Talvez por eu ser o "cara de informática" entre os contribuidores mais ativos desse blog, ou por ter escrito um post chamado "Por que eu resolvi boicotar a Apple" aqui há algum tempo atrás, pareça apropriado eu escrever um post sobre a morte do Steve Jobs. Mas esses não são os motivos.
Minha história pessoal com a empresa de que ele foi co-fundador vem de muito longe. Eu tinha seis anos e um clone brasileiro de Apple II (o antecessor do Mac) foi o primeiro computador que eu vi ao vivo. Eu lembro da cena até hoje, tão bem quanto eu lembro do meu primeiro beijo. Se teve um momento que eu posso apontar e dizer "ali a minha vida mudou", foi naquela tarde de 1986. Naquele dia o computador chegou na nossa casa; era do meu irmão. Um ano depois, ele já era meu.
Minha rotina era voltar da escola, almoçar e depois passar a tarde programando aquela caixa bege com uma maçã colorida desenhada. Eu tinha 2 ou 3 colegas da turma de 42 que sabiam mexer em computador (isso era tão incomum que nem sequer nos chamavam de "nerds" na escola). Esses outros poucos todos tinham computadores MSX. Eu era a única pessoa que eu conhecia que tinha um Apple II. Ninguém com quem trocar dicas ou programas além de uns poucos livros e revistas. Aquele computador era praticamente parte da minha concepção pessoal de indivíduo. Naquele tempo, Hisham ↔ Apple II.
Passados os anos 80 e meados dos 90, era hora de trocar de computador. O sonho era trocar para um dos Apple "novos", os Macintoshes. Não esses Macs que vocês conhecem. Algo como um desses aqui:
Infelizmente eles eram estupidamente caros no Brasil, ainda mais para um adolescente pedindo pro pai. Minha segunda opção era um Amiga, mas acabei ganhando um PC 486. Na época, foi "meno male", porque com a popularização dos PCs acabei com isso saindo da minha "ilha" e podendo ter contato com uma base de software maior (isso era antes da internet, e software tinha que passar de mão em mão — sim, pirataria, porque a imensa maioria não tinha para comprar no Brasil nem se a gente quisesse). Além disso, a Apple ia mal das pernas. Era a fase em que o Steve Jobs estava fora da empresa. A história é famosa e não vou repeti-la aqui.
Passei anos afastado do mundo Apple, mas acompanhando de longe. Com a chegada da internet, revisitei meu passado de Apple II através de emuladores e acompanhei as notícias da volta de Jobs à empresa com o curioso cargo de "iCEO" (interim CEO) e o posterior lançamento do "iMac", cuja ironia no nome era evidente a todos.
Quando ele voltou e lançou o iMac, a Apple estava bem mal das pernas, perigando quebrar, assim como aconteceu depois com tantas outras empresas super-cool dos anos 80 e que não existem mais, como a Sun e a Silicon Graphics. (Parênteses: se vocês acham o hardware da Apple bacana, comparem o Mac bege dos anos 90 da foto ali de cima com essa workstation Silicon Graphics da mesma época:
Fecha parênteses.) Pois é, coolness existia, estava por aí, mas era um animal ameaçado de extinção num mundo de informática dominado por PCs genéricos rodando Windows 98 infestados de vírus, DLLs incompatíveis e conflitos de hardware (lembram do stress que era configurar coisas como COM, IRQ e DMA de placas de modem, som, etc.?)
Quando foi afastado da Apple, Jobs passou os anos 90 no mundo das workstation high-end, onde todas rodavam alguma versão do sistema operacional mais cool que há, o Unix. Quer dizer, cool para quem sabe apreciar a "coolness de um sistema operacional", ou seja, programadores. Sistemas da família Unix não eram pra qualquer um. Eram complicados de usar e só rodavam em máquinas caras, workstations de alguns milhares de dólares. Uma trupe de voluntários espalhados pela internet, porém, estava trabalhando duro para mudar isso e tornar o Unix acessível a todos (um deles, um certo estudante finlandês chamado Linus, acabou cedendo o próprio nome a esse libertário membro da família Unix).
De volta à Apple, Jobs trouxe da sua experiência no mundo das workstations uma simples ideia que parecia alienígena ao mundo dos computadores pessoais: fazer computador usando um sistema operacional que, bem, funcione.
A mídia vai fazer homenagens e homenagens a Jobs dando a ele títulos como "o criador do iPod", "o criador do iPhone" e coisas do gênero. Dar a ele crédito como "criador" desses produtos, onde inúmeras pessoas trabalharam na pesquisa e desenvolvimento, desde o design à engenharia, é algo simplista e um tanto errado. Mas todo o crédito do mundo deve ser dado ao pulso que ele teve de bancar a migração do sistema operacional dos Macs (chamado inicialmente apenas de "System", e depois "Mac OS") para uma sólida base Unix: o Mac OS X. E depois que o mundo descobriu o que é um computador que funciona, tudo mudou.
À primeira vista pode parecer que eu estou apenas sendo um nerd, valorizando uma tecnicalidade que ninguém vê em detrimento a todos esses outros grandes sucessos da Apple dos quais Jobs foi sempre a face visível. Mas não. Essa cartada, e o sucesso dela (que lhe deu cacife para os projetos posteriores, começando pelo iPod), resume a maneira de pensar que vigorou no segundo reinado de Steve Jobs na Apple: "trabalhar com uma ideia simples e fazê-la direito de modo a produzir algo que preste."
Um enunciado desses pode parecer ridiculamente óbvio, mas quando a gente destrincha nos detalhes, quem mais fazia (ou faz) isso? A gente vai lembrando das outras grandes empresas de informática, e incrivelmente, ninguém mais se encaixa nessa visão. Empresas como a Microsoft, amarradas em perpetuar bugs passados em prol da eterna compatibilidade, nunca assim corrigindo os próprios erros? Empresas como Dell, HP e cia, que te vendem laptops com um mar de porcarias e iconezinhos idiotas pré-instalados? Empresas como a Sony, que desrespeitam o consumidor com reincidentes casos de spyware? Essas são tosquices que a gente nem conseguiria imaginar vindo da Apple. Num mundo onde a tosquice impera, a Apple conseguiu se tornar uma empresa mítica, simplesmente não sendo tosca.
Quando o iPhone surgiu, basicamente todas as features que ele possuía já existiam em um ou outro telefone. Palmtops como o Palm já tinham grandes comunidades de desenvolvedores e bastante gente já levava centenas de aplicativos no bolso; mas isso não havia chegado ao grande público. O design do iPhone era simplesmente a coisa mais óbvia a se fazer. Mas os concorrentes deixavam seus smartphones toscos de propósito: qualquer outro telefone da época, quando tu pegava, era "legal, só que tem esse UM defeito". Coisas que tu notava que tinham sido deixadas de fora para que o modelo "330X" fosse pior que o "350X" (só que daí o maldito 350X não tinha a câmera boa como a do 330X, ou algo do gênero).
Antes do lançamento do iPad, eu lembro de falar com meus amigos, "cara, toda a tecnologia pra fazer tablets tá aí, e só o que existe é esses híbridos malucos da HP rodando Windows, ou palmtops baseados em plataformas moribundas, e nenhuma empresa, nem Sony, Dell, HP, ninguém, se presta a fazer um laptop touch sem teclado! Vai acabar a Apple lançando um, como fez com o iPhone, e aí todos os concorrentes vão correr e lançar alguma imitação tosca em seguida."
Se tem algo por que o Steve Jobs merece ser lembrado e homenageado, é o fato de ele ter sido um CEO de empresa de tecnologia que mandou os seus funcionários fazer o que todo mundo que trabalha com tecnologia deveria fazer: olhar para frente, e não pro lado.
Sim, isso deveria ser a regra, mas num mundo onde todas as empresas estão olhando para o lado, cuidando cada passo que dá o concorrente, medindo cada risco e o seu impacto no relatório trimestral para os acionistas, promover inovação em uma empresa de um mercado tão ferrenho quanto tecnologia se tornou a exceção.
Quanto ao futuro da Apple, eu não me preocupo. Mesmo que a Apple pare de inovar na escala em que inovou nessa década passada, ela hoje tem o potencial de se manter por cima da carne seca por um longo tempo, assim como a Microsoft ainda é líder de mercado com base na inércia do seu sucesso na era MS-DOS/Windows. iTunes virou sinônimo de comprar música em boa parte do mundo. Aliás, a Apple Computer, aquela empresa que eu acompanhava desde criança, muito antes dos hipsters colarem maçãzinhas nos seus carros, não existe mais: mudou de nome, virou Apple Inc., empresa de produtos eletrônicos variados. E mesmo que tudo dê errado com a Apple e ela quebre, bom, tantas outras empresas cool já vieram e já foram. Eu iria sentir falta dos Macs tanto quanto sinto falta dos Amigas.
Lembro quando a Apple estava por baixo no fim dos anos 90 e a gente falava: "Tu acha que a Microsoft é malvada e a Apple é boazinha? Se eles estivessem em posições trocadas iam fazer igual." E sim, assim que ficou por cima a Apple fez sacanagens como aquela que que eu falei no post do ano passado (update: algum tempo depois, ela voltou atrás). A diferença é que mesmo em posições trocadas, uma empresa como a Microsoft não inova como a Apple. A Microsoft trabalha com "good enough to sell". Falta à Microsoft a fagulha do espírito do "insanely great". Assim como falta a tantas outras empresas, que às vezes têm genialidade dentro de casa e não sabem o que fazer com ela. A Xerox tinha interfaces gráficas com mouse por uma década, mas não sabia o que fazer com isso.
O que eu espero que fique como legado de Jobs são as lições que ele deu pra essa indústria da qual eu faço parte. De que é melhor fazer o simples, fazer o que presta, e não ser tosco. De que, se promovido sem grandes mancadas, o melhor produto vai realmente ganhar o mercado. De que os detalhes importam. De que não basta ter a melhor ideia, tem que fazê-la acontecer.
Mas pessoalmente, o que eu gostaria mesmo era de agradecer a Steve Jobs por ter feito sair da garagem a genialidade de Steve Wozniak, ajudá-lo a "fazer acontecer", e assim transformar aquele protótipo em caixa de madeira dele em uma empresa que criou a noção de "computação pessoal" antes do surgimento do PC, e que com isso levou computadores às casas de milhões de pessoas, incluindo à daquele garoto na longínqua São Leopoldo em 1986.
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quinta-feira, 6 de outubro de 2011
terça-feira, 13 de abril de 2010
Por que eu resolvi boicotar a Apple
Postado por
Hisham
às
21:53
Ontem, postei duas mensagens no meu Twitter:
Ainda assim, em função de outras reações que recebi, achei que valeria a pena explicar melhor o porquê de eu achar isso uma notícia particularmente preocupante.
Na semana passada, a Apple anunciou uma mudança no "iPhone Developer Program License Agreement", a licença que os programadores devem aceitar para que possam desenvolver softwares para a plataforma. Na nova versão, foi adicionada uma nova restrição aos programadores: a Apple agora dita quais linguagens de programação são permitidas para quem quer escrever programas para a sua plataforma. Obviamente, somente aquelas suportadas pelas próprias ferramentas da Apple.
A razão disso foi o iminente lançamento do Flash CS5 da Adobe, que permitiria aos programadores desenvolver aplicações em Flash e convertê-las automaticamente pra que pudessem rodar tanto no iPhone como em outros smartphones, sites web, etc. Permitiria -- se a Apple não tivesse tornado isso agora ilegal. Como era de se esperar, essa jogada deixou furiosos os caras da Adobe que tiveram a trabalheira de fazer esse conversor e estavam prontos para lançá-lo no mercado.
O motivo do meu boicote não é essa rasteira na Adobe, que também não é nenhuma santa (lembram de quando a Adobe conseguiu botar na cadeia um estudante de doutorado que fez uma apresentação mostrando os furos de segurança do formato de eBook deles?). Muito pelo contrário, chega a ser irônico ver essas duas empresas se digladiando hoje, tendo em vista que nos obscuros anos 90 a Apple se manteve viva porque era "a melhor máquina para rodar Adobe Photoshop".
O motivo do meu boicote é que isso abre um precedente inédito na indústria: nunca os programadores foram tão restringidos em sua liberdade de escolha de ferramentas de trabalho em uma plataforma popular como essa. Pior que isso: se fosse só esse o problema, seria um incômodo, mas algo com que os programadores poderiam apenas "se virar e aprender as ferramentas permitidas". O problema maior é que esse movimento da Apple não tem por objetivo "enquadrar os programadores", mas sim impedir o desenvolvimento de programas portáveis.
Um software é "portável" (do inglês portable; deveria ser traduzido "portátil" mas no meio da computação acabou ficou assim) quando ele é feito de modo a poder ser escrito uma vez e poder ser compilado ("empacotado pra rodar") em diferentes ambientes. Exemplos de softwares portáveis são o Firefox (que roda em Windows, Mac, Linux, etc.), o OpenOffice, e os próprios iTunes e Safari, da Apple, que rodam em Mac e Windows. Alguns programas, como o Microsoft Office, têm versões pra Windows e Mac, mas foram efetivamente programados duas vezes, o que, como se pode imaginar, é uma trabalheira.
O que a Adobe tentou fazer com o Flash CS5 foi criar uma ferramenta para programação de "apps" portáveis: programe uma vez e rode seu programa num iPhone, num Motorola, num Nokia, etc. O programador ganha, pois ele tem o trabalho uma vez só e não precisa apostar as fichas em uma só plataforma, e os usuários ganham, por terem mais opção de escolha.
E aí você pensa: e a Apple perde, né? Afinal, os aplicativos da sua plataforma perdem a exclusividade. Foi pensando assim que a Apple fez o que fez. A justificativa que eles parecem ter dado foi que ao proibir camadas de abstração que permitam portabilidade eles estariam prezando pela qualidade dos aplicativos da plataforma. Isso é balela: um sem-número de apps para iPhone têm interfaces totalmente customizadas e look nada "nativo", e também não faltam exemplos de softwares que têm performance excelente mesmo possuindo abstrações para portabilidade.
Mas eles não estão no seu direito de fazer isso para tentar proteger o seu mercado? Legalmente, é claro que sim, tanto que fizeram. Mas vamos tentar dimensionar o precedente que um movimento desses abre para a indústria -- em bom português, "se a moda pega". E se a Microsoft passasse a permitir apenas o uso das suas linguagens preferidas, como C# e VB.NET, para o desenvolvimento de aplicativos para Windows? Claro, ela jamais faria isso com o Windows, plataforma que cresceu e dominou o mercado em grande parte pelo enorme pool de aplicativos disponíveis, desenvolvidos nas mais variadas linguagens. Seria inviável para a própria Apple fazer isso com o Mac OSX -- até porque a viabilidade da plataforma hoje depende de um monte de programas portados de outros lugares.
Mas o que precisa da nossa atenção é que nesses novos ambientes como os smartphones, que vêm fazendo cada vez mais parte da nossa vida e de que somos cada vez mais dependentes, empresas como a Apple estão tentando impor novas regras no jogo. Regras que beneficiam os provedores dessas plataformas, aqueles que vendem o hardware e são os "gatekeepers" das application stores, mas que limitam as escolhas dos desenvolvedores das apps e dos usuários.
Foi graças à liberdade dos programadores de escrever softwares que rodam em múltiplos ambientes que muitos programas hoje são uma realidade, sejam softwares de código aberto ou fechado, do Firefox ao Safari (este último, um programa de código fechado da Apple baseado em código aberto do projeto KDE que foi tornado possível através de uma camada de abstração). Liberdade essa que a Apple agora nega aos programadores que queiram fazer programas para rodar no iPhone.
Será que a Microsoft gostou quando a Apple portou o iTunes para o Windows, e levou embora tantos usuários do Windows Media Player? Bom, é a regra do jogo, não é? Que o usuário escolha e vença o melhor programa. "Afinal, o computador é do usuário e ele instala o que quiser." Pois é, só que agora no novo mundo não é assim. Com as "aprovações" nas App Stores, o fabricante se coloca no direito de dizer o que você pode ou não instalar. E com as restrições de linguagem, o fabricante agora diz pros programadores como eles podem ou não programar.
Você pode se perguntar: "Mas peraí -- esse lance de aprovações já não era assim, por exemplo, no mundo dos videogames? Todo jogo precisa ser licenciado para ser lançado para um console, e afinal de contas, um telefone não é um computador." O problema é que o telefone é o primeiro passo. Hoje em dia os telefones são sim computadores e cada vez mais surgem "gadgets" que tomam o lugar dos computadores pessoais para um número cada vez maior de tarefas. Acaba que o computador é disfarçado de algo que não parece um computador para que os usuários aceitem ter menos liberdade de escolha do que esperariam de um computador. E mesmo no draconiano mundo do licenciamento de videogames, a liberdade de escolha de linguagens de programação e de desenvolvimento de games portáveis pra múltiplas plataformas sempre foi mantida.
Aquilo que a Apple fez ao portar o iTunes para o Windows, ela agora não permite que os programadores façam. Sob o pretexto de manter a qualidade da plataforma, ela impõe mais e mais restrições, mesmo a própria Apple tendo mostrado com o OSX que se pode fazer uma plataforma de qualidade sem restrições desse tipo. Como disse lá no tweet inicial, isso é ruim para a indústria, ruim para os desenvolvedores, ruim para os usuários finais. Nesse iMundo da Apple, as pessoas têm cada vez menos liberdade de escolha.
Que fique claro: não sou daqueles que simplesmente "odeiam a Apple". Meu primeiro computador foi um clone nacional de Apple II, em 1986. Meu irmão xerocava na tabacaria perto de casa páginas e páginas da revista Nibble (muito cara pra comprar!) com listagens de programas em AppleSoft BASIC. Nos anos 90, quando estava desistindo de tentar conseguir trazer dos EUA um Commodore Amiga, meu sonho de consumo era um Macintosh Performa. Isso tudo antes do primeiro iMac colorido sequer existir. Quando fui pros EUA em 2005 finalmente pude ter um Apple de novo, e comprei um iBook G4, o último modelo com chip PowerPC, logo depois que a Apple anunciou a transição para o chipset Intel (que fez com que os Macs se tornassem, basicamente, PCs bonitos e caros -- que o diga meu amigo Fabio que roda Mac OSX num netbook Dell). É com tristeza que eu vejo uma empresa que já brilhou tanto na indústria promovendo inovação tecnológica agora recorrer a táticas como essa para brigar por mercado.
I am now officially boycotting Apple: http://bit.ly/cjwkQI - Apple's move is bad for the industry, bad for developers, bad for end users.
Vendo iBook G4 baratinho. Motivo: me livrando dos produtos Apple http://bit.ly/anq8YXAlgumas pessoas ficaram surpresas, incluindo meu primo, que perguntou por que do boicote, e pediu uma explicação "numa linguagem pra leigo". Nas poucas palavras que o Twitter permite, respondi que "a nova licença deles restringe as ferramentas que os programadores podem usar. Se a indústria for por aí, acaba a inovação." Adicionei, pra fazer uma analogia rápida, que é "como se fosse um canal de TV que só aceita vídeos editados com o Final Cut Pro e proíbe o uso de qualquer concorrente." A reação dele resume bem o que senti quando soube dessa notícia.
Ainda assim, em função de outras reações que recebi, achei que valeria a pena explicar melhor o porquê de eu achar isso uma notícia particularmente preocupante.
Na semana passada, a Apple anunciou uma mudança no "iPhone Developer Program License Agreement", a licença que os programadores devem aceitar para que possam desenvolver softwares para a plataforma. Na nova versão, foi adicionada uma nova restrição aos programadores: a Apple agora dita quais linguagens de programação são permitidas para quem quer escrever programas para a sua plataforma. Obviamente, somente aquelas suportadas pelas próprias ferramentas da Apple.
A razão disso foi o iminente lançamento do Flash CS5 da Adobe, que permitiria aos programadores desenvolver aplicações em Flash e convertê-las automaticamente pra que pudessem rodar tanto no iPhone como em outros smartphones, sites web, etc. Permitiria -- se a Apple não tivesse tornado isso agora ilegal. Como era de se esperar, essa jogada deixou furiosos os caras da Adobe que tiveram a trabalheira de fazer esse conversor e estavam prontos para lançá-lo no mercado.
O motivo do meu boicote não é essa rasteira na Adobe, que também não é nenhuma santa (lembram de quando a Adobe conseguiu botar na cadeia um estudante de doutorado que fez uma apresentação mostrando os furos de segurança do formato de eBook deles?). Muito pelo contrário, chega a ser irônico ver essas duas empresas se digladiando hoje, tendo em vista que nos obscuros anos 90 a Apple se manteve viva porque era "a melhor máquina para rodar Adobe Photoshop".
O motivo do meu boicote é que isso abre um precedente inédito na indústria: nunca os programadores foram tão restringidos em sua liberdade de escolha de ferramentas de trabalho em uma plataforma popular como essa. Pior que isso: se fosse só esse o problema, seria um incômodo, mas algo com que os programadores poderiam apenas "se virar e aprender as ferramentas permitidas". O problema maior é que esse movimento da Apple não tem por objetivo "enquadrar os programadores", mas sim impedir o desenvolvimento de programas portáveis.
Um software é "portável" (do inglês portable; deveria ser traduzido "portátil" mas no meio da computação acabou ficou assim) quando ele é feito de modo a poder ser escrito uma vez e poder ser compilado ("empacotado pra rodar") em diferentes ambientes. Exemplos de softwares portáveis são o Firefox (que roda em Windows, Mac, Linux, etc.), o OpenOffice, e os próprios iTunes e Safari, da Apple, que rodam em Mac e Windows. Alguns programas, como o Microsoft Office, têm versões pra Windows e Mac, mas foram efetivamente programados duas vezes, o que, como se pode imaginar, é uma trabalheira.
O que a Adobe tentou fazer com o Flash CS5 foi criar uma ferramenta para programação de "apps" portáveis: programe uma vez e rode seu programa num iPhone, num Motorola, num Nokia, etc. O programador ganha, pois ele tem o trabalho uma vez só e não precisa apostar as fichas em uma só plataforma, e os usuários ganham, por terem mais opção de escolha.
E aí você pensa: e a Apple perde, né? Afinal, os aplicativos da sua plataforma perdem a exclusividade. Foi pensando assim que a Apple fez o que fez. A justificativa que eles parecem ter dado foi que ao proibir camadas de abstração que permitam portabilidade eles estariam prezando pela qualidade dos aplicativos da plataforma. Isso é balela: um sem-número de apps para iPhone têm interfaces totalmente customizadas e look nada "nativo", e também não faltam exemplos de softwares que têm performance excelente mesmo possuindo abstrações para portabilidade.
Mas eles não estão no seu direito de fazer isso para tentar proteger o seu mercado? Legalmente, é claro que sim, tanto que fizeram. Mas vamos tentar dimensionar o precedente que um movimento desses abre para a indústria -- em bom português, "se a moda pega". E se a Microsoft passasse a permitir apenas o uso das suas linguagens preferidas, como C# e VB.NET, para o desenvolvimento de aplicativos para Windows? Claro, ela jamais faria isso com o Windows, plataforma que cresceu e dominou o mercado em grande parte pelo enorme pool de aplicativos disponíveis, desenvolvidos nas mais variadas linguagens. Seria inviável para a própria Apple fazer isso com o Mac OSX -- até porque a viabilidade da plataforma hoje depende de um monte de programas portados de outros lugares.
Mas o que precisa da nossa atenção é que nesses novos ambientes como os smartphones, que vêm fazendo cada vez mais parte da nossa vida e de que somos cada vez mais dependentes, empresas como a Apple estão tentando impor novas regras no jogo. Regras que beneficiam os provedores dessas plataformas, aqueles que vendem o hardware e são os "gatekeepers" das application stores, mas que limitam as escolhas dos desenvolvedores das apps e dos usuários.
Foi graças à liberdade dos programadores de escrever softwares que rodam em múltiplos ambientes que muitos programas hoje são uma realidade, sejam softwares de código aberto ou fechado, do Firefox ao Safari (este último, um programa de código fechado da Apple baseado em código aberto do projeto KDE que foi tornado possível através de uma camada de abstração). Liberdade essa que a Apple agora nega aos programadores que queiram fazer programas para rodar no iPhone.
Será que a Microsoft gostou quando a Apple portou o iTunes para o Windows, e levou embora tantos usuários do Windows Media Player? Bom, é a regra do jogo, não é? Que o usuário escolha e vença o melhor programa. "Afinal, o computador é do usuário e ele instala o que quiser." Pois é, só que agora no novo mundo não é assim. Com as "aprovações" nas App Stores, o fabricante se coloca no direito de dizer o que você pode ou não instalar. E com as restrições de linguagem, o fabricante agora diz pros programadores como eles podem ou não programar.
Você pode se perguntar: "Mas peraí -- esse lance de aprovações já não era assim, por exemplo, no mundo dos videogames? Todo jogo precisa ser licenciado para ser lançado para um console, e afinal de contas, um telefone não é um computador." O problema é que o telefone é o primeiro passo. Hoje em dia os telefones são sim computadores e cada vez mais surgem "gadgets" que tomam o lugar dos computadores pessoais para um número cada vez maior de tarefas. Acaba que o computador é disfarçado de algo que não parece um computador para que os usuários aceitem ter menos liberdade de escolha do que esperariam de um computador. E mesmo no draconiano mundo do licenciamento de videogames, a liberdade de escolha de linguagens de programação e de desenvolvimento de games portáveis pra múltiplas plataformas sempre foi mantida.
Aquilo que a Apple fez ao portar o iTunes para o Windows, ela agora não permite que os programadores façam. Sob o pretexto de manter a qualidade da plataforma, ela impõe mais e mais restrições, mesmo a própria Apple tendo mostrado com o OSX que se pode fazer uma plataforma de qualidade sem restrições desse tipo. Como disse lá no tweet inicial, isso é ruim para a indústria, ruim para os desenvolvedores, ruim para os usuários finais. Nesse iMundo da Apple, as pessoas têm cada vez menos liberdade de escolha.
Que fique claro: não sou daqueles que simplesmente "odeiam a Apple". Meu primeiro computador foi um clone nacional de Apple II, em 1986. Meu irmão xerocava na tabacaria perto de casa páginas e páginas da revista Nibble (muito cara pra comprar!) com listagens de programas em AppleSoft BASIC. Nos anos 90, quando estava desistindo de tentar conseguir trazer dos EUA um Commodore Amiga, meu sonho de consumo era um Macintosh Performa. Isso tudo antes do primeiro iMac colorido sequer existir. Quando fui pros EUA em 2005 finalmente pude ter um Apple de novo, e comprei um iBook G4, o último modelo com chip PowerPC, logo depois que a Apple anunciou a transição para o chipset Intel (que fez com que os Macs se tornassem, basicamente, PCs bonitos e caros -- que o diga meu amigo Fabio que roda Mac OSX num netbook Dell). É com tristeza que eu vejo uma empresa que já brilhou tanto na indústria promovendo inovação tecnológica agora recorrer a táticas como essa para brigar por mercado.
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