Finalizando meus relatos sobre o show bombástico do AC/DC em terras paulistanas, vamos à indiada propriamente dita.
Eu tive muita sorte de poder ir de carona com os meus amigos locais, Joel e Priscila -- porque, como eu já disse, chegar no Morumbi é um problema, e sair de lá é um problema maior ainda. Mas o engraçado é que São Paulo é tão descomunalmente megalópode, que nem mesmo os paulistas a conhecem direito. Meus amigos não tinham certeza de como se chegava ao estádio. Fora isso, já tínhamos saído com um carro quando lembraram que aquela placa não podia circular naquele dia/horário por causa do rodízio.
Após uma troca de veículos (e uma viagem de quase uma hora até chegar no estádio), encontramos o já citado estacionamento de R$ 100,00. Eu me dirigi ao meu setor dentro do estádio (a arqubancada mais próxima do palco). Arquibancada sim, por dois motivos: 1) eu queria assistir ao show, não agitar e 2) não tenho mais idade para a pista.
Estava eu lá, sentadinho num dos assentos da arquibancada, cercado por uma fauna que incluia piás bêbados, tiozões animados e famílias inteiras (ao meu lado estava uma mãe com o pecorrucho de uns 11 anos, que não tinha muita ideia do que estava acontecendo), quando aconteceu. Havia previsão de chuva para aquela noite, e o clima estava muito a fim de tornar a previsão realidade. De súbito, do meu lado do estádio, começaram a assomar-se imensas nuvens negras que, no melhor estilo "filme de fantasia dos anos 80", foram lentamente encobrindo o estádio.
Bem, aquela massa escura ia se deslocando lentamente por cima de nós, causando imenso frenesi. Subitamente, todos os vendedores de cerveja, pipoca e picolés sacaram capas de chuva e começaram a vendê-las para o público. Eu já tive a experiência de ver um show abaixo de um toró (Helloween e Iron Maiden, 1998) e sabia que, se chovesse de fato, aquelas capas baratas feitas com o mesmo plástico das sacolas de supermercado de nada serviriam. Por isso, fiquei sentado, quieto, aguardando.
Foi exatamente quando a nuvem negra pareceia estar indo embora (eu já via umas nesgas de céu por trás dela), a chuva começou: pingos pesados e intermitentes. Quase que imediatemente, o responsável pelo som mecânico dos P.A.s teve a abençoada ideia de pôr para tocar War Pigs, do Black Sabbath. Imediatamente, as tantas mil pessoas que já estavam no estádio naquela hora começaram a agir como se começasse uma apresentação do próprio Sabbath: batiam palmas no ritmo, cantavam a letra, faziam coro no riff.
E, tão logo a música terminou, a chuva também passou, num fim quase uníssono. Parecia ser um tributo que os deuses do rock queriam antes de permitir que assistíssemos aos australianos sexagenários.
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
sábado, 28 de novembro de 2009
Um Solista no AC/DC: o show em si
Postado por
Ulisses
às
16:56

O sub-título do post poderia ser "megaprodução é questão de detalhe".
De acordo com a divulgação oficial, a Black Ice World Tour foi o show mais visto este ano, batendo Madonna e U2. Em Buenos Aires, por exemplo, teve-se que marcar duas datas extras para dar conta da demanda por ingressos. Em São Paulo, reuniram-se 70 mil pessoas no Panetone (ver post abaixo), o que é o maior público do qual eu já participei.
Tudo no show é estrepitosamente grande. As dimensões do palco, por exemplo são titânicas: 78 metros de comprimento por 21 de pronfundidade, e o pé direito era simplesmente impossível de imaginar de tão alto. O palco era devidamente ornado com um telão atrás da bateria e dois nas laterais, esses na posição vertical. Fora dois imensos bonés com chifres no topo do palco.
A abertura é fora de série: começa com os telões exibindo uma animação de um Angus Young demoníaco perdendo o controle de um trem. Quando a máquina vem em direção ao público, a surpresa: o telão de dentro do palco se divide em dois e uma locomotiva cênica de seis toneladas invade o palco -- no que entra a banda para tocar Rock 'n' Roll Train, do novo disco. A locomotiva, aliás, é parte essencial do show: ela liberta labaredas de fogo em T.N.T., em sincronia com a música, e é montada por uma colossal boneca inflável (outro clássico dos shows da banda) em Whole Lotta Rosie.
O show é repleto de momentos para arrancar o grito do público, reformulando todas as clássicas teatralidades do AC/DC. O clímax é sempre os canhões disparando em For those about to rock (we salute you)? Ok, vamos então usar doze canhões desta vez. O vocalista Brian Johnson sempre toca um imenso sino em Hells Bells? Então vamos fazer aquele velhinho de 62 anos (sim, é a idade do cara) vir correndo por uma passarela de uns 50 metros que vai pista adentro, se jogar e se pendurar na corda do dito sino. Angus Young faz um longo solo no final? Então agora ele atravessa a tal passarela até chegar a uma plataforma giratória no meio do público, onde ele é elevado a uma altura de uns 10 ou 15 metros para ser visto por todo o estádio.
O incrível do espetáculo, contudo, não foi a sua grandiloquência, mas sim as suas sutilezas. O set de iluminação, por exemplo, ia sendo revelado aos poucos, e só lá pela sexta canção é que víamos todas as luzes. No decorrer do show, porém, é que descobríamos que elas ainda se moviam e trocavam de cor, em possibilidades quase infinitas de combinações. Além disso, outras pequenas e inteligentes sacadas traziam o público para dentro do show, como as câmeras buscando as mulheres da plateia durante Shook me all night long e The Jack para mostrá-las nos telões; ou, ainda, a parte do palco cujo chão era de acrílico, onde Angus Young podia reproduzir a clássica cena do clipe de Thunderstruck -- sim, posicionaram um trilho de travelling e uma câmera debaixo do palco somente para este momento. A já citada Rosie inflável, por exemplo, batia o pé no ritmo da música, e por aí vai. Chega, vou demorar demais se citar tudo o que me chamou a atenção.
Ah, sim, tem a parte musical: todo mundo sabe que o AC/DC não é nenhuma agremiação de virtuoses, mas nem por isso são desleixados. A banda executa as suas músicas simples como um relógio, sem erros. O set list impressionou pela inserção de várias músicas do novo disco, alternadas com os clássicos -- bandas sem a mesma antiguidade se rendem à segurança de tocar apenas seus sucessos. Os australianos mostraram que tem o culhão de desafiar a audiência a ouvir seu trabalho recente (muito bom, aliás). Então a banda pulava de faixas do Black Ice, como War machine, Big Jack e a faixa-título, para Back in black, Highway to hell e Let there be rock com a naturalidade de quem gosta do que está fazendo. Brian Johnson não faz mais tudo aquilo que fazia antes com a voz (notadamente em Hells Bells), mas também não tenta esconder este defeito.
Sim, Angus Young, devem estar querendo saber dele. Para quem já se acostumou a guitarristas mais técnicos, mais criativos e mais sofisticados, o solo de vários minutos que o sujeito faz pode ser perto de um suplício. Mas virtuose ou senso estético apurado não é o foco aqui: a ideia é a celebração do guitar hero -- do cara que se entrega como ninguém ao palco, esbanjando simpatia e felicidade. Eu já vi Malmsteen esmerilhar hipnotizantemente o seu instrumento para deixar o palco com um sonoro "fuck" para o público, e me ocorreu que Angus Young não é festejado pela sua grandeza musical, mas sim por representar que o rockstar é nada mais que um sujeito comum que realiza um sonho de adolescência -- tocar guitarra para uma multidão.
Bem-aventurados os simples de espírito, porque serão louvados, certo? Engraçado como isso pode ser apropriado para um cara que toca uma música chamada "estrada para o inferno" para setental mil pessoas enloquecidas, usando dois chifres na cabeça...
Um Solista no AC/DC: Morumbi como estádio da Copa
Postado por
Ulisses
às
12:34
O show do AC/DC foi no Morumbi, estádio do São Paulo e uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. O Local tem pretensões de ser a casa do jogo de abertura do certame, e de abrigar jogos decisivos. Na minha rápida passagem por lá, vi que isso é completamene impossível.
Nós, colorados e gremistas, provavelmente já reclamamos em algum momento dos acessos ao Beira-Rio ou ao Olímpico: Porém, estamos muito bem servidos: o Morumbi é uma tragédia de acessibilidade. Enquanto os nossos estádios estão a poucos minutos de distância da região central de Porto Alegre, próximo a vias largas, o do São Paulo é cercado por ruelas estreitas e, de carro, leva-se uma hora e tanto para chegar saindo das áeras próximas ao centro.
Deixar o carro em segurança também é engraçado: qualquer terreno baldio ou construção abandonada vira um estacionamento caríssimo. No que conseguimos, a duas quadras do estádio, eu e os meus amigos paulistanos pagamos a bagatela de R$ 100,00 por pouco mais de quatro horas. Na rua, os flanelinhas também enfiaram a faca: de R$ 40,00 a R$ 50,00 para ouvir o famoso "bem cuidado, senhor" e deixar o veículo a céu aberto. Nada da estrutura de estacionamento que vemos no Beira-Rio, por exemplo,
Mas engraçado mesmo é como os palmeirenses e corintianos se referem ao Morumbi: chamam carinhosamente o estádio de panetone -- grande, redondo e cheio de frutinhas dentro.
Nós, colorados e gremistas, provavelmente já reclamamos em algum momento dos acessos ao Beira-Rio ou ao Olímpico: Porém, estamos muito bem servidos: o Morumbi é uma tragédia de acessibilidade. Enquanto os nossos estádios estão a poucos minutos de distância da região central de Porto Alegre, próximo a vias largas, o do São Paulo é cercado por ruelas estreitas e, de carro, leva-se uma hora e tanto para chegar saindo das áeras próximas ao centro.
Deixar o carro em segurança também é engraçado: qualquer terreno baldio ou construção abandonada vira um estacionamento caríssimo. No que conseguimos, a duas quadras do estádio, eu e os meus amigos paulistanos pagamos a bagatela de R$ 100,00 por pouco mais de quatro horas. Na rua, os flanelinhas também enfiaram a faca: de R$ 40,00 a R$ 50,00 para ouvir o famoso "bem cuidado, senhor" e deixar o veículo a céu aberto. Nada da estrutura de estacionamento que vemos no Beira-Rio, por exemplo,
Mas engraçado mesmo é como os palmeirenses e corintianos se referem ao Morumbi: chamam carinhosamente o estádio de panetone -- grande, redondo e cheio de frutinhas dentro.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Um Solista no AC/DC: siga o cabeludo de preto
Postado por
Ulisses
às
14:17
Estou em São Paulo para ver o show do AC/DC -- e aproveitar para fazer uma rápida cobertura de poucos posts.
Há uma regra universal no mundo dos show de rock: se tu fica meio perdido, sem saber como exatamente chegar no lugar onde vai acontecer o evento, é muito simples se achar. Basta seguir o cabeludo de preto. Pode ser um muquifo underground ou um megashow, seguir o cabeludo de preto é uma verdade absoluta. Nosso amigo Carlos "Iky" Porto, por exemplo, fez a temeridade de ir assistir ao Iron Maiden sozinho em Buenos Aires. Sem saber como ir da parada de ônibus para o estádio, ele passou a seguir os grupos de hermandos de camisetas pretas e longas melenas e pronto: chegou no local.
Claro que, quanto maior for o evento roqueiro, maior é o alcance do conceito do cabeludo de preto. Embarquei para São Paulo no dia anterior ao show, quinta-feira. Sequer tinha posto os pés no avião, ainda estava no passadiço que leva à aeronave, quando dois gurizões à minha frente se viraram e disseram:
- Cê vai no AC/DC, né?
De tanto ir em shows de rock, em dado momento tu mesmo pode virar um cabeludo de preto...
Há uma regra universal no mundo dos show de rock: se tu fica meio perdido, sem saber como exatamente chegar no lugar onde vai acontecer o evento, é muito simples se achar. Basta seguir o cabeludo de preto. Pode ser um muquifo underground ou um megashow, seguir o cabeludo de preto é uma verdade absoluta. Nosso amigo Carlos "Iky" Porto, por exemplo, fez a temeridade de ir assistir ao Iron Maiden sozinho em Buenos Aires. Sem saber como ir da parada de ônibus para o estádio, ele passou a seguir os grupos de hermandos de camisetas pretas e longas melenas e pronto: chegou no local.
Claro que, quanto maior for o evento roqueiro, maior é o alcance do conceito do cabeludo de preto. Embarquei para São Paulo no dia anterior ao show, quinta-feira. Sequer tinha posto os pés no avião, ainda estava no passadiço que leva à aeronave, quando dois gurizões à minha frente se viraram e disseram:
- Cê vai no AC/DC, né?
De tanto ir em shows de rock, em dado momento tu mesmo pode virar um cabeludo de preto...
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