dele. No fim das contas, pediu:

- Hablen portugués, pero tranquilo...

Kikitos de Gramado: começou a indiada

Agora virou indiada de vez. Vamos ao diário de ontem - atrasado, porque o segundo dia de Festival foi um inferno pra mim, não tem NINGUÉM ainda aqui em Gramado, e a TV fica me ligando e pedindo pautas. Enfim, vamos lá:

9h - Deu tempo de tomar o café no hotel. Vamos à guerra.

10h - Banho e pré-produção das pautas do dia.

11h15 - Chegamos na Expo Gramado para o debate da bomba, digo, do filme do Sérgio Silva, "Quase um Tango".

12h - Durante o debate, momento alto do Festival (possivelmente, de TODO o Festival, até o sábado): um sujeito idoso pede a palavra, e recebe o microfone. Daqui, sou obrigado a transcrever literalmente as palavras do infeliz:

"Olá. Sou o Jesus. JESUS, O VERDADEIRO".

(momento de tensão no debate)

Ele continua:

"Sérgio, queria dizer que gostei muito do teu filme. Aliás, queria dizer que gostei antes mesmo de ele começar a ser exibido, só por ele ser brasileiro. Porque nós não somos obrigados a engolir as porcarias desse povo medíocre e imbecil que são os americanos!"

E esse foi o mantra que ele repetiu por uns cinco minutos durante sua "pergunta", enquanto o mediador tentava interrompê-lo e passar a palavra pro diretor, e enquanto eu me segurava MUITO pra não rir da figura.

14h - Produzir as entradas ao vivo no Camarote TVCOM à noite. Mais um inferno na Terra, não tem NINGUÉM interessante - ou ao menos que interesse a produção do programa, lá em Porto Alegre. Pra piorar, o diretor do filme estrangeiro de segunda não vem ao festival, e a diretora do filme brasileiro, na hora da entrada ao vivo, já está dentro da sala de cinema para apresentar seu filme.

Solução: entrevistar o diretor do filme de ontem. Se não fosse ateu, esse era o momento de começar a rezar.

15h - Somos avisados que vai haver uma entrevista coletiva marcada de última hora com o Reginaldo Faria, um dos homenageados desse ano, às 17h30, no Serra Azul. "Vamos gravar e mandar pro pessoal do Camarote", pensei.

17h30 - Começa a coletiva, gravamos o material pro Camarote.

19h45 - Termina a função com o Reginaldo Faria, que só aceitou dar entrevista se fosse junto com os três filhos, mais marrentos que o Romário e o Renato Gaúcho JUNTOS. Deu certo. Mais tranquilo agora.

20h30 - Testando o equipamento pra entrada ao vivo do tapete vermelho, na frente do Palácio dos Festivais.

21h - Entramos ao vivo com o Roger Lerina entrevistando o Sérgio Silva. Deu certo. Rendeu bastante a conversa.

21h15 - Termina a nossa parte com o Camarote. Eu sigo até às 23 horas auxiliando com as gravações dos boletins da RBS pra Globo News, TVCOM, Jornal da Globo e, lógico, pros jornais da RBS.

23h15 - Janta. Comi um cachorro quente MUITO BOM.

0h - Vamos pra uma das festas diárias já citadas no outro post pelo Ulisses. Chegando lá, encontro ele. Ficamos comentando as bizarrices do festival até aqui, e falando de futebol.

2h30 - Chego no hotel. Meu cartão de entrada no quarto foi desmagnetizado. Fui obrigado a acordar o coitado do guri da portaria, dormindo em um colchão atrás do balcão, vestido pro trabalho.

3h - Finalmente, o sono vem.

Playlist do dia:

"Rubber Soul", "Revolver", "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", "The Beatles" - The Beatles

Acompanhando (e comparando) notícias pelo Twitter

De uns tempos pra cá o Twitter virou minha fonte principal de notícias. Sigo no Twitter alguns órgãos de imprensa nacionais e internacionais:
Às vezes é difícil escolher que contas de notícia seguir. Um problema comum é que muitas postam coisas demais que tomam a timeline. Felizmente, CNN e BBC têm contas especiais de "breaking news" que só postam as principais manchetes, além das contas normais com todas as notícias. Seria bom se todos os órgãos de imprensa tivessem isso!

Acompanhando notícias dessa forma, uma das coisas mais legais (e importantes!) é comparar as diferentes abordagens sobre os assuntos. Hoje apareceram três twits consecutivos de diferentes órgãos de imprensa sobre a mesma notícia:

@ajbreakingnews: Myanmar court finds Aung San Suu Kyi guilty of violating security law.

@bbcbreaking: Burma's pro-democracy leader Aung San Suu Kyi found guilty of violating secuirty law and sentenced to 18 more mo.. http://www.bbc.co.uk/news

@cnnbrk: Myanmar opposition leader Aung San Suu Kyi sentenced to 18 months of house arrest http://bit.ly/190vQT #Myanmar #Burma

A primeira diferença óbvia é o nome do país. Esta é uma questão bem delicada: não há como dar a notícia sem tomar um posicionamento. A BBC chama o país de Burma (Birmânia, mesmo nome usado nos tempos de colonialismo britânico), que é a posição oficial do Reino Unido. Os outros dois chamam de Myanmar (Mianmar), que é o nome adotado oficialmente pelo governo ditatorial que controla o país, reconhecido pelas Nações Unidas. É interessante notar que, apesar do governo americano rejeitar o nome Myanmar, a CNN segue a posição da ONU.

A BBC, aliás, é a que mais explicitamente expõe sua posição política na manchete, chamando Aung San Suu Kyi de "pro-democracy leader" enquanto a CNN usa "opposition leader". Isso é uma coisa que eu gosto na imprensa inglesa -- de maneira geral eles não fazem o teatrinho da imparcialidade. Se quer a visão de esquerda, lê o Guardian; se quer a visão liberal, lê o Independent; se quer a visão de direita, lê o Times; se quer se alienar, lê o Sun; se quiser se alienar mesmo, lê o News of the World (curiosamente, os dois últimos são do Rupert Murdoch, dono da Fox News nos EUA). Mas pelo menos isso é explícito, então a pessoa pelo menos tem que tomar ciência do seu próprio posicionamento ao escolher o jornal, além de ter a opção de ler mais de um pra ter uma visão mais ampla do espectro político.

Dos três twits, só a CNN postou um link para a notícia completa e foram os melhores na forma de usar o espaço. Vale notar que o @cnnbrk foi criado por um usuário autônomo não ligado à CNN a partir do RSS do canal. Ele já era a conta mais seguida do Twitter quando o Ashton Kutcher resolveu iniciar uma competição pra ver quem chegaria a 1 milhão de followers primeiro em abril passado, o que gerou um fuzuê na mídia americana. Como o Termo de Serviço do Twitter proíbe revender contas, a CNN resolveu contratar o criador do @cnnbrk e agora eles têm um "twitador oficial".

Mesa-redonda bola-quadrada: Barueri x Grêmio, Inter x Sport

Post atualizado com o jogo do Inter dessa segunda.

E aqui está a atualização da rodada, que foi um tanto atípica: o Inter jogou só na segunda-feira. Já o Grêmio não foi nada atípico, com mais uma derrota fora de casa. No Clássico dos Grêmios, o Recreativo Barueri levou a melhor sobre o de Football Portoalegrense:
  • Barueri 1x0 Grêmio
Passei no Bar do Tatão perto do fim do jogo e encontrei lá o Sílvio. Aproveitei pra fazer uma mini-entrevista, para capturar para o blog as impressões de um gremista que assistiu o jogo inteiro. Com vocês, Sílvio Moser comentando a partida.

O Inter, de volta ao Campeonato Brasileiro, jogou em casa contra o lanterna Sport:
  • Inter 3x0 Sport
Assisti o segundo tempo. O Inter pareceu bem mais desenvolto que nas últimas partidas, mas não sei o quanto isso era devido ao fraco rendimento do adversário. Sandro e Giuliano fizeram os dois primeiros gols. Aliás, Giuliano pra mim foi um dos destaques da partida. Uma coisa que eu senti é que o esquema tático não estava nada óbvio. Aquela coisa do "Inter manjado" não parece estar rolando mais. Giuliano por vezes fazendo uma função quase de ala; Índio saindo contundido e Bolívar virando zagueiro no meio do jogo pra entrada de Danilo Silva; Taison saindo no final pra entrada de Marcelo Cordeiro (essa última eu não entendi o desenho tático até agora!). Kléber também foi mais participativo, botando várias bolas na área. Mas é lógico que o assunto da terça-feira vai ser a entrada de D'Alessandro lá pelos 35 minutos no lugar de Andrezinho. D'Ale entrou decidido, e quando teve a chance na entrada da área, chamou a jogada pra si, marcou o gol e correu pra torcida, comandando o coro da galera. Se encheu de moral.

Mas o jogo mais esperado da rodada de final de semana, sem dúvida, não era de Grêmio nem de Inter, mas sim a lendária Batalha do Norte, onde Genus (RO) e Atlético (RR) decidiriam a vida na Série D. Digo "decidiriam" porque, numa reviravolta dos acontecimentos, tal como só poderia acontecer na nossa imprevisível Quarta Divisão, o Atlético Roraima desistiu de última hora da partida e do campeonato! (conforme reportado em primeira mão pelo nosso intrépido Roberto Coutinho.) A CBF concedeu ao Genus uma vitória automática de 3x0 e agora ele segue para a segunda fase, enfrentar o São Raimundo (PA).

Estão definidos também os demais confrontos para a segunda fase:
  • Nacional (AM) x Cristal (PA) - O Nacional vai encarar a bem-estruturada equipe do Cristal, que acabou ficando em segundo no seu grupo em função do saldo de gols.
  • São Raimundo (PA) x Genus (RO) - O Atlético Roraima chegou a fugir só de pensar em encarar o Genus na temida Batalha do Norte... vamos ver como o São Raimundo vai se sair!
  • Ferroviário (CE) x Sergipe (SE) - Duelo entre o campeão cearense e o vice-campeão sergipano.
  • Central (PE) x Alecrim (RN) - O Alecrim acabou em segundo no seu grupo, e vai pegar o Central, que despachou em seu grupo adversários de tradição como o Santa Cruz e o CSA. Páreo duro.
  • Macaé (RJ) x Paulista (SP) - Rivalidade Rio-São Paulo, nem precisaria falar mais muita coisa. Acrescente-se a isso a boa campanha do Macaé e a cancha em mata-matas do Paulista de Jundiaí, detentor de um título de Copa do Brasil.
  • Tupi (MG) x Fluminense (BA) - O Tupi encara toda a tradição do Fluminense... de Feira de Santana.
  • Uberaba (MG) x Brasília (DF) - O Uberaba é um dos três mineiros classificados. O estado com mais representantes na segunda fase.
  • Araguaia (MT) x Uberlândia (MG) - E restou o Araguaia como representante do Centro-Oeste (Brasília conta como Centro-Oeste? Parece ser tão uma coisa "à parte" de tudo...)
  • Chapecoense (SC) x Corinthians (PR) - O Chapecoense é a esperança catarinense no campeonato. Conseguirá despachar o J. Malucelli, quer dizer, o "Corinthians"?
  • São José (RS) x Londrina (PR) - O Zequinha é o único representante do Rio Grande do Sul... e agora é mata-mata! Pode ser nossa última chance de assistir ao vivo um jogo da Série D!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Kikitos de Gramado: um diálogo

Cenário: festinha exclusiva para celebridades, com uns jurados perdidos. Muita Stella Artois de graça no bar

Protagonistas: Rodrigo, um dos jurados, sujeito muito gente boa, e eu.

Rodrigo: Nunca fui numa festa com Stella Artois na faixa.

Eu: Nunca fui numa festa com a Ingra Liberato e a Vivianne Pasmanter, isso sim!

Kikitos de Gramado: você é o famoso quem?

Como bem disse o Chico, cá estamos em Gramado, no Festival de Cinema em sua trigésima sétima edição -- ele trabalhando para a TVCom e eu como ilustre membro do Júri Popular. Eu e mais onze criaturas, provenientes dos mais diversificados lugares, temos a atribuição de laurear um longa nacional e outro latino com a premiação de Melhor Filme pelo Júri Popular. As regras são claras: não posso comentar os filmes nem mesmo com os meus colegas, apenas no dia da premiação poderemos conversar sobre nossas impressões.

Mas nada me impede de fazer um relato de bastidores...

Pensei em fazer uma descrição dos meus colegas de júri, mas demoraria muito. Vamos à parte folclórica mesmo.

É muito engraçado ser um anônimo com relativa importância no meio de um monte de gente famosa (ou mais ou menos famosa), ainda mais se o anônimo for um iconoclasta como eu, que não leva quase ninguém muito a sério. Enquanto alguns tietam, eu tiro sarro. A cada novo entrevistado pela equipe da Rede TV, eu lembrava de Alberto Roberto desferindo uma das suas frases cabedais: "E você é o famoso quem?". Era o que mais tinha ontem à noite: "famosos quem" por todos os lados.

É engraçado ver as "famosidades" e artistas de verdade de perto. Oscar Magrini come de boca aberta, por exemplo, o que fica ainda mais engraçado com o chapéu que ele usava (que, de acordo com as opiniões femininas recolhidas na ocasião, faziam ele parecer uma mistura de Indiana Jones com Beto Carreiro -- mais para o segundo que para o primeiro) e Vivianne Pasmanter tem um semblante tão sereno e luminoso (sim, essa é bonita mesmo) que tu tem certeza que tu vai te apaixonar por ela.

Mas o divertido mesmos foi quando eu e o Chico divisamos um ator da Record que lembra muito o Dolph Lundgren (Deus sabe o nome dele), e o Chico disse:

- Alguém tinha que um dia chegar nele e dizer: e aí, Drago, muitos esteróides?

domingo, 9 de agosto de 2009

Kikitos de Gramado: a viagem

Devido ao meu trabalho, estou em Gramado de hoje até o próximo domingo. Diariamente, eu e o Ulisses vamos postar pequenos textos falando um pouco sobre o Festival de Cinema de Gramado 2009.

Começando com a viagem.

10h - Primeiro percalço: nosso motora, o Maneca, está com enxaqueca e enjôos fortes. A chuva não para. Trocamos de carro, porque a quantidade de equipamento é muito grande. Ao invés de uma Parati, uma Blazer. Bela troca.

10h15 - Começa a viagem. O Maneca não para de fazer caretas de dor. O Hugo, cinegrafista, está preocupado com ele. Mas não o suficiente pra ficar acordado durante a viagem. Eu dei uns cochilos rápidos, pra recuperar um pouco o sono (ou vocês acham que eu acordo cedo no domingo normalmente?...)

12h - Chegamos ao hotel, o mesmo que ficamos no ano passado. Tenho o quarto só pra mim. Boa!

12h30 - Almoço bom, a 10 reais, bem no centro. Comi demais.

13h15 - Volta pro hotel, pra descansar um pouco. O trabalho já começa hoje. Às 16h, tem coletiva de imprensa com a Dira Paes, uma das homenageadas. Às 21h, é exibido o primeiro filme da mostra competitiva, "Quase um Tango", de Sérgio Silva - o mesmo que dirigiu uma bomba chamada "Noite de São João". Medo.

13h45 - Papo com o Roger Lerina, apresentador do Programa de Cinema, pelo telefone. Ele vai estar na coletiva, vamos tentar entrevistar a Dira lá mesmo. A entrevista com a equipe do filme da noite parece que vai ficar para amanhã.

14h - Banho.

14H50 - Saindo do hotel para ir até a Expo Gramado, onde acontecem os eventos do festival.

À noite, mais atualizações.

Playlist do dia até aqui (lógico que eu trouxe o mp3 player...):

"Grace" - Jeff Buckley
"Pop" e "Zooropa" - U2
"Abbey Road" e "Let it Be... naked" - The Beatles

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Mesa-redonda bola-quadrada: Fernandão

Um post futebolístico diferente essa semana. Mas antes, parafraseando outras modalidades olímpicas, vamos aos "movimentos obrigatórios":
  • Palmeiras 1x1 Grêmio (Campeonato Brasileiro)
  • Inter 2x1 Oita Trinita (Copa Suruga, Japão)
O Chico ficou de falar sobre o jogo do Grêmio na seção de comentários (demais gremistas, sintam-se à vontade também). Do jogo do Inter não tenho muito o que falar. Ganhou a famigerada Copa Suruga. Parabéns.

Acho mais interessante comentar sobre o caso do Fernandão. Além de jogar uma luz sobre os problemas atuais do Inter, acho ele emblemático sobre o jeito que as coisas são feitas "no mundo de hoje", e não só no mundo do futebol.

O que aconteceu foi que Fernandão esperava ser tratado como amigo, e foi tratado de forma "friamente profissional".

Ele havia se comprometido a priorizar o Inter na sua volta para o Brasil. Pela sua identificação com o clube, com a cidade, com a torcida. Todas essas coisas que as pessoas sempre dizem que "é tudo papo, jogador hoje em dia só pensa em dinheiro". Lógico, se pensa em dinheiro também. Afinal, quando o Fernandão saiu pra ir pro Qatar foi pela grana (e pela situação das coisas no Inter na época, não vamos esquecer).

Resumindo a história, ele anunciou que estaria deixando o Qatar mais cedo que o previsto e retornando ao futebol brasileiro. A expectativa toda na torcida e na imprensa era uma volta pro Inter (com opiniões contra e a favor). Carvalho reafirmava que o Inter tinha preferência no negócio e Fernandão que ele tinha preferência pelo Inter. Mas quem realmente demonstrava interesse em ter o jogador eram São Paulo, Santos e Palmeiras. Enquanto os paulistas eram abertos e diziam coisas como "o Fernandão tem o perfil do São Paulo" e Vanderlei Luxemburgo dizendo "estamos fortes na briga por Fernandão", em Porto Alegre as manchetes eram de "cautela". Fernandão estava ansioso: "É lógico que a primeira proposta que pretendo ouvir é a do Inter. Mas até agora não recebi nada". Ao que tudo parece, FC não queria Fernandão de volta e fez de tudo pra evitá-lo. Fernandão tentou fazer contato, não conseguiu, entendeu a indireta e surpreendeu a todos pondo de lado propostas do centro do país e voltando à sua primeira casa, o Goiás. Pra mim a atitude seca de Fernando Carvalho ficou evitente quando ele tentou se explicar, dizendo que tinha tentado entrar em contato com Fernandão falando que "Felizmente eu tenho prova documental, mas não quero usar isso." Contrastem com a versão de Fernandão: leiam o relato completo (não consegui selecionar um trecho para postar aqui, vale a pena ler tudo mesmo).

Fernandão anunciou sua ida pro Goiás através de uma ligação pro celular pessoal de Iarley, talvez para simbolizar a sua prioridade pela amizade. Nessa entrevista (vídeo), ele deixa isso bem claro. Futebol lida com emoções. É fácil ser cínico e dizer que "é tudo um grande negócio, todos os envolvidos só se importam com o dinheiro", mas isso não é falar a verdade completa. Sim, o beijo no distintivo de um jogador que é recém apresentado a um clube novo é falso, mas as lágrimas que eu chorei na final da Libertadores de 2006 quando o Fernandão levantou a taça eram verdadeiras. E as dele também.

Nesse caso da sua volta ao Brasil, Fernandão pode ter tido uma atitude "emotiva", mas a ida dele pro Goiás deu uma mostra de que existe outro jeito em que as coisas podem ser feitas. E tem ganho elogios pela atitude e ainda mais respeito.

O que aconteceu com Fernando Carvalho? O sucesso lhe subiu à cabeça? Primeiro foi o fiasco de querer criar sozinho um fato de desequilíbrio nas vésperas da final da Copa do Brasil, com o mal-fadado DVD querendo fazer pressão na arbitragem. Agora esse rolo com o Fernandão, ao mesmo tempo que ele faz ouvidos surdos e prefere ficar fazendo picuinha com o Grêmio em função da patética Copa Suruga. Sobre o fiasco, FC continuou sendo meramente político.

E por que não trazer Fernandão? Uns dizem que uma eventual má fase dele por aqui iria "macular a imagem do ídolo". Isso é preferir preservar a marketability do produto "ídolo" do que considerar a pessoa. Outros dizem que está "velho" com 31 anos. Enquanto isso, o Inter acabou de anunciar Edu, de 30. Eu acho que a volta do Fernandão teria sido o "fato novo" que o Inter precisava para dar aquela sacudida e afastar a má fase em que se afundou nos últimos meses, e daria ao Inter uma liderança que às vezes não encontra no Tite.

Fernandão e Iarley -- eu queria esses dois no meu time. F9 de volta ao clube que o formou, o clube que era o seu sonho de criança. De volta a formar dupla com Iarley, que continua metendo gol a cada rodada. Com o técnico com o qual foi campeão da Série B em 1999, maior feito do clube até então. Vários amigos já me ouviram dizendo em outros tempos que o Campeonato Brasileiro é uma competição "jovem" comparada aos campeonatos centenários da Europa e que existirem clubes que sempre brigam mas não têm título nacional é só questão de tempo. E eu sempre dava como exemplo o Goiás. Bom, do Goiás desse ano eu não duvido mais nada. Pois eles estão em boa fase e agora eles têm o "fato novo".

Sábado, 29 de agosto, Fernandão vai se reencontrar com o Beira-Rio e nós vamos nos reencontrar com nosso maior capitão. Mas não era pra ser desse jeito.

A morte dos anos 80


Muito se falou que a morte de Michael Jackson seria o sinal de que os anos 80 estavam, oficialmente, dizendo adeus. Que aquele clássico revival que acontece a cada dez anos, resgatando os costumes, músicas, moda e filmes de 20 anos atrás, estava terminando para a "década perdida". Errado. A época das polainas ainda teve uma sobrevida de quase dois meses - capenga, trôpega, é verdade, mas ainda vivia firme e forte através da curta e importante obra cinematográfica de John Hughes.

John Hughes poderia ser classificado aqui no Brasil como o "homem da Sessão da Tarde". Ninguém merece mais esse título - honroso, diga-se de passagem - do que ele. Se ele tivesse filmado só um roteiro em toda a carreira, e este fosse o clássico-mor "Ferris Bueller's Day Off" - ou "Curtindo a Vida Adoidado", onde "um garoto apronta muitas confusões" ao matar a aula -, ele já mereceria toda a deferência possível de quem nasceu, cresceu ou viveu nos anos 80. Mas Hughes não fez só isso.

Em cinco anos, de 1984 a 1989, o cara consegui fazer 7 filmes que se tornaram clássicos. Uns mais, outros menos. Mas todos divertidos, despretensiosos, engraçados, emocionantes, com cenas clássicas.

Foi embora com John Hughes ontem uma visão. Uma maneira de encarar a vida. Uma moda. Uma música. Alguns estereótipos. Mas, principalmente, o que John Hughes levou embora com ele foi um estilo de filmar sem medo de ser divertido, e, ao mesmo tempo, muito bem realizado.

Ps: convido os amigos a compartilhar suas lembranças mais remotas dos filmes do mestre Hughes nos comentários. Certamente alguém vai lembrar de algo engraçado.
Ps. II: OLHEM O TÍTULO PORTUGUÊS DE "FERRIS BULLER'S DAY OFF" NA WIKIPEDIA. É impagável.


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Risadas em diferentes idiomas

Uma coisa que é praticamente igual no mundo inteiro, independente de idioma, é o som da risada. Salvo variações pessoais, sempre soa de maneira geral como um "hahahahaha"... mas vocês já pararam pra pensar que em várias línguas não se escreve esse som com essas letras? Aqui vão alguns exemplos, com links para vídeos do Youtube onde usuários de diferentes lugares deixaram suas risadas por escrito:

Espanhol:
jajajajajajajajajajajaja

Russo:
хахахахахахахахахаха
(parece xis mas não é -- é um kha cirílico)

Grego:
χαχαχαχαχαχαχαχαχαχα
(a maioria dos gregos no Youtube digita usando o alfabeto latino,
usando "xaxaxa" ou "hahaha", mas dá pra ver a risada com alfabeto grego
na descrição desse vídeo)


Árabe:
هههههههههههههههههههههههه
(em árabe de maneira geral não se escrevem vogais,
então a risada é apenas a letra he -- sim, a mesma de Hisham -- repetida;
as letras "diferentes" nas pontas são a forma inicial e final da mesma letra.)


Hebraico:
חחחחחחחחחחחחחחח
(idem ao árabe -- e não, isso não é um ene :-) )

Japonês:
wwwwww
(esse é o único da lista que não é fonético:
eles usam o "w" latino -- vem de warau, que significa risada)



terça-feira, 4 de agosto de 2009

"Vossa Excelência é um canalha!": luta de titãs no Senado

Fazia um tempinho que o Senado Federal não nos brindava com algum bom bate-boca para animar o baile político de Brasília. De uns anos para cá, a chamada Câmara Alta do Congresso passou a rivalizar em chinelagem com a Câmara dos Deputados, costumeiro antro de negociatas e lar de políticos estúpidos (que rivalizam em idiotice, claro, com o povo que os elegeu). Nos últimos anos, tem sido frequente a encenação de farsas satíricas na tribuna (ou palco) senatorial, protagonizadas especialmente pelos seus presidentes -- como no caso de Jader Barbalho em 2002 (numa denúncia levantada, acreditem se quiser, pelo já-foi-tarde Antônio Carlos Magalhães).

Pois ontem tivemos um duelo de titãs no Senado, daqueles que mereciam uma crónica épica para si só. O fandango envolveu o sempre faca-na-bota Pedro Simon, eterno senador pelo Rio Grande do Sul (em seu quarto mandato), que pedia mais uma vez que o nosso já debatido José Sarney deixasse a presidência daquela Casa. Aliás, quem conhece a trajetória parlamentar de Simon sabe que ele defende com força a saída de senadores, ministros e que tais, quando estes paracem envoltos em confusões. Ontem, porém, ao discursar para um Senado vazio (bem ao modo das segundas-feiras no Planalto Central), Simon incorreu na fúria de dois monstros sagrados (mais monstros do que sagrados, vejam bem) da política alagoense.

O primeiro a tomar as dores do Lorde do Maranhão e do Amapá foi Renan Calheiros -- do mesmo partido de Simon, o PMDB, e ele mesmo um presidente do Senado destituído por conta de um escândalo, em 2007 (pelo menos, tem muito bom gosto para escolher suas amantes...). Renan começou a atacar Simon, ao proferir que era "esporte preferido" do senador gaúcho denegrir o ex-predidente durante os "últimos 35 anos", lembrando que Simon não queria Sarney na chapa de Tancredo Neves (no que, temos que convir, Simon tinha toda a razão). O caxiense não leva desaforo para cara e, para ficar no campo light do que poderia dizer, acusou Renan de ter feito alianças com Fernando Collor -- que, vejam vocês, foi eleito senador pelo estado de Alagoas (campanha pela emancipação deste estado do resto do Brasil, pelo amor de Deus!) e que, mais incrível ainda, estava dentro do Senado naquela hora.

Collor mandou Simon engolir suas palavras, digeri-las e fazer o que quisesse com elas -- ou seja, cagá-las. Collor, aliás, usou a sua conhecida expressão facial enlouquecida ao xingar Simon, olhos vidrados e dedo em riste. Há que se ter respeito pelo homem: seu pai, o saudoso senador Arnon Afonso de Mello, tentou matar a tiros (dentro do Senado!) seu inimigo político Silvestre Péricles de Góis Monteiro, em dezembro de 1963. O papai de Collor, porém, tinha mira ruim e acabou acertando três tiros no senador acreano José Kairala, que nada tinha que ver com a história e morreu. O que aconteceu com Arnon de Mello? Foi cassado mas não condenado, e retornou às funções senatoriais em 1970, sendo reeleito oito anos depois. Morreu placidamente no exercício da função.

Ora, vá que Collor tente acertar Simon e acabe atingindo, sei lá, o importantíssimo senador Papaléo Paes (não é brincadeira, tem um cara com esse nome). Simon vai ter que esperar (sentado) as denúncias que Collor ameaçou fazer ao senador riograndense durante o nhenhenhém de ontem.

Enquanto isso, o Conselho de Ética vai arquivando as denúncias contra Sarney. E nós, aqui, ficamos no aguardo do próximo escândalo, desejando ardorosamente que um parlamentar grite em alto e bom som para algum ilustre colega: "Vossa Excelência é um canalha!".