quinta-feira, 24 de setembro de 2009
O aluno que pichou a escola: punição correta ou exagerada?
Revoltada com o desrespeito, a professora Maria Denise Bandeira não teve dúvida: ao descobrir a autoria da pichação, deu tinta e rolo de pintar para o guri e o obrigou a ir de sala em sala, cobrindo os rabiscos com tinta. Outros alunos gravaram em celulares a punição e logo em seguida os revoltados pais entraram em ação e foram reclamar com a diretora -- e agora o caso está na Secretaria Estadual de Cultura (SEC).
Claro que as mais variadas impressões surgiram sobre o fato -- e, mais interessante de tudo, há um apoio mais ou menos velado à atitude da educadora. A comunidade em geral concorda, os especialistas da educação têm reservas, a SEC parece ter gostado da ideia e os pais estão apontado que seu filhote foi humilhado, não só com a punição, mas com xingamentos da professora, que o teria chamado de "bobo da corte".
Eu, como professor, fiquei mais atento a este acontecimento por conta de uma coincidência: assisti nesta semana a um dos melhores filmes que tratam da relação aluno-professore que eu vi na minha vida, o francês Entre os Muros da Escola (que eu comento mais detidamente neste outro texto). O que importa aqui é que a história é absolutamente realista e mostra uma triste verdade: nem sempre o professor é aquele super-herói que salva os alunos problemáticos. Às vezes, ele se perde nos seus erros.
A professora foi acusada de se exceder ao chamar o moleque de "bobo da corte". Quem dá aula (e quem tem boas lembranças de seu tempo de escola) sabe que isto não é nada comparado com o que um professor pode dizer em sala de aula. Eu sei por experiência própria, sou um educador que não mede muitos limites de imposição verbal para pôr ordem no recinto. Sempre lembro de uma história que me contaram, de uma professora que se dirigiu a uma classe barulhenta de maneira ponderada, dizendo: "vocês têm razão em não aprender... O mundo precisa de lixeiros, de empregadas domésticas, de motoristas de caminhão".
Aparentemente, o menino de 14 anos está traumatizado e não quer voltar à escola. Parece que já perdeu duas provas, inclusive. Eu, da minha parte, digo: que ótimo. Porque, se ele tem 14 anos e está na 6a série (em idade que se ingressa no ensino médio), ele nunca deu muita bola para provas mesmo. Em segundo lugar, me deixaria mais chocado se o anjinho estivesse indo à aula como se nada tivesse acontecido. Mostraria que ele está, de fato, perdido para a escola. Se o ato da professora acertou de tal forma a consciência do moleque, fazendo ele sentir tal vergonha de toda a situação, talvez ela tenha agido mais certo do que pensou num primeiro instante.
E, quem sabe, ao invés de ter perdido o aluno, deu a grande lição que ele precisava.
sábado, 20 de junho de 2009
A Escola na Sociedade Pós-Industrial
Vivemos em uma sociedade pós-industrial. Ao contrário da sociedade agrícola, baseada na terra, e da industrial, com seu poder propulsor nos métodos de manufatura e organização mecanicistas, experimentamos uma visão de mundo embasada no conhecimento e na comunicação. Aqui, a sociedade de disciplina perde seu poder. Os defensores do statu quo encontram dificuldades e o vêem como caótico, desorganizado e perigoso. Mas não se dão conta que sua visão que é atrasada.

A escola com disciplinas engessadas, métodos de avaliação grotescos e organização baseada na disciplina, acabam por premiar quem apenas obedece, não analisa, não questiona, em detrimento do pró-ativo, que não se contenta com uma explicação superficial e imprecisa. Isto funcionava muito bem no passado, onde era necessário ter um trabalhador obediente e submisso, apertando parafusos o dia inteiro. Mas num mundo onde as relações humanas, os diferentes métodos de trabalho, a preocupação com o meio ambiente e a tentativa de resgate da vida saudável estão cada vez mais em voga, a forma com que a escola trabalha é um erro brutal!
As disciplinas com seus conteúdos mal explicados e fora do contexto, contribuem para com que o aluno perca interesse e não aprenda. As avaliações não avaliam o aluno como ser pensante e sim como “papagaio”, que apenas ouve e repete. Obviamente, é muito mais fácil aplicar uma prova onde o sujeito tem apenas que dizer o lema da Revolução Francesa do que debater sobre a sociedade européia no século XVIII. É bem mais prático fazer o jovem decorar a equação da gravidade do que ajudar ele a chegar às mesmas conclusões que Newton, utilizando seu próprio intelecto. Isto tudo age contra as novas idéias que experimentamos.
O mundo está mudando muito e muito rápido. E para que consigamos acompanhar as próximas mudanças, temos que fazer uma análise profunda sobre a escola. Está na hora de aumentar a “inspiração” frente à “transpiração”, para que os próximos tenham a capacidade de entender o mundo, e acima de tudo, interagir com ele.
