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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Jack Bauer Brasileiro

Já imaginou um filme de ação a la Jack Ryan sendo feito no Brasil? Pode imaginar, porque ele já tem data de lançamento: em maio deste ano, chegará nos cinemas Segurança Nacional, (direção de Roberto Carminati e estrelado por Thiago Lacerda). Há uns três anos pipocam informações sobre este filme na internet, mas aparentemente só agora os realizadores conseguiram finalizar a obra (bem em época de compra de caças).

Segurança Nacional parece ser bem ufanista: o roteiro privilegia as ações das Forças Armadas e da Agência Nacional de Informação (Abin) numa trama que parece extraída de filme de verão americano. Os narcoterroristas estrangeiros pretendem destruir o Sivam para seus carregamentos de armas e drogas entrarem livremente no Brasil. Detalhe: para desativar o sistema, eles querem usar nada menos que uma bomba atômica. Confira o trailer.

Momentos marcantes:

0:08: fala didática para o espectador entender tudo direitinho.
0:29: Milton Gonçalves como o presidente do Brasil desferindo uma frase supostamente de impacto, mas que não faz sentido léxico.
0:47: a perseguição nas estradas serranas do Rio (diacho, sempre quis fazer uma cena assim!).
0:56: por que as chamas estão ao contrário?
1:14: palavras do Hisham: "pra dizer que vai ter uma subplot romântica do tipo
'marmanjos, podem levar as namoradas'".
1:28: Thiago Lacerda ordenando que um bandido fiquei parado, mesmo já subjugado e imobilizado.
1:31: ah, bem... É uma, errr... Pois é. Sem palavras
1:51: "... E grande elenco" - não é filme nacional se não tiver isso no trailer.

A crítica e os cinéfilos de plantão já estão esboçando os dentes para o filme. No entanto, ele pode achar o seu nicho de mercado, se o grande público estiver inclinado a ver uma história de fundo nacionalista. Muita gente reclama que o cinema nacional "mostra sempre o lado ruim do país, e nunca o que ele tem bom". Será que é por este tipo de filme que eles estão esperando?

Eu, particularmente, acho que pode ser uma ótima guity fun - como são os filmes do James Bond, de tão absurdos divertem. Ainda mais que o filme parece ter o que nos EUA se chama production value: o bom trabalho de produção acarreta num filme bom (pra resumir).

O mais divertido é que este filme não está sozinho.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Os caças para o Brasil: disputa política, econômica e militar


Sabe-se que há tempos as Forças Armadas nacionais andam sucateadas, especialmente a FAB (Força Aérea Brasileira). Os aviões de combate trazidos para cá nos 1960 e 1970 estão plenamente superados. Os velhos Mirage, projetados na década de 50 na França, foram substituídos às pressas uns anos atrás por novos Mirage 2000. Mas ainda assim o nosso poder aéreo continuava desatualizado.

Por isso, foi lançado um novo projeto de compra de caças, o FX-2, onde três empresas disputam a venda para o Brasil de 36 caças de nova geração: a norte-americana Boeing, a francesa Dassault e a sueca Saab. A concorrência parecia ter sido vencida no feriado de Sete de Setembro, quando Lula meteu os pés pelas mãos e, na presença do presidente francês Nicolas Sarkozy, afirmou que o governo compraria o caça apresentado pela Dassault, o Rafale.

Imediatamente, o presidente foi desmentido pelo Ministério da Justiça e pelas Forças Armadas -- ainda que o mandatário acredite que é ele quem decide que aviões a FAB deve usar. Mais imediatamente ainda foi a resposta dos outros envolvidos na concorrência: a Boeing resolveu defender o seu F/A-18 E/F Hornet e a Saab começou a fazer propostas irrecusáveis pelo seu Gripen.

A preferência do governo é pelo Rafale, por conta das relações diplomáticas que Lula quer estreitar com Sarkozy -- e, por conseguinte, com a União Europeia. No entanto, fora as motivações políticas, há o aspecto econômico: Dassault e Boeing estão desesperadamente afundadas na crise global. A fábrica francesa não conseguiu vender o Rafale para nenhum país até agora e corre o risco de fechar, e a diminuição do dinheiro para compra de equipamentos militares nos EUA afetou fortemente a Boeing. Saudável apenas é a Saab, que já vendeu o seu belo Gripen para várias forças aéreas mundo afora, mas quer entrar no mercado sulamericano.

Qual seria a melhor opção para o Brasil? De acordo com o meu amigo piloto privado Fabiano Schüler, com qualquer opção o país ficaria bem armado. Vejamos:
Dassault Rafale: a nova geração de caças da Dassault não repetiu o colossal sucesso de vendas da família Mirage (usado por quase todas as forças aéreas do mundo de 1960 até hoje). Aprovado em combate recentemente no Oriente Médio, o Rafale tem grande capacidade de armamento e um raio de ação muito bom para o nosso território nacional. A França prometeu transferência de tecnologia para o Brasil. O problema é que ele é muito caro.
Boeing F/A-18E/F Super Hornet: apesar de ser baseado num projeto dos anos 1970, a versão modernizada do velho Hornet é um supercaça: desempenha múltiplas funções e tem características stealth (ou seja, baixa assinatura de radar, um "avião invisível"). O histórico de combate é invejável (foi usado em todas as guerras estado-unidenses nos últimos vinte anos). O problema é que os EUA são relutantes na transferência de tecnologia.
Saab JAS 39 Gripen: os suecos optaram por uma posição neutra durante a Guerra Fria, o que os obrigou a investir numa indústria aérea própria, para não depender de caças ocidentais ou soviéticos. O resultado está no Gripen, a quinta geração de aviões de combate da Saab, quase todos belíssimos. Em termos de armamento e de de raio de combate, o Gripen é o menos adequado para as dimensões brasileiras, mas o grande trunfo é que ele seria montado aqui no país, em parceria com a Embraer.

Os mais pacifistas perguntariam o motivo destes gastos astronômicos por três dúzias de aviões (cada um deles custa uma média de 100 milhões de dólares). Bem, o motivo não declarado vive ao norte: a Venezuela de Hugo Chávez conta hoje com a mais moderna força aérea do bloco. A Aviación Militar Venezolana possui 12 caças norte-americanos F-16 e 24 unidades do todopoderoso avião russo Sukhoi Su-30, cuja tecnologia vetorial lhe dá a capacidade de fazer proezas aéreas inacreditáveis.

Com estas aquisições e o que já existe nos seus hangares, Chávez tem à sua disposição 47 caças de grande poder de combate. Sem o programa FX-2, o Brasil teria 69 aviões de defesa aérea, quase todos sucateados (os 57 F-5 Tiger da FAB estão na capa da gaita). Com o programa, a FAB aumentaria sensivelmente o seu poder de fogo e, neste âmbito, teria a maior aeronáutica da América do Sul, com 105 aviões de superioridade aérea. O caça é a primeira linha de defesa de uma nação e, portanto, uma espécie de outdoor da sua capacidade militar (não por nada que se gasta horrores nos designs dos aviões).

Corrida armamentista? Claro que não, imagina...