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sábado, 6 de agosto de 2011

O novo-velho Yes



Depois de 10 anos, o Yes lançou um disco novo de inéditas, Fly From Here. Os últimos discos já andavam bem fracos, então eu não esperava muito. Porém, graças a duas excelentes decisões, o disco me surpreendeu totalmente: aproveitando que Jon Anderson não está mais na banda (de novo), trouxeram de volta à banda o tecladista Geoff Downes e conseguiram que Trevor Horn produzisse e compusesse para o álbum. Em outras palavras: sim, a formação do álbum Drama de 1980 estava junta no estúdio de novo, e sim, o disco é praticamente um "Drama II".

Em primeiro lugar, preciso dizer que uma afirmação dessas vindo de mim não é pouca coisa. O Drama é o meu disco preferido do Yes. Mais do que isso: eu tenho o vinil dele ele emoldurado na parede da sala da minha casa.

Yes, 1980: Howe, Downes, White, Squire, Horn

Isso não quer dizer, entretanto, que esse disco é tão bom quanto o Drama, claro. Fly From Here não tem a energia que o Drama tem. Soa como um disco um pouco mais "cansado". Os tempos das músicas são realmente mais lentos, mas talvez eu esteja também projetando a minha percepção sobre a idade dos integrantes da banda: tirando o vocalista, todos estão por volta dos 60 anos, enrugados e de cabelo branco — ao contrário do Paul McCartney, que parece ter parado no tempo, o Yes parece uma banda de "vovôs" no palco.

Yes, 2011: White, Howe, Horn (agora produtor), Squire, Downes, David

De qualquer forma, sem dúvida os álbuns têm o mesmo DNA. Para quem achava que nunca mais ouviria música nova com aquela determinada textura, ouvir música que tem visivelmente a mão de White, Howe, Squire, Downes e Horn é fantástico. É um pouco como quando Brian Wilson concluiu Smile 37 anos depois: é claro que não é o mesmo disco que ele teria feito se tivesse conseguido terminá-lo com os Beach Boys nos anos 60, mas o feeling que um determinado time de produtor(es), compositor(es) e intérprete(s) são capazes de imprimir em um álbum é algo único.

O vocalista, Benoit David, é um coadjuvante no álbum que não compromete. Quando Jon Anderson teve problemas de saúde, os demais membros do Yes, depois de uma espera que parecia sem fim, decidiram continuar sem ele. Seguindo o exemplo do Journey, a banda contratou o vocalista de uma banda cover de Yes. Nessa época, vi uns vídeos e ao notar que o vocalista meramente imitava o Jon Anderson, perdi totalmente meu interesse pela banda, que havia recrutado também o filho de Rick Wakeman para os teclados e saía em tour sem material novo, quase como uma banda cover de si mesma. Chegaram a tocar no Brasil, mas apesar de sonhar ver a banda ao vivo há muitos e muitos anos, para aquele Yes eu não viajaria pra ver. Agora, com Geoff Downes nos teclados e sob a batuta de Trevor Horn na produção (que foi o vocalista do Drama e produziu o 90125, o disco de maior sucesso do Yes), Benoit David parece não estar imitando Anderson — na verdade, ele parece estar mais imitando Horn do que qualquer coisa. O que é até natural, na verdade, dado que os vocalistas frequentemente copiam o estilo de cantar do compositor (comparem a demo de "Space-Dye Vest" com Kevin Moore no vocal e a versão final, ou reparem como Gene Simmons canta "Cold Gin" com um ar desleixado de Ace Frehley).

Vários fatores contribuíram para essa "volta ao Drama". A saída de Jon Anderson foi a primeira. Com ele fora, o Yes pôde voltar a tocar músicas do Drama ao vivo. Por ser o único disco gravado sem ele, Anderson se recusava a cantar músicas dessa fase, e por esse mesmo motivo havia enorme expectativa quanto a ouvir esse disco, que sempre teve um status meio cult dentro do catálogo do Yes. Além de ser um excelente disco, o Drama traz pitadas de elementos estranhos ao resto da obra do Yes, trazidos pela injeção de modernidade (para os padrões de 1980) que Horn e Downes trouxeram para a banda quando da primeira saída de Jon Anderson e Rick Wakeman. Curiosamente, nas comunidades online, os fãs de Yes se categorizam como "travelers" (preferem os primeiros discos), "troopers" (preferem a fase clássica), "generators" (preferem a fase anos 80)... ou "panthers" (preferem o Drama!). Isso já demonstra o status especial do disco no cânone do Yes. A excelente recepção que as músicas do Drama tiveram ao vivo na tour de 2009/2010 com certeza plantaram na cabeça de Chris Squire a semente da ideia de chamar Trevor Horn para a produção do próximo álbum.

Horn, depois do fiasco como vocalista do Yes (ele não tinha alcance vocal para cantar o repertório de Anderson e era frequentemente vaiado nos shows) assumiu a carreira de produtor e foi muito bem sucedido. Inicialmente com o próprio Yes, produzindo o hit "Owner of a Lonely Heart" e depois se tornando um nome extremamente requisitado do mundo pop-rock.

Durante o hiato do Yes, houve ainda a reunião do guitarrista Steve Howe com Geoff Downes na volta da formação original do Asia, supergrupo pop-rock que eles tiveram juntos com o Palmer (do Emerson & Lake) após a dissolução do Yes causada pela turnê do Drama. A resolução das diferenças entre Howe e Downes e a boa recepção dessa volta entre os nostálgicos fãs sem dúvida contribuiu para essa volta.

Inicialmente, a banda chamou Horn para produzir uma música de sua autoria que tinha ficado na gaveta em 1980. Por sugestão de Horn, trouxeram de volta Geoff Downes à banda, dispensando Oliver Wakeman... mas como no Yes é um entra-e-sai de integrantes, já o fizeram dizendo "quem sabe um dia ele volta".

Felizmente, o resultado final não ficou algo explicitamente saudosista, projetado para parecer algo feito em 1980. O disco não é uma caricatura, como é o Sonic Boom do Kiss, que tenta parecer um disco feito nos anos 70. Por outro lado, é um disco claramente alheio às tendências musicais. É um disco feito pros fãs do Yes, e em especial, para agradar aos "panthers". Este aqui, pelo menos, ficou bastante satisfeito. Se os rumores de uma volta à América do Sul no final desse ano forem confirmados, estarei lá!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Revisitando a Discografia de Paul McCartney, parte 4 – Outras incursões musicais...

Pois é, enquanto estamos aqui falando sobre os discos tem gente já acampada lá no Beira-Rio... é muito querer!

Fechamos a série, este último foca algumas extravagâncias de Paul, que desde a época dos Beatles, sempre gostou de experimentar coisas diferentes. Utilizando pseudônimos ou não, ele forma alguns projetos paralelos:

Música Eletrônica

Sob o nome de The Fireman (parceira de Paul McCartney com Youth), sai Strawberry Oceans Ships Forest (1993) e Rushes (1998), bons álbuns de música eletrônica, com muito pouco vocal. Basicamente são aquelas musiquinhas de se ouvir naqueles lugares lounge, com paredes pretas, sofás brancos e meia-luz colorida. Em Rushes, temos a ousada Fluid, com sons orgásmicos.

Recentemente veio Electric Arguments (2008), em que Macca soltou o verbo, cantando bastante. O interessante deste último é que Paul foi pro estúdio sem nada pronto: em 13 dias separados, compôs e gravou as 13 músicas, uma para cada dia. O resultado foi muito bem recebido pela crítica, e nos shows atuais, Macca toca duas músicas: Sing the Changes e Highway.

Além desses, também temos Liverpool Sound Collage (2000). Não escutem isso que é uma porcaria. Até tenho vergonha de dizer que é um disco do Macca, Youth e uma de minhas bandas favoritas: Super Furry Animals. Twin Freaks (2005) são vários remixes (no mau sentido) de várias músicas do Paul, para quem é fã até vale a pena escutar, e para quem não é fã... qual é o seu problema?

Música clássica

Limito-me a referenciar um especialista: Celso Loureiro Chaves, coluna “Macca Clássico” da ZH de sábado passado. Como a ZH tá deveras fresca em liberar o seu conteúdo na internet, farei o favor de lhes transcrever algumas palavras do homem aqui (espero não ser processado!):

(...) e o Macca clássico? Vale?

Liverpool Oratório (1991) – (...) tem suas longuices e seus excessos de açúcar aqui e ali, mas que diachos... nas longuices se dorme e açúcar em música é pecado que se pode cometer de vez em quando.

Standing Stone (1997) – (...) Quem mandou Sir Paul tratar em música a evolução da humanidade? Em uma palavra – esse oratório é insuportável.

Ecce Cor Meum (2001) – (...) é de longe o mais nobre. Nele, ao que se diz, o compositor deixou de lado os inúmeros colaboradores que orquestravam, poliam, davam forma final aos seus pensamentos e decidiu fazer tudo – do texto à orquestração.

Pra encerrar...

Deixei de lado os albuns Ao Vivo, dos quais recomendo o último Good Evening New York, lançado no ano passado em CD e DVD. São duas horas e meia de show em que o cara não para nem pra tomar água. O Unplugged (1991) também vale a pena, é daquela época que esse formato tinha o som verdadeiramente cru, à la sarau. Outros shows também são bons, e você pode encontrá-los por preços módicos nas Multisons da vida.

E também deixei de lado as poucas (em relação ao tamanho da obra do cara) coletâneas, mas recomendo o ...All The Best, coletânea que é um referência do que Paul fez de bom desde a dissolução dos Beatles até 1987. Foi bastante útil pra mim que nunca fui fã de Wings. Eu tenho a impressão de que outra coletânea (um CD duplo?) virá em breve. Como viram nesses quatro posts, o cara tem bastante material pra fazer uma compilação bem fina.

Era isso, turma! Nos encontramos Domingo no Gigante. Até lá!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Revisitando a Discografia de Paul McCartney, parte 3 – mid 90’s - hoje

Sim, o velho Paul estava de volta. Flaming Pie (1997) torna-se um marco da carreira do Macca. Com direito até a uma jam com Ringo Starr, Paul volta a lançar um álbum daqueles que é impossível dizer que alguma música é ruim. A confiança da crítica na obra de Paul volta para nunca mais findar. Ele mesmo diz que boa parte da inspiração veio da imersão no material dos Beatles feito durante o Beatles Anthology.

Linda McCartney falece no ano seguinte.

Definitivamente Paul reassume seu compromisso com o Rock, gravando Run Devil Run (1999) com David Gilmour e Ian Paice, uma compilação de 15 faixas contendo apenas 3 músicas próprias e o resto, covers de antigos clássicos do rock. O disco foi gravado em três dias e ficou bem legal.



Driving Rain (2001) é um bom disco! O primeiro gravado com ajuda da banda que lhe acompanha atualmente nos shows, é acelerado com a faixa-título, pulsado com Tiny Bubble, meloso com Magic e Heather, e bem pesado com Rinse The Raindrops, que tem quase dez minutos de duração.

Chaos and Creation in the Backyard (2005). Minha avaliação deste album não é das melhores. Apesar de elementos criativos, me parece que a obra ficou mais simplória do que deveria – e com muitas cadências deceptivas (acordes trocando de maior pra menor) – seria o prenúncio da separação com Heather Mills?




Memory Almost Full (2007). Consistente e muito mais recheado do que o seu predecessor, passou a fazer parte da lista dos melhores discos do Paul, em que ele voltou a pedir ajuda pra sua atual banda para metade das músicas. O disco também foi muito bem recebido pela crítica e Paul não deixa nenhuma dúvida de que há tempos ele consegue consolidar a sua liberdade criativa com o gosto do público.

Acabou? Que nada! Tem mais um post...


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Revisitando a Discografia de Paul McCartney, parte 2 – Dos 80’s a mid 90’s

1980

Emendando com o final do último post: ...mas o pior ainda estava por vir! A história com o Wings acaba, e McCartney volta pro estúdio sozinho com sua esposa e lança McCartney II, um disco gravado em casa, muito ruim - só Coming Up se salva – e que me representa um grande trauma de adolescência que tive ao botar essa pizza preta para tocar na vitrola depois de muito tempo escolhendo o disco ali no “Zaffari” de Canoas (na época que comprei, circa 1991, não tinha essa de baixar na internet pra ver qual é que é...).

E eis que ocorre um fato importante: John Lennon morre. Agora torna-se um desafio lançar um disco de verdade, visto que todas as atenções e críticas voltarão-se a ele...



1982:

...e depois de passar o ano de 81 inteiro planejando e conectando-se com suas redes sociais (méritos dele, naquela época não tinha orkut, facebook...), Macca tem um surto de grandeza e grava Tug of War em Montserrat com participações de Ringo Starr, Steve Gadd, Stanley Clarke, Carl Perkings e Stevie Wonder – e uma “little help” de George Martin. Em paralelo, a Beatlemania reacende fazendo seu vigésimo aniversário. Excelente álbum, com grandes composições. Mas foi fogo de palha pois...





De 1983 a 1986

...voltaram as vacas magras. Pipes of Peace, Give My Regards To Broadstreet (aproveitando a volta da Beatlemania) e Press To Play. Particularmente adoro este último, mas apenas por motivos nostalgísticos – comprei o K7 (foto ao lado) naquela clássica Tabacaria Central da Rua Grande em São Leo (lembram que tinha uma seção de discos ao fundo?). Gastei essa fita no walkman.

Estes álbums têm um componente piorador que é a inadequada inclusão de música eletrônica, típica dos oitenta. Pra não dizer que não tiveram coisas boas, cito as baladas No More Lonely Nights e Once Upon a Long Ago. A primeira delas tem um solo primoroso de David Gilmour - é impressionante ver esse cara fazer mágica em seis compassos e meio, além das demais pinceladas no resto da música.



1989 e 1993

Dois álbuns “Mais pra bom do que pra médio”: começando a largar mão das péssimas influências dos anos 80, sai Flowers in the Dirt, disco que eu gosto bastante: na época de seu lançamento, tinha recém ganho toda a discografia dos Beatles de Natal e estava muito empolgado com a vinda de Paul ao Brasil, que não pude presenciar. Isso fez parte da volta das grandes turnês mundiais – entrando no Guinness Book of Records com um dos shows no Maracanã que registrou 184 mil pessoas.

Em 93 lança Off The Ground, onde é clara a tentativa de voltar às raízes roqueiras: ouçam Looking For Changes. A utilização de instrumentos sonoramente falsificados dessa vez diminuiu drasticamente. E as coisas viriam a melhorar cada vez mais...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Revisitando a Discografia de Paul McCartney, parte 1 – Os anos 70

Fazendo o “aquece” para o show do Paul no Beira-Rio do dia 7 de novembro, resolvi revisitar a sua discografia. (Não se preocupe Ulisses, não vou falar das péssimas atuações cinematográficas do Paul. :) O resultado está sendo um post bem superficial e subjetivo da carreira do Paul pós-Beatles. Dividi em várias partes, ainda nem sei quantas serão. Comecemos pelos anos setenta...

1970-early 1973

Praticamente junto com a dissolução oficial dos Beatles, Macca lança ainda em 1970 um álbum chamado simplesmente McCartney. O que dá a impressão de que todas as “sobras” que ele não tinha coragem de mostrar aos Beatles, ele resolveu mostrar ao resto do mundo. As grandes exceções são Junk e Maybe I’m Amazed, duas canções excepcionais que destoam das demais, não pelo estilo de gravação, mas por sua qualidade musical em si.

No ano seguinte veio Ram, um disco mais elaborado em termos melódicos mas que também não agradou muito como um todo – eu fico imaginando os críticos na época, comparando com os discos dos Beatles... e no mesmo ano temos o primeiro disco da banda Wings, chamado Wild Life: um disco cru (cinco músicas foram gravadas em um só take) e bem fraco. Meu sogro diz que, na época, juntou uma boa grana pra comprar esse disco - acho que ele merecia um pouco mais pelo suor...


Depois de 72, o primeiro ano da carreira profissional do Macca sem lançar um álbum, em 73 ele muda o nome da banda para Paul McCartney & Wings e lança Red Rose Speedway, que tem um grande lado A e um lado B “just fine”. A crítica aos poucos volta a respeitar o ex-beatle.


Late 1973

Depois do grande sucesso do compacto Live and Let Die, tema do filme homônimo bondiano, Macca prepara um novo álbum para ser lançado. A Nigéria é escolhida dentre os estúdios da EMI disponíveis. Na véspera da viagem, dois membros cuzões fogem debaixo das asas e Macca, sua esposa e Denny Laine, gravam sozinhos o álbum Band on the Run, que viria a ser o mais importante da carreira do Wings. Consistente e com grandes músicas como a faixa-título, Jet, Let Me Roll It e Mrs Vandebilt, que Paul perpetua em seus shows até hoje. É um grande disco, apesar de ser ele mesmo que toca bateria. ;)

1976-1979

Ainda junto com o Wings saíram Venus and Mars, Wings at the Speed of Sound, London Town e Back to The Egg. O melhorzinho é o primeiro e, espremendo todos eles, dá pra tirar Listen to What The Man Said, Silly Love Songs e Let ‘Em In, sucessos medianos. Como isso aconteceu eu não sei, mas o grande Macca entrou na onda de fazer-o-que-queria e deixou a coisa degringolar. É um direito dele, mas fico com saudades das saudáveis competições musicais com John Lennon (um lançava Strawberry Fields, o outro vinha com Penny Lane...). Mas o pior ainda estava por vir, como verão no próximo post...


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Incertezas, parte 2: compor

(Link para a parte 1)

Compor pra mim sempre foi algo natural. Tão natural que a gente não chamava de "compor", a gente chamava de "fazer música". E não digo isso no sentido de que eu me sinta um compositor nato ou qualquer bobagem dessas -- digo no sentido de que fazer música era algo que fazia parte da minha vida desde antes de eu começar a fazer música.

Graças ao meu irmão mais velho Jorge, o rock sempre circulou dentro de casa. Tem foto minha com 4 anos de idade imitando o Gene Simmons na festinha de aniversário. Eu lembro de fugir com medo pelos corredores da casa quando ouvia a introdução de Iron Man do Black Sabbath. Num canto empoeirado da antiga casa talvez ainda exista uma fita VHS com uma filmagem mostrando eu com uns 5 ou 6 anos ouvindo o Alive II. Eu lembro de quando o Appetite for Destruction chegou lá em casa. O lançamento do sucessor do Slippery When Wet (ou melhor, a dia da chegada do disco lá em casa) foi um momento mais esperado pra mim do que a noite de Natal (eu lembro que no primeiro dia Jorge não me deixava encostar no vinil zero-quilômetro do New Jersey). Lembro de me divertir com as maluquices do A Farewell to Kings, o único vinil do Rush que tinha lá em casa, que eu achava que faria uma boa trilha sonora para um filme de ficção científica, junto com o Rendez-Vous do Jean-Michel Jarre.

E além de ouvir as músicas das bandas, eu ouvia as músicas que o Jorge fazia, junto com o amigo-de-fé irmão-camarada dele, o Gustavo. Meu pai era muito bravo e não deixava os amigos do Jorge sequer entrarem lá em casa, porque dizia que eram "más influências". Assim, eu só conhecia o Gustavo pelas vezes que eu atendia a porta olhando pela sacada quando a campainha tocava ("Teu irmão tá aí?") e pelas fitas cassete das gravações dele com o Jorge.

Meu irmão tinha 18 anos (eu tinha 9). As gravações eram caseiras, coisa feita com aparelho de som com microfone embutido e os botões REC e PLAY. Um ou dois violões (o Jorge não tinha instrumento nessa época, mas aprendia a tocar na casa dos amigos), duas vozes. E as músicas. As músicas... bem, as músicas eram muito boas! Melodias e refrões cujos trechos eu me lembro até hoje, cantadas num inglês às vezes cambaleante (que eu não fazia ideia na época, e que eles mesmos viriam a corrigir poucos anos depois). Um monte de músicas de três minutos cada, enchiam uma fita, que eu escutava over and over and over. "While Alcohol Rules", "Present/Future/Past" e aquela que tinha tudo pra ser o single, "Easy to say" (os vocais em harmonia do refrão tocam na minha cabeça agora).

Eu gostava daquelas músicas tanto quanto eu gostava das músicas das bandas dos discos. Eu ouvia aquela fita e conseguia imaginar as músicas tocadas com baixo, guitarra e bateria, com toda a super-produção de estúdio dos anos 80, assim como alguém que lê um livro consegue imaginar a ambientação de um palácio. E eu imaginava que as músicas dos discos nasciam do mesmo jeito que as músicas do meu irmão e do amigo dele. Uma ideia, um violão, escolhe os acordes e a letra, sai tocando, e era isso. Sem grandes mistérios.

Quando eu tinha 10 anos o Jorge passou seis meses nos Estados Unidos e quando voltou, trouxe um violão e uma guitarra. Assim como eu aprendi a programar com o computador que o pai comprou pra ele, ali então eu de novo filei o brinquedo do irmão mais velho e comecei a brincar com os instrumentos. (Ele até trouxe um tecladinho de brinquedo pra mim, que eu usei bastante até mas nunca levei muito a sério... só olharia pras teclas de novo muitos anos depois.) Não demorou muito e eu já estava me virando com os acordes, escolhendo as músicas pra tocar nas revistinhas que não tivessem pestana. Quando me perguntam, eu digo que aprendi a tocar oficialmente aos onze anos.

Eu não lembro do dia exatamente, é um daqueles casos que tu lembra da lembrança tantas vezes que não consegue mais lembrar do fato original, mas um dia, acho que com 12 anos, o Jorge me viu tocando e perguntou como quem não quer nada: "tu só fica aí tocando acordes e nunca faz nada? Faz uma música." Ele nem lembrava mais de ter dito isso quando, dias depois eu bati na porta do quarto dele pra mostrar a música que eu tinha feito. Desse dia eu me lembro bem. Ele se surpreendeu que eu não só tinha feito a música, mas também já tinha uma letra, e em inglês (no melhor que eu podia fazer à época). O mais curioso foi a avaliação que ele fez da música, que na ocasião não fez absolutamente nenhum sentido pra mim: "parece os sons dessas bandas de Seattle que tão aparecendo", sendo que eu nunca tinha ouvido nenhuma delas (imagine se algo do tipo entraria dentro do templo do hard rock que era a nossa casa) e já me achava no lucro por saber aos 12 anos de idade que Seattle era uma cidade dos Estados Unidos.

Depois dessa primeira (chamada "Walkin' Alone", assim mesmo, com a típica apóstrofe dos títulos da época, e que eu ainda me lembro como se toca) não tardaram a aparecer outras. Umas que eu lembro, outras que não. Eu lembro que eu fazia muita música, e jogava muita música fora. Folhas e folhas com letras e acordes. Acho que foi mais ou menos aos 16 anos que eu percebi um fenômeno: até então, eu quase sempre achava as minhas músicas legais quando fazia e um lixo seis meses depois. As músicas não sobreviviam ao meu amadurecimento, que é tão acelerado nessa época. Mais ou menos por essa idade, lá pro fim do segundo grau, que as coisas começaram a mudar, e eu comecei a conseguir fazer uma música e incrivelmente continuar gostando dela.

Eram todas coisas muito simples. Das que eu lembro, a maioria era um festival de clichês dos estilos que eu cresci ouvindo. Mas o segundo grau foi a época em que eu conheci de Led Zeppelin a Dream Theater (idade em que eu comecei também a apresentar bandas pro meu irmão... teria sido DT a primeira?) e a minha paleta de referências foi aumentando. Junto, o meu conhecimento de teoria (muito desorganizadamente) e de inglês, devorando as GuitarWorld que o Jorge comprava.

Nessa época o Jorge tinha uma banda, acho que a primeira que eu lembro de ver ele ensaiando seguido e produzindo material desde os tempos com o Gustavo lá atrás. E assim como eu ouvia aquelas fitas de violão de voz com 9 anos, com uns 15 eu ouvia as gravações dos ensaios da For Business, a banda dele com o Skizo e o Feijão. Guitarra, bateria e baixo, agora assim, a coisa realmente soava como uma banda, não precisava imaginar. As músicas eram menos numerosas, mas ainda eram boas. Um som mais pesado, riffs memoráveis. "Love Don't Fall From Grace". "Skizomotion", a instrumental. Uma lástima eu não ter conseguido ver nenhum show deles, mas acho que não foram muitos, mesmo.

Com 16 anos eu tive minha primeira banda propriamente dita, com os colegas do terceiro ano do segundo grau -- Christian, Serginho, Israel e eu --, tocando covers pop toscas, baseados naquela ideia de que "essas são as músicas que a gente tem que tocar pra conseguir tocar nos lugares". Foi um bom aprendizado, especialmente as dicas do pai do Christian que me ensinava como fazer harmonia nos backing vocals -- esses dias lembrei da primeira vez que cantei harmonia em três partes, num ensaio dessa banda, e do arrepio que me deu.

No ano seguinte o Christian se mudou pra Brasília e ficamos nós três. A banda mudou de nome e começamos a tocar músicas próprias, ou seja, as que eu vinha fazendo. Foram quatro anos fazendo músicas e fazendo ensaios todo domingo. E nunca fizemos um show propriamente dito. Na época, achei a coisa toda uma grande decepção, mas esse sim foi o grande aprendizado da minha vida em fazer música: a rotina de fazer, tocar, testar, treinar, mudar, aprimorar... a banda nunca saiu da garagem porque o repertório ficava sempre evoluindo e nós nunca chegávamos nas tais "duas horas de material": as músicas mais velhas eram abandonadas à medida que ficavam muito fracas perto das músicas mais recentes que eram bem melhores. Fiquei lembrando agora das músicas dessa época que ficaram pra trás. "Don't Give Up", "Before It Falls"... é engraçado, todas têm alguma coisa ou outra a que eu ainda tenho apreço. São dessa época também "Yesterdays and Tomorrows", que na época eu considerava a minha "obra prima" (e que ainda é uma das minhas músicas preferidas, embora muito pouca gente tenha ouvido), "The Third Stream", "Crossfire".

Acabou a banda, como as bandas acabam, e no ano seguinte, 2001, eu fui tocar teclado numa banda de rock progressivo, a Sky Garden. Todo mundo na banda tocava melhor do que eu, o que era ótimo pra me impelir a melhorar. As covers ficavam muito boas mesmo (guitarras, baixos e baterias idênticos; os teclados eu fazia o meu melhor, o que nem sempre era suficiente; os vocais eram muito bons, mas é claro que nunca ficam "idênticos" como o pessoal das covers tanto almeja). O ambiente dos ensaios era bem criativo até, as jam sessions eram inigualáveis: sempre achei que eles relevavam a minha falta de técnica tocando porque eu compensava com a maluquice criativa na hora das jams. No papel a intenção era passarmos a fazer sons próprios. Eu tinha receio em trazer pra banda as músicas que eu já tinha prontas -- principalmente, por medo que eles achassem elas ridículas. O que aconteceu é que nós nunca conseguimos terminar uma música: muitas ideias dispersas, e um desentendimento constante sobre o rumo que a banda deveria tomar. E mais uma banda que se separou, e dessa vez realmente foram por causa das tais "diferenças criativas".

Depois dessa fase de muito aprendizado, muitos riffs e nenhuma música inteira, eu passei um bom tempo sem tocar com banda, e algo estranho aconteceu. Cada vez era mais difícil fazer uma música. Pra cada ideia musical que rolava, eu já ficava planejando e arquitetando todo um arranjo, pensando se conseguiria bolar o sem-número de partes que eu achava que a música deveria ter, e fazê-las todas coerentes entre si. Eu me sentia pressionado pra tentar superar, aos meus olhos, "Yesterdays and tomorrows". Eu sinceramente tinha medo de nunca mais conseguir fazer uma música tão boa quanto aquela, e nem nada melhor.

Eu lembro que eu tinha uma frase no piano -- uma sequência de acordes com uma melodia em cima -- que eu achava que seria digna de construir uma bela música em volta, que serviria como a pedra fundamental. Na época eu ainda estava tentando encontrar pessoas pra montar uma banda nova, junto com outros dois amigos que também saíram da Sky Garden e queriam fazer música comigo. Cheguei a gravar em 2002 um improviso de 2 minutos baseado nesse "tema mágico", que na época eu pensava em transformar em tema central de uma música de uns 20 minutos de duração. Eu mostrava isso como demo na hora de convidar as pessoas a tocar junto, mas nunca conseguimos juntar as pessoas pra fazer a banda. Eu tenho essa gravação até hoje, se chama "Color Bleed".

Depois do fracasso em montar a banda eu de novo me desiludi e fiquei um tempo parado sem nem procurar nada. O Jorge então me convidou pra banda nova que ele estava fazendo, Tilt. A banda de novo era com o Skizo e o Feijão, ou seja, seria como a For Business mais eu no teclado. Com quinze anos minha vontade não realizada era apenas ver eles tocando; oito anos depois, lá estava eu tocando junto.

Mas o som era bem diferente. As músicas eram novas. Meu irmão estava numa fase inspirada de novo, depois de muito tempo. Dessa vez eram em português; acho que num esforço pra tornar as músicas "mais acessíveis" (pra quem?). Nessa banda eu aprendi o prazer de tocar músicas próprias escritas por outra pessoa: é realmente diferente de tocar covers. Mesmo não tendo feito a música, eu sentia que estava contribuindo, com as minhas partes de teclado, e não havia a sensação chata de estar "imitando alguém". A banda durou um tempo, gravamos algumas das músicas (embora algumas das minhas preferidas, como "Entre o Bem e o Mal" e a instrumental "Game Over/Point of No Return" tenham ficado de fora... lástima). Chegamos a fazer uns shows, mas o que eu guardo da banda foram em primeiro lugar os ótimos ensaios, e depois a experiência de gravar e o aprendizado de mixar a demo eu mesmo.

De lá pra cá as pausas entre as bandas ficaram cada vez mais longas. Só fui ter uma banda de novo no Rio de Janeiro em 2006, onde de novo toquei covers e próprias de outras pessoas. Cheguei a tentar começar a fazer uma música pra contribuir pra banda, mas de novo, como tinha acontecido uma vez na Tilt, e tinha acontecido antes na Sky Garden, o processo de passar pra banda as minhas ideias sempre era altamente problemático -- de repente eu me pegava fazendo coisas altamente intrincadas que travavam o ensaio totalmente: eu complicava demais. Hoje eu olho e penso que era receio de chegar com algo muito simples e considerarem as minhas ideias bobas. Aí aparecia eu com os contrapontos com uma voz em 7/8 e a outra em 6/8...

Por essa época eu resolvi romper com a doutrina da quebradeira e comecei a deliberadamente simplificar as minhas músicas... até pra ver se eu conseguia voltar a terminar alguma! Resignado por não ter banda pra tocar, comecei a gravar umas demos em casa, montando arranjos gravando todas as partes com a guitarra e o teclado toscamente. Nessa época eu fiz "Ever Know" e "Matte Painting Skyline" (que nasceu pra ser uma música pesada pra banda no Rio e depois mudou totalmente de característica).

Ao mesmo tempo, eu continuava com algumas ideias pendentes. Vez que outra eu retornava àquela ideia "Color Bleed" e fazia mais algum pedacinho pra encaixar, como se estivesse construindo um quebra-cabeça ao longo dos anos. Mais antiga que essa ainda, era uma sequência de cinco notas em 7/8 e seis em 4/4 que eu vim carregando na cabeça desde os tempos da primeira banda de músicas próprias. Acho que foi no Rio, uns seis anos depois, que consegui terminar a música, que ganhou o nome de "Untrue".

Voltei pro Rio Grande do Sul, vieram novos projetos de banda, mas esses de covers. Excelentes momentos, mas que afastavam cada vez mais o meu "tocar música" daquilo que eu sempre tive como o meu pensamento central em relação à música, que era "fazer música". Ao mesmo tempo, eu vinha percebendo como pensar em fazer música era algo cada vez mais complicado pra mim -- parecia outra vida os tempos em que eu produzia despreocupadamente, jogando músicas fora a cada seis meses e fazendo outras até gostar. Agora as músicas haviam virado grandes catedrais que eu esculpia pedrinha por pedrinha e que nunca ficavam prontas, em busca de uma perfeição no meu próprio julgamento subjetivo. E pior ainda, isso tudo sendo um processo mental solitário -- ninguém nunca ouvia essas músicas inacabadas, que pra todos os efeitos eram ainda músicas imaginárias. Eu me sentia por vezes afundado em um processo criativo intenso, amadurecendo como músico e todo esse papo... mas nunca ninguém ouviu nem sequer qual era o tipo de música que eu tinha em mente.

Lá pelo meio de 2008, época do fim da Fink Ployd, eu pedi ao Coutinho a chance de gravar minhas músicas no estúdio dele. Não sabia direito nem como propor uma coisa dessas, mas estava disposto a fazer nos termos que ele achasse adequado. Pra minha surpresa, ele abraçou o projeto como forma de aprendizado mútuo, meu como compositor/arranjador/intérpete (todas essas palavras bonitas), e ele como engenheiro de som/produtor. Aos poucos, no ritmo do nosso tempo livre, as músicas foram nascendo. Fui chamando os amigos dos tempos de Fink Ployd e Flaming Pie para gravar partes. A qualidade das contribuições deles era tão grande que acabamos regravando muita coisa que eu havia inicialmente gravado eu mesmo. Um CD inteiro foi nascendo.

Com as gravações, por um tempo fazer música voltou a ser um processo dinâmico pra mim. Como o próprio nome diz, gravar tem a propriedade de te fazer tomar uma decisão que vai ficar ali "gravada", então muitos nós mal atados que as músicas tinham enquanto estavam só na minha cabeça tinham que ser resolvidos de uma vez. Cheguei a bolar a melodia do refrão da faixa 1 enquanto dirigia no caminho entre a casa e o estúdio, berrando feito um louco na BR, "'cause in every fraaame, it's always there!"

Mas já se vão quase dois anos. No final do ano passado tentei organizar uma banda junto com o pessoal mais envolvido no CD pra tocar as músicas, mas a demora da coisa como um todo desanimou todo mundo. O CD está quase pronto. 99% gravado -- estaria pronto se eu não estivesse sendo um chato e insistindo em gravar uma harmonia extra de backing vocals pro final de uma das músicas. Acho que ninguém aguenta mais o processo, as músicas já estão "velhas" e nem se terminou de mixar. (Se já parece estar assim pra eles, imagine pra mim, que convivo com essas músicas dentro da cabeça há vários anos mais.) A maioria da gurizada já partiu pra outra. Alguns de nós pensamos em tentar de novo fazer a tal coisa da banda pra tocar essas músicas, mas tá complicado.

Às vezes eu fico pensando no propósito disso tudo. É muito esforço, as músicas por vezes martelam a cabeça quase como uma paranóia. Nunca vê-las terminadas, nunca tocá-las, é uma frustração constante. Compor parece ser a cada dia mais complicado, agora que deixou de ser "fazer música" e virou "compor" e a gente se torna cada dia mais exigente com a própria produção. Ao mesmo tempo, eu mostrei pra algumas pessoas essas músicas gravadas, e a música preferida é frequentemente a única das realmente antigas que eu incluí, a que eu escrevi com 18 anos.

Estava hoje pensando nesse assunto. Pensando no meu irmão, em como aprendi a fazer música vendo ele fazer e como com o passar dos anos ele parecia ter períodos de "entressafra" cada vez mais longos, e como eu pensava que isso era um desperdício, que quando ele sentasse pra fazer músicas de novo ele faria músicas tão legais quando aquelas que ele fez lá atrás e que eu adorava. Lembrei do velho amigo dele, o Gustavo, a quem parecia se passar o mesmo. Lembrei de uma música fantástica que ele fez há muitos anos chamada "Night and Day", e me perguntei porque não haviam outras mais assim depois dessa. Fiquei me perguntando se com o passar dos anos a pessoa vai perdendo esse ímpeto e se estava pra chegar a minha vez.

Aí eu liguei o computador às 11 e meia da noite e tinha um email do Jorge com um mp3 anexado: "E aí guri... saca essa vinheta que eu espero que um dia vire um som..."

Um riff novo, e o som é animal. A música vive.

Incertezas, parte 1: tocar

Um dia tu é guri. Gosta de música, ouvir som te causa uma empolgação que poucas outras coisas são capazes de causar. Tu vê as bandas, tu tem ídolos que pra ti estão num pedestal. E o que eles têm de diferente de ti? Em primeiro lugar, eles fazem música. A música sai deles, assim como ela entra em ti. E então tu resolve que quer fazer música também. Fazer ela sair de ti.

Pega um instrumento, começa a tocar. Aos trancos e barrancos a coisa começa a sair. E quando sai, a sensação é muito boa. É a música ali, acontecendo. O grito que tu ouve, e que te empolga, é o teu grito. E não tem nada igual.

Até que um dia tu cria coragem e resolve tocar com mais gente. A primeira banda, ou arremedo de banda, como tipicamente é. Tu esbarrando nas tuas dificuldades, tropeçando nas dificuldades dos outros também (e como parecem difíceis as nossas partes e simples os erros dos outros! "Não, Fulano, é assim ó!")... E mesmo assim, é tão melhor que tocar sozinho, mas tão melhor, que tocar sozinho nunca mais vai ter a mesma graça.

E o tempo voa e tu não é mais guri. Hoje tu toca muito melhor do que tu tocava, mas bem pior do que um dia tu achou que ia chegar a conseguir tocar. Agora tu te sente mais amadurecido na tua relação com a música. Aquelas horas todas brigando pra melhorar a técnica hoje parecem nem fazer sentido mais, afinal, hoje tu valoriza o feeling. Ainda assim, quando pega o instrumento alguma coisa parece estar faltando. "Putz, to enferrujado", tu diz pra si mesmo e pros amigos que te veem tocando. No fundo, tu pensa quão melhor que isso dá pra chegar hoje em dia. "Hoje em dia" é o ponto-chave. Tu já chegou a tocar melhor que isso uma época, mas tu acha realmente que hoje vai conseguir botar no instrumento a dedicação que tu já chegou a botar anos atrás pra, bem, "desenferrujar"?

Aí tu te contenta que, bom, a técnica que tu tem até que dá pro gasto; agora é refinar os outros lados, trabalhar o lado criativo, abrir a cabeça pra outras sonoridades, aquele papo todo. Aprende a tocar uma que outra coisa de uns estilos que nos tempos de guri tu desdenhava, mas não chega a passar muito do básico, até porque não tem muita paciência pra ficar penando nesse tipo de som... mas já é suficiente pra mostrar o ecletismo pros outros amigos roqueiros (não que o objetivo fosse provar pra eles... sempre foi provar pra si mesmo.)

As bandas também mudaram. Lá se foram os ensaios que duram a tarde toda, cinco horas seguidas tocando sem camisa numa tarde de verão pra no final limpar o suor que escorre dos instrumentos. Agora ensaio tem que ser combinado um por um, pra ver se todo mundo pode, pra ver se tem hora de estúdio disponível, pra ver que músicas falta tirar. Duas horas contadinhas e no fim das contas essas são as duas únicas horas que tu chegou perto do instrumento a semana inteira. Tu já chega no ensaio com o "bah, não deu pra tirar" preparado na ponta da língua. Depois de um tempo, já nem tá mais tão sem jeito de dizer, porque nunca é o único. Aí acabam tirando as músicas ali mesmo no ensaio (feliz porque hoje consegue tirar muito mais rápido do que quando era guri) mas aquelas mais difíceis vão sempre ficando pra depois e no final nunca são tocadas.

O propósito da banda? Ah, é pra curtir. Afinal de contas, pra estressar já tem o trabalho. Covers que todos gostam e conhecem, mais fácil de tocar, não tem conflito. Volta e meia alguém consegue um show pra tocar. Os ensaios ficam mais pilhados. A data chega perto, convida os amigos, alguns até aparecem. O palco. Não importa onde, não importa como, é um palco. A acústica do lugar é um lixo. Tem tri pouca gente. Aquela parte da música que vocês erraram em todos os ensaios, pode crer: vão errar de novo quando ela chegar (mas agora já tão até acostumados pra contornar o erro e seguir em frente)... E mesmo assim, é tão melhor que tocar no ensaio, mas tão melhor, que ensaiar nunca mais vai ter a mesma graça.

Passa o show, a burocracia de sempre pra marcar o próximo ensaio. Banda de adultos, tudo é burocracia. Fulano vai viajar -- a trabalho -- então semana que vem não vai ter. Na outra sexta fica ruim. Quando o próximo ensaio finalmente acontece, tu já esqueceu de novo daquela parte que tu sempre confundia. O ensaio não tem a mesma pilha, mas outra hora pinta mais algum show. Mas os amigos da banda são os de sempre, as piadas, as saídas pra cerveja pós-ensaio, e no fim das contas aquele momento é sempre um dos highlights da tua semana.

E as bandas acabam. Por um motivo, por outro motivo, mas acabam. Fulano vai se mudar. Procurar outro cara vai ser muita função, e bah, quem mais ia cumprir o papel dele na banda? A banda nessa altura das coisas tá mais pra uma confraria de amigos. Tu tá mais preocupado com a química daquele grupo de amigos do quem com quem vai tocar tal instrumento. Ou então acaba porque Beltrano saiu da banda, anda ocupado, não tá mais afim, tá sem tempo. No frigir dos ovos, "tá sem tempo" e "não tá mais afim" são sempre sinônimos. O cara que te disse que tá sem tempo, depois tu vê ele dedicando o tempo livre pra alguma outra atividade que lhe dá mais prazer. Ah, mas é o comprometimento com a banda que ele não podia garantir. Pois é, em outros tempos isso parecia não ser tão complicado, dava-se um jeito.

Bandas acabam e outras aparecem. Cada vez mais o que te atrai são os "projetos" com pouco compromisso. Quanto menos comprometimento a coisa exigir, melhor. A regra é o "é pra curtir". Se reencontrar com o instrumento depois de um tempinho parado, bah, é muito bom. Aquele primeiro, segundo ensaio. Aí tu vê que aquela coisa do "desenferrujar" demora cada vez mais. Mas tudo bem, não é pra ser nada longo-prazo mesmo, valeu por tocar com os amigos de novo, de repente um showzinho, que até é legalzinho de novo, depois cada um pro seu lado. E tu fica bem contigo mesmo por um tempo, porque reafirmou pra si mesmo que "não tá parado".

Mas no todo isso não satisfaz. Chega em casa e olha pra aquele monte de instrumentos que tu acumulou ao longo dos anos. Parados. Tu te lembra de quando tu tinha só um caco de instrumento pra tocar, e tocava direto, sonhando com quando teria o equipamento que hoje tu tem e que ficam parados em casa. Esperando não sei o quê. Assim como as ideias. Aquelas que tu nunca pôs em prática. De quando tu comprou aquele instrumento e pensou que ia usar ele na tal banda ideal que nunca aconteceu, mas que, bem, um dia... afinal, ainda "tá nos planos". Tu pensa nas músicas que tu sempre quis tocar com banda e nunca deu. Tu pensa nas maluquices musicais que tu já inventou mas que ficaram "na manga" pra quando pintar a banda pra pôr em prática. A banda que está cada dia mais difícil de acontecer.

Porque hoje, agora, não dá pra se dedicar pra ter banda. A banda pode até existir, é tu, o Fulano e o Beltrano, mas se existe "tá de molho", o que dá no mesmo que não existir. Os outros amigos perguntam: "e aí, tá tocando?" e tu responde que sim mas que isso-ou-aquilo; se perguntam "tá tocando em algum lugar?" ou "quando é o próximo show?" aí tu sempre desconversa, "quando tiver eu aviso". E isso que essa não-banda, que quase nunca ensaia, nem é a tal da banda ideal pra quem tu guarda as tuas melhores ideias.

Aí tu começa a te dedicar a outras coisas, coisas até relacionadas com esse aprendizado todo de música que tu acumulou ao longo dos anos, mas que te deem uma sensação que vão pra algum lugar. Porque depois de uma certa idade tu nunca pensou a sério em ser músico profissional (e mesmo quando guri era pensamento mais de ficar viajando que qualquer coisa). Então afinal de contas, pra que ir atrás de fazer banda, se nunca dão em nada, mesmo? Aí tu te volta pra outras coisas onde tu vê o teu esforço criativo ser mais recompensado. Esse papo de ter banda tu deixou em segundo plano por enquanto. Claro, é bom tocar quando rola, ainda mais com os amigos, mas não mais que isso. O pensamento é que mais adiante tu vai ter mais tempo, e aí vai poder fazer e tocar o que quiser.

Mas assim como o tempo voou e tu não é mais guri, o tempo não para de voar, continua voando. E os dias, meses, semanas tão passando e logo são anos desde a última vez que tu te dedicou a um projeto de música, a uma banda, com todo o teu foco, com todo o teu coração. Tu não te dá conta do tempão que já faz desde a última vez que tu fez a música que te arrepia, que te empolga, sair de ti. E talvez tu não te dê conta que a banda daquele teu sonho nunca vai acontecer, que aquelas ideias nunca vão sair do papel. Que aquela energia adolescente que te impeliu a tocar se foi e que a música virou o hobby do adulto pra desestressar fora do expediente.

Não vai haver um dia específico em que tu vai "largar a música". Os instrumentos ainda vão estar por lá. Tu ainda vai brincar com eles vez que outra. Tu ainda vai ouvir os teus discos preferidos, conversar sobre som nos churrascos no fim de semana, sobre as velhas bandas preferidas, ou talvez até sobre alguma nova. Volta e meia tu até vai te juntar com uns amigos e tocar, às vezes com intervalos de anos, às vezes com uma boa frequência.

Tu ainda vai te sentir ligado com a música. Mas tu vai ver a piazada mais nova tocando e vai reconhecer neles uma coisa que tu já teve e que não tem mais. Tu vê que eles estão transbordando de ideias, de sentimentos, e que fazer música é pra eles, mais que uma vontade, uma necessidade de se comunicar. De se fazer ouvir, de gritar aquele grito. E que hoje quando tu pensa, os pensamentos não vêm em forma de música.

Os teus projetos são outros, mas a música não sumiu por completo, é um desejo distante que tá ali. Mais presente ainda é a ilusão de que a retomada pra música tá logo ali adiante. Aí uma hora tu até ensaia uma retomada: ensaio marcado pra semana que vem, "agora vai". Mas não vai ser semana que vem, nem na próxima, nem na outra, que tu vai reconciliar o teu espírito com a música. Que quando tu chegar em casa num dia qualquer no meio da semana, que quando tu botar a cabeça no travesseiro, o que vai ficar tocando na cabeça é a música pro próximo ensaio, como um dia já foi. Quando é que será que tu vai te pilhar de novo pra tocar como naqueles outros tempos? Pensar na ideia de voltar a tocar ainda te deixa empolgado, isso é a nostalgia falando. Mas na hora que tu pega o instrumento tu te dá conta que vocês dois estão se tornando dois estranhos. E logo tu larga o instrumento e deixa pra depois, de novo.




Apesar do uso da segunda pessoa, o texto é evidentemente auto-biográfico; um diálogo interno, talvez, que eu quis compartilhar com os amigos. Não tenho convicções sobre as coisas que estão escritas nele, assim como não tenho convicções sobre nada que tange a arte hoje em dia. Mas achei que valia a pena externar.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Afinal, como foram remasterizados os Beatles Remasters?

Quando eu tenho dúvidas sobre assuntos musicais, tenho que recorrer aos meus amigos que mais entendem do assunto. Apreciarei vossas opiniões e comentários! (alguém encaminha esse link pro Bardo?)

Há muito tempo escuto os remasters dos Beatles, lançados em 9/9/2009. Discutindo com os amigos (lembro da nossa primeira discussão ter sido na praia, naquele aniversário do Jean!), ficamos na dúvida se, dada a qualidade do remaster, a origem desse trabalho foi uma fita master "chapada", ou se foi feito um remix - denominação que certamente traria más interpretações caso a coleção fosse lançada como "Beatles Remixed".

Na opinião do Guto (citation needed - eu estava bêbado, portanto posso estar incorreto nesta afirmação), certamente os responsáveis pelo remaster pegaram as 4 ou 8 faixas e trabalharam separadamente em cada faixa. E isso me parece cada vez mais óbvio à medida que sinto o brilho e qualidade dos remasters (citation needed - estou bêbado agora!).
Principalmente em mono. Mudando um pouco de assunto, lembro de ouvir os primeiros CDs dos Beatles (circa 1992), e sentir a separação dos dois canais extremamente forçada e artificial - principalmente escutando em fones de ouvido. Isso porque antes, no vinil, a separação é mascarada pela limitação da agulha, que não consegue isolar completamente os canais. Enfim, é discussão para outro post...

Daí recuperei na internet o texto de um aficcionado no assunto gravações beatlezísticas, - um maluco chamado Jeff Westerman - texto esse que o Guto tinha me passado no início de 2009, logo após ter descoberto os multitracks de quatro faixas do Sgt. Peppers que vazaram na internet (interessados me procurem, passo os arquivos). Nesse texto, o cara comenta o seguinte:
A multitrack master which has four full tracks on it can be mixed in as many ways as there are ways of hearing the discrete elements of sound in juxtaposition. It's all about preference, and, back in the day, it was all done "by hand," meaning that every element of that mix had to fall properly into place throughout, as it was being made, or else the whole process had to be repeated because of a mixing error made at any point in the song.


Daí eu pensei: então é isso! O remaster foi feito através das "multitrack master", onde se puderam ajustar os volumes de cada um dos canais, melhorar os graves, ressaltar uma coisa ou outra, etc. Porque um remaster de uma master "chapada", seria praticamente o mesmo que alguém pegar um CD original de 1987 e tratá-lo em casa com as diversas ferramentas disponíveis pra tal... certo?

O texto inteiro está disponível aqui, que é interessantíssimo pra quem curte o assunto. Em outro post nessa mesma página, o cara divaga sobre a técnica do "Bouncing Down", onde os Beatles jogavam múltiplos canais dentro de um só em uma nova fita - liberando outros três para seguir acumulando idéias enquanto elas não findavam.
E vocês, meus amigos? Como vocês acham que o Beatles Remastered foi feito?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Influências Nostalgísticas em avaliações musicais: bloqueadores apreciáticos ou “As antigas que eram melhores”, mesmo?

Neste duo, Gustavo e Ulisses divagam sobre o quanto a nossa formação influencia nos gostos atuais. Gustavo fala de uma forma genérica enquanto Ulisses cita um estudo de caso.

Gustavo: Nos últimos anos tive a sensação de que estava muito fechado às bandas e músicas que sempre escutei. Me sentia preso àqueles mesmos artistas de sempre. Então comecei uma procura por sons novos, mas tive muita dificuldade de encontrar bandas e obras mais recentes que tivessem a minha aprovação.


Daí comecei a me perguntar: o quanto os meus critérios de gostos eram baseados naquilo que eu ouço desde criança ou adolescente? Parece que até quando eu tinha uns 20 anos eu ouvi muitos sons e consegui gostar de bastante coisa – sem perder o senso crítico, mas enfim, a cabeça é mais aberta. Depois disso, ficou cada vez mais difícil incluir na “lista de gostos” coisas novas, pois parece que sempre haverá uma comparação com as músicas e estilos que se ouviam em uma determinada época da juventude, com as lembranças (boas ou ruins) associadas, etc.


Ulisses: Um dos casos mais emblemáticos foi citado pelo nosso solista desafinado Jean Schmith, que é o caso dos adoradores de Iron Maiden. Não entendam como uma crítica gratuita: um dos escritores deste post, Ulisses Costa, é fã confesso de Steve Harris e cia., a ponto de fazer o seu trabalho de conclusão na faculdade de Publicidade exatamente analisando o marketing da banda.


É interessante ver como os fãs caem de pau nos álbuns do Iron desde os últimos, bem, vinte e quatro anos: Somewhere in Time, disco de 1986, foi malhado na época pelo uso pontual de instrumentos sintetizados. Desde então, nenhum trabalho da banda em estúdio recebeu ampla aprovação – nada menos que nove discos (ou, em números, quase dois terços de toda a discografia da banda). Lógico, alguns deles adquiriram o status de clássico com o passar do tempo, impondo a sua qualidade no fim das contas. Mas parece que os maidenmaníacos vivem numa gangorra de uma idealização simplesmente inexistente: ou a banda “mudou demais”, ou faz “sempre a mesma coisa”.


Voltando à situação emblemática do Jean: alguns muitos fãs de Maiden gostam de usar esta expressão para analisar os discos mais recentes, “não é Iron”. Bem, se uma banda que conta com o seu fundador, seu vocalista mais consagrado, seus principais compositores, temáticas constantes (sonoras e visuais) e até o mesmo mascote (Edde, sempre indefectível) não é “A Banda”, qual seria então? É delicioso perguntar de volta para estes fãs: “então, o que é Iron?”. Provavelmente (se o sujeito não ficar sem resposta já neste ponto), ele vai dizer que Iron é o Piece of Mind, ou o The Number of the Beast, o que leva à segunda pergunta: “mas então, o que é Iron?”. Provavelmente, ele se quedará com a sentença: “sei lá, mas não é isso” – o que prova o quanto este argumento é passional e pouco aprofundado.


Gustavo: É, eu comecei a me dar conta disso depois de ouvir muitos comentários do teor “Ah, eu gosto dessa banda, mas só das antigas.” Parece muito difícil encontrar uma pessoa com mais de 25 anos que curta coisas novas. E é proporcional à idade: quanto mais velha, mais arraigada está a pessoa com seus antigos gostos.


Ulisses: Esta idealização que certos entusiastas fazem de suas bandas preferidas (não só dos nossos amigos ingleses) é um processo pessoal: o fã já teve todo o tempo do mundo de criar o seu “Iron Maiden pessoal”, aquele que vive no seu imaginário e que, quase certamente, não possuiu tantas relações assim com o que podemos chamar de “Iron Maiden real”. Desta forma, o fã (de Iron e de qualquer outra coisa) pode virar um pequeno ditador, que quer se suas vontades sejam satisfeitas. Numa relação paradoxal, o fã não permite que o artista que o cativou com sua arte possa criar esta mesma arte de maneira livre. Ou seja, o fanático fecha aos olhos (e ouvidos) à função primordial de um artista, que é a liberdade que ele tem de se expressar livremente. Se o Iron Maiden quer se expressar da forma que se expressa hoje, ele tem todo o direito – assim como tem o direito de ser criticado pela qualidade da sua música, mas não pela simples existência desta.

Gustavo: E é por isso que eu não sou xiita em relação a Beatles. Às vezes até me pergunto se eu gostaria tanto dessa banda, se não a conhecesse desde piá. Quando algumas pessoas dizem aberrações como por exemplo: “A questão é que eu não respeito os Beatles”, ou “Eles eram muito comportadinhos” – ou seja, argumentos que não tem nada a ver com a música - eu nem gasto minha saliva: a banda não fez parte da vida deles.


Vocês já tinham pensado nisso? Ou vão me dizer que não há discussão, que as antigas são melhores mesmo?

sábado, 10 de abril de 2010

Os 40 anos do fim dos Beatles

Há 40 anos atrás, Paul McCartney anunciou oficialmente o fim dos Beatles. Nunca mais os quatro tocariam juntos novamente, apesar de uma combinação de três deles juntos ter ocorrido.

Na única gravação que se conhece de Lennon junto com Mccartney depois do término dos Beatles, McCartney toca bateria e Lennon está tão cheirado que nem consegue tocar mas Stevie Wonder, que participa da gravação, e em entrevista posterior disse que não tinha visto nada disso.

Em 1976, num dos primeiros episódios do famoso programa Saturday Night Live, o produtor Lorne Michaels apresentou um cheque de U$ 3.000,00 aos Beatles para que se apresentassem no programa. Paul McCartney depois disse que tinha falado no telefone com John Lennon - ambos estavam assistindo ao programa - e que quase foram, só de sacanagem.

E talvez a ocasião mais oportuna dos Fab Four terem tocado juntos novamente está relatada na biografia do Eric Clapton - que recomendo fortemente a qualquer músico. Nela, Eric Clapton confessa sobre o que ocorreu na festa de casamento com Patty Boyd em 1979, na página 220:

"George, Paul e Ringo também tocaram, faltando apenas John, que depois telefonou para dizer que também teria ido lá se tivesse sabido. Jamais saberei como isso aconteceu; basta dizer que não tive muito a ver com os convites. mas perdeu-se uma grande oportunidade de reagrupar os Beatles para uma última apresentação."

Senti uma dor ao ler este parágrafo...

Numa entrevista do filme póstumo Imagine, John Lennon declara pouco antes de sua morte que tinha vontade de tocar junto com os outros três novamente. Não relatou detalhes, mas deu a entender que não queria voltar com a banda - apenas rolou uma saudade dos velhos tempos, queria se divertir um pouco.

Pois bem, alguns dizem que eles nunca deveriam ter voltado mesmo. A morte de John em 1980 se mostrou o grande catalisador do "Beatles Revival". As vendas de discos dos Fab Four aumentavam progressivamente. Vale lembrar que até aquela época não existiam bandas de "idosos", o tempo passava e as bandas eram simplesmente esquecidas. Ficou cada vez mais publicamente reconhecido o impacto dos Beatles na música, mais especificamente na transformação do rock em arte.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Combo metal/hard/progressivo: DT e Guns - prólogo

Foi um dia atípico o dia de ontem.

Quando soube, há cerca de dois meses, que haveria dois shows internacionais, de bandas que eu gosto muito (não sou fã, mas gosto bastante), NO MESMO DIA, tive momentos de dúvida. Em qual deles ir? Não sei bem o que me fez decidir por um e não pelo outro. Sei que em nenhum momento me arrependi da escolha.

E então, chega o dia 16. E desde já peço desculpas por esta não ser uma resenha comum de show. Mas o dia de ontem não teve nada de comum.

À tarde, fico sabendo da previsão – que mais tarde revelou-se um pouco exagerada – que Axl Rose e sua banda que ainda chama-se Guns’n’Roses entrariam no palco somente por volta das 3 da manhã. O motivo seria o equipamento da banda, ainda trancado no Rio de Janeiro, depois da desastrosa “não-passagem” pela cidade maravilhosa. De imediato, avisei o André e o Daniel, que iam ao show. E mantive a informação na cabeça. O Dream Theater subiria ao palco do Pepsi on Stage às 21h30. Se a previsão de atraso do Guns fosse no mínimo aproximada, daria até pra ir aos dois shows. O problema seria a grana. Um grande problema.

Fomos de turma ao Dream Theater. Da turma de solistas, estavam, além de mim, o Roberto, o Daniel (que desanimou com a notícia do atraso do Guns), o Jean e o Ulisses. O André optou pela aventura de encarar o provável e gigantesco atraso do Axl Rose.

ATENÇÃO: a partir de agora, o relato contém fatos inusitados, verídicos e improváveis, mas verdadeiros. Sério mesmo.

Eu, Jean e Roberto chegamos alguns minutos antes da banda de abertura subir ao palco. Passamos pelos portões do local sem pegar nenhum tipo de fila, experiência inédita e prazerosa pra mim. Lá dentro encontramos o Ulisses e os irmãos Maciel, amigos nossos e fãs de DT. Demoramos mais de meia hora pra achar o Daniel, que estava a uns 10 metros da gente. E o local não estava mais do que “meio lotado”. Começou a indiada, pensei.

Eis que entra a banda de abertura. Ao som da Marcha Imperial, de Star Wars. Conseguiram muitos simpatizantes de cara. Nossa turma inclusa. Os quatro integrantes do Bigelf adentram o ambiente, parecendo 4 clones do vocalista do “Quase Famosos”, com a exceção do próprio vocal e tecladista da banda, que trajava uma capa roxa (“Yes” feelings) e uma cartola (teve muita piada relacionando o cara ao Slash). E o baixista era canhoto e tinha dreadlocks, o que despertou a simpatia do Roberto. Entendam como quiserem.

(Pequeno parênteses: palavras do nosso amigo Coutinho: “essa era a banda que eu queria ter: um guitarrista que usa Gibson SG, um baixista canhoto que nem eu, e que usa um Rickembacker, e um tecladista frontman, que coloca dois teclados NO MEIO DO PALCO!”)

Mas a simpatia foi embora depois da segunda música, quando tudo o que eles tocavam parecia igual, uma mistura de (ótima definição dos Coutinho Brothers) Deep Purple e Silverchair (?!?!??). Uma bosta, na verdade. Pra não dizer que tudo tava ruim, tinha um Yoda em cima do teclado. Bem simpático, apesar de clichê. Mas o som tava horrível e a banda não ajuda.

Pontos altos: ... Oi?

Queríamos mesmo era ver o Dream Theater. E então começa a movimentação de roadies no palco, testando o som, afinando instrumentos. Puxamos o coro “roadie, roadie, roadie!”. Coro este logicamente imitado logo depois. Os shows são divertidos por causa deste tipo de coisa.

CONTINUA.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Guns 'n' Roses ou Dream Theater: em qual show ir?

Pois então, falando em shows, aconteceu que Guns 'n' Roses e Dream Theater tocarão em Porto Alegre, satisfazendo velhos desejos dos seus fãs. Maravilha. Beleza. Mas as duas apresentações são no mesmo dia: 16 de março.

O Guns (ou Axl Rose e banda, caso queiram) vai se apresentar no Gigantinho; o Dream tocará no Pepsi On Stage. Não querendo dar uma de chato, mas nenhum dos dois locais me parece conveniente para as bandas. Show no Gigantinho tem acústica ruim e conforto zero, e o Guns tem cacife o suficiente para um espaço ao ar livre; já uma banda de progressivo poderia se dar melhor num teatro.

De qualquer maneira, uma questão se impõe: em qual deles ir? Qual a preferência dos caros solistas desafinados (e nosso fieis leitores)?

Eu posso dizer que já fui num show do Dream Theater (São Paulo, Monsters of Rock de 98, turnê do Falling into Infinity) e que nunca vi o Guns ao vivo. Entretanto, prestigiarei mais uma vez os meus antigos ídolos do metal progressivo (sim, já fui muito fã, um verdadeiro ytsejammer). Este arremedo do GNR eu não pretendo assistir nem mesmo pelo folclore de dizer "ah, eu vi Guns".

E vocês?

sábado, 30 de janeiro de 2010

Show em São Paulo é outra coisa

Esse post é de certa forma uma continuação do anterior, mas focando em outro assunto: as diferenças de set list dos shows das grandes bandas nas diferentes cidades do Brasil.

Tem bandas que fazem a tour inteira com variações mínimas de set, como foi o caso da tour de reunião do Police, e outras que são famosas por variar bastante o set list, como o Dream Theater. Outra que varia bastante o set é o Pearl Jam. Quando eles vieram pro Brasil em 2006, me chamou a atenção a diferença entre os sets do Rio e de São Paulo. O show na Apoteose, que eu assisti, foi um show pra todo mundo cantar junto do início ao fim. O set foi focado nos álbuns mais conhecidos: tocaram cinco músicas do primeiro álbum (Ten) e cinco do segundo (Vs.). Pra minha tristeza, não sobrou espaço pra nenhuma do meu álbum preferido da banda, o No Code, que é um disco mais "lado B". Pra minha surpresa, lendo o set list de São Paulo, vi que várias do No Code foram executadas. Fiquei a ver navios enquanto os paulistanos curtiram "Present Tense" e "Hail Hail"...

No ano seguinte, teve show do Dream Theater no Rio e São Paulo. Eu andava meio afastado da banda desde o Six Degrees of Inner Turbulence (e o Train of Thought me afastou de vez), mas o Octavarium foi um disco interessante então resolvi ir no show (também para compensar ter visto o show deles pela metade nos EUA). Como vários amigos foram pra assistir o show em São Paulo e lá eles tocariam duas noites consecutivas, decidi pegar a ponte-aérea-de-pobre (ônibus overnight Rio-SP, 7 horinhas de viagem) e ver os dois shows. Em se tratando de Dream Theater, não é loucura -- foi praticamente um show de 6 horas de duração dividido em duas noites. Se bem me lembro acho que só 2 ou 3 músicas repetiram. E a indiada pra SP valeu a pena: tocaram o Octavarium inteiro (metade em cada noite) e no final da segunda noite rolou a "surpresa" que eles sempre prometem pra cidades onde fazem 2 shows consecutivos: pro Brasil, foi a íntegra de um dos meus discos preferidos deles, o Scenes From a Memory.

Hoje, novamente, uma história similar se repete. Quinta-feira, show do Metallica em Porto Alegre. Um set list forrado das "confirmadas", focado nos três discos mais populares da banda -- Black Album, Master of Puppets e Ride The Lightning (que surpreendeu com 4 músicas!) -- além de uma de cada um dos discos, por assim dizer, não-renegados. A do meu álbum preferido, ...And Justice For All, foi a obrigatória "One", como já comentei no outro post. Entre as músicas eu gritava simbolicamente pedindo mais músicas do Justice, mas sem nenhuma esperança. E ainda teve o riffzinho de "The Frayed Ends of Sanity" tocado antes do bis, só pra deixar na vontade.

Dois dias depois, show em São Paulo, o primeiro de duas noites. Tenho um amigo que mora do lado do Morumbi e vai no show de domingo. Hoje, ficou ouvindo o show de casa e twitando o set list. E qual a minha surpresa: tocaram três musicas do ...And Justice For All! Pros paulistas rolou "One", "Harvester of Sorrow" e "Blackened" (se essa última tivesse sido tocada em Porto Alegre, não sei se estaria aqui ainda pra escrever isso pra vocês!). Além disso, o bis teve uma música a mais: tocaram duas do Kill 'Em All, "Motorbreath" e "Seek & Destroy", ao invés de apenas a última.

Pois é, estou começando a detectar um padrão aí... nos shows de São Paulo as bandas parecem sair do feijão-com-arroz. Eu sabia que isso acontece nas turnês americanas e europeias quando as bandas passam por algumas cidades chaves como Nova York ou Londres, onde elas já tocaram muitas vezes e por isso procuram dar algo mais pros fãs que não estão indo pela primeira vez. Mas não tinha me dado conta que São Paulo parece estar adquirindo esse status.

Pra nós de Porto Alegre resta ficarmos felizes que a cidade voltou enfim para o circuito de shows internacionais. Afinal, como me disse a recifense Alexandra, eu estou "reclamando de barriga cheia", já que os fãs da maior parte do país não têm shows das suas bandas preferidas vindo pras suas cidades. Mas de qualquer forma, fica a dica: dependendo do nível de fanatismo por uma banda, gastar com o deslocamento e com os preços salgados dos ingressos paulistanos pode até valer a pena.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Quem envelheceu: eu ou o Bon Jovi?


Este post é um desabafo de um fã (não tenho vergonha de admitir: EU GOSTO DE ESCUTAR BON JOVI).

Estava animado com as entrevistas pré-lançamento do álbum "The Circle". Estava mesmo. Era, pela primeira vez em 10 anos, a promessa da volta ao hard rock que consagrou a banda.

Bullshit. Cascata. Lorota. Mentira grossa. NON TEM NAAADA QUE VER.

Vamos a uma análise individual:

1) "We Weren't Born to Follow" - O disco já começa pra cima (YES, WE CAN style). E eu já começo... pra baixo. Batera genérica, compressão à toda, guitarras genéricas, nenhuma dinâmica e... cadê o David Bryan? Jon Bongiovi canta: "this one goes out to...". Acho que eu já ouvi isso. Ah, tá aí o teclado, no refrão, fazendo um "clima". Vozes de arena gritando "yeah" por toda a música. Já me sinto desolado.

Pérolas: "Let me hear you say YEAH" e um grito de "GUITAR!" muito do chocho antes do solo... genérico. Sambora já foi MUITO melhor.

2) "When We Were Beautiful" - A coisa melhora um pouco. Um porto seguro da banda: as músicas que falam da época que eles eram jovens, ou, neste caso, "beautiful". Geralmente nessas eles acertam a mão. Aqui, eu confesso que não sei se eles acertaram a mão ou se a anterior era tão ruim que eu achei essa boa. Chegou o solo. Mais melódico, menos "já ouvi isso antes". A música é melhor que a outra mesmo. Mas não é nenhuma "Just Older" (caceta, pra vocês verem como a minha exigência até está baixa, tô comparando com uma música do "Crush", lançado em 2000, um disco medíocre).

Pérolas: "Shalala, shalala, HEY", rufadas militares no primeiro refrão, entre outros clichês bagaceiros.

Pérola positiva: "Back, when we were beautiful, before the world got small, before we knew it all".

3) "Work For The Working Man" - Ó! O DAVID BRYAN TÁ VIVO! Ouço piano nessa música! Mas as surpresas positivas são ofuscadas pelo refrão ESTÚPIDO. De novo, os coros de vozes são ridículos, gritando "WORK!", e "HEY!" como um bando de robôs. Nenhum solo ou trabalho de guitarra inspirado do Sambora ainda. O que, pra mim é uma profunda decepção, já que eu espero algo mais decente dele desde 1995.

Pérolas: ah, desisti de destacar um ou dois pontos a cada música.

4) "Superman Tonight" - Quase pulei a faixa só pelo título. Devia ter pulado. NÃO, PERAÊ! O Jon Bongiovi tá subindo pros agudos no refrão! Não acredito! Desde o "These Days" ele não fazia iss... ah, parou no meio do caminho. Merda. Devia ter pulado mesmo.

Preciso descansar os ouvidos.

... 24 horas depois...

5) "Bullet" - Cheguei ao absurdo de ficar com saudades de ouvir "Have A Nice Day". Desliguei o mp3 player e liguei a Last FM. "Have a nice day", a música é um belo dum rock. Excluindo esse último disco, daria pra fazer um belo e digno álbum do Bon Jovi com as melhores músicas desde o "Crush" (alguém me disse isso uma vez, e é realmente verdade mesmo).

6) "Thorn In My Side" - Não dá mais pra comentar. Desculpa aí. O disco é muito chato.

Desisto. Juro pra vocês que não ouvi até o final. E se as músicas finais forem boas, bom, perdão, mas se uma banda é tão BURRA a ponto de colocar no "lado B" as ÚNICAS músicas do disco que valem uma audição, não merece a atenção de ninguém mesmo (o Hisham se deu conta dessa, e tem o meu aval). E então, quem envelheceu: eu ou o Bon Jovi?

Preferia ter ido ver o filme do Pelé.

sábado, 5 de setembro de 2009

Eu também compro CDs: Lifes Rich Pageant do R.E.M.

Não sei se devo ficar triste ou feliz, mas um dos meus álbuns favoritos do R.E.M está entre os 25 discos mais importantes de bandas de indie rock segundo a Entertainment Weekly. Depois de fazer um álbum com baterias chapadas pelos anos 80 (o agradável Fables of the Reconstruction), a banda lançou em 1986 o álbum Lifes Rich Pageant: uma lista de faixas coesas, com mais guitarras, peso e energia. O nome veio de uma frase do Peter Sellers no seu filme de 1964, Um Tiro no Escuro.


Capa: O baterista Bill Berry na parte de cima, e bisões na parte de baixo.


Faixas:

Lado A – "Jantar"
1. "Begin the Begin" – 3:28
2. "These Days" – 3:24
3. "Fall on Me" – 2:50
4. "Cuyahoga" – 4:19
5. "Hyena" – 2:50
6. "Underneath the Bunker" – 1:25


Lado B – "Ceia"
1. "The Flowers of Guatemala" – 3:55
2. "I Believe" – 3:49
3. "What If We Give It Away?" – 3:33
4. "Just a Touch" – 3:00
5. "Swan Swan H" – 2:42
6. "Superman" – 2:52


Vídeos



Para saber mais:

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O valor dos clichês

Esses dias estávamos conversando por email e veio o assunto daqueles rankings bobos de "melhor guitarrista de todos os tempos" e "melhor filme de todos os tempos". Sobre os guitarristas, eu falei meio brincando que fazendo uma lista com Jimi Hendrix em primeiro e Eddie Van Halen em segundo, eles poderiam distribuir as demais posições à vontade. Pouco tempo depois, como eles sempre aparecem, pintou mais um desses rankings de guitarristas. O Chico comentou que Hendrix em primeiro já virou "modinha". O Ulisses fez um comentário interessante:
Jimi Hendrix melhor guitarrista é que nem Cidadão Kane como melhor filme: todo mundo aceita, mas ninguém lembra mais porquê.
Eu concordo com a observação, mas ao mesmo tempo se eu tivesse que fazer uma lista eu realmente colocaria o Hendrix em primeiro, mesmo não sendo nem de longe o meu guitarrista preferido. Motivo: os anos passam e eu não paro de me surpreender da influência que ele teve. De tempos em tempos eu me dou conta de que alguma coisa muito fundamental relativa ao mundo da guitarra se deve a ele (por exemplo: a música Sgt. Pepper's, dos Beatles).

Pra justificar o Hendrix em primeiro, é só ouvir o som da guitarra antes e depois do cara e tentar procurar alguém que promoveu tamanha mudança.

Cidadão Kane é um dos meus filmes preferidos (e preferiria revê-lo a ouvir um disco do Hendrix) e eu sei que nem de longe eu consigo dimensionar o impacto que ele teve na história do cinema, mas só pelo fato de que ele é um dos poucos filmes antigos que quando vi fiquei com a impressão "é um excelente filme" em vez de "é um excelente filme de mil-novecentos-e-guaraná-com-rolha", eu tendo a aceitar vê-lo em primeiro nas listas.

Sim, Hendrix em Kane em primeiro nas listas são dois clichês, mas os clichês não se formam do nada.

Falando em clichês, ontem o Chico me perguntou se eu tinha ouvido as músicas novas do Kiss e do Bon Jovi -- dois veteranos do rock que estão pra lançar discos novos. Não tinha escutado, mas depois parei pra ouvir.

A música nova do Kiss, Modern Day Delilah é um anacronismo intencional total: eles disseram que queriam fazer um disco que soasse como um dos seus álbuns clássicos dos anos 70. Sonoridade, letra e melodia totalmente retrôs, calcadas em cima dos clichês que o Kiss ajudou a construir. Curiosamente o bridge e o refrão (que eu achei a parte mais fraca da música) me soaram mais Kiss 80s do que Kiss 70s. Estou ouvindo agora uma segunda vez e tenho que citar o meu desgosto com o solo: o cara imita os trejeitos do Ace até no estilo da palhetada, pra fazer a música "soar Kiss". Só teve uma coisa que me deixou pensando quando ouvi a música a primeira vez ontem: tudo é clichê e genérico e não posso dizer que "gostei" da música, mas o riff é muito bom. Ouvindo agora a segunda vez, fico me perguntando se não é talvez a única coisa não-datada na música. Ele soa clichê também? Eu não sei, é uma pergunta pros amigos. Será que não soa clichê pra mim só porque eu gostei? Pra mim ele soa como se pudesse estar num disco do Led Zeppelin nos 70s, ou do Tesla nos 80s, ou do Soundgarden nos 90s, ou do Audioslave nos 00s. Por outro lado, talvez o "soar moderno" dele seja porque ele soa parecido com o tema principal de um single do Black Eyed Peas lançado no início desse ano! (Taí uma possibilidade de mashup engraçada!)

Já a música nova do Bon Jovi, We Weren't Born to Follow parece outro tipo de clichê. A música também é toda feita de elementos que a banda já explorou em anos e discos anteriores: a paradinha antes do refrão, a letra esperançosa, a dinâmica, o "jingle-jangle" do andamento mid-tempo... Por um lado ela me soa um pouco mais original que a do Kiss, porque os elementos são característicos da fase recente da banda e não um movimento retrô explícito -- ela é projetada pra tocar na rádio atual junto outras músicas e não soar "velha", enquanto a do Kiss é projetada pra tocar no shuffle dos fãs de Kiss junto com os outros clássicos. Mas não tem nada na música do Bon Jovi que me impressione; me soou como uma música "média" em todos os aspectos, e isso talvez seja pior do que soar datado.

E aí? O artista está na prerrogativa de viver à base dos clichês que ele mesmo criou? A tarefa de quem trabalha com processos criativos não seria, bem, continuar criando? Por outro lado, o clichê perde a validade com o passar do tempo? Aliás, ele não se constitui justamente com o passar do tempo? Ou é esse o tempo de vida de uma ideia, que nasce genial, vira clichê e, como disse o Kundera, depois vira kitsch e finalmente é esquecida?