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sexta-feira, 14 de maio de 2010

A notícia que não noticia

Vocês também se incomodam quando leem uma longa matéria que simplesmente não explica o assunto central falado no título dela? O exemplo mais recente em que me deparei foi esse:

Lula diz ter 99% de chances de convencer Irã sobre programa nuclear, Estado de São Paulo, 14 de maio de 2010

Lendo a manchete, a primeira coisa que me perguntei foi "convencer o Irã de que?". Lendo a matéria, já é dito no primeiro parágrafo que ele irá tentar "convencer os líderes do Irã a aceitar os acordos propostos pela comuniade internacional sobre o programa nuclear do país persa". A pergunta óbvia que se segue é: "de que consistem esses acordos?". Mas aí não há resposta. Nos 10 parágrafos do texto, produzido "com informações das agências Efe e Reuters", temos basicamente o seguinte:
  1. Lula disse na Rússia que acha que tem 99% de chances de convencer o Irã sobre os acordos propostos sobre seu programa nuclear
  2. Presidente russo Medvedev repete o discurso americano e diz que Lula é a última chance do Irã
  3. Medvedev deseja sorte a Lula
  4. Medvedev chuta que tem "30%" de chances, Lula diz que tem "99%".
  5. Lula diz que vai tentar. Brasil rejeita sanções contra o Irã e quer ser mediador.
  6. Medvedev falou com Obama e disse pra deixar pro Lula.
  7. Medvedev disse que se não rolar, o Conselho de Segurança sabe o que vai acontecer.
  8. Lula está em Moscou e depois vai pro Irã
  9. Rússia diz que só aprova as sanções se não prejudicarem os seus próprios negócios com o Irã. China se opõe às sanções.
  10. Países a favor das sanções dizem que o Irã quer fazer uma bomba atômica e o Irã nega.
Notem quanto espaço é gasto nas "estimativas" (que só servem pra fazer manchete) e em papo diplomático. Explicar quais são os acordos propostos, nada. Ao longo do texto, há 4 links pra outras notícias e 2 links para infográficos, nenhum dos quais explica o que Lula estará tentando convencer o Irã a aceitar. Abaixo da notícia, uma seção de comentários para a tão falada "interação dos internautas", cheia de opiniões fervorosas. Mas aí eu me pergunto: como é que alguém pode ter uma opinião sobre a notícia se ela não explica aquilo que ela se propõe a noticiar?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Jack Bauer Brasileiro

Já imaginou um filme de ação a la Jack Ryan sendo feito no Brasil? Pode imaginar, porque ele já tem data de lançamento: em maio deste ano, chegará nos cinemas Segurança Nacional, (direção de Roberto Carminati e estrelado por Thiago Lacerda). Há uns três anos pipocam informações sobre este filme na internet, mas aparentemente só agora os realizadores conseguiram finalizar a obra (bem em época de compra de caças).

Segurança Nacional parece ser bem ufanista: o roteiro privilegia as ações das Forças Armadas e da Agência Nacional de Informação (Abin) numa trama que parece extraída de filme de verão americano. Os narcoterroristas estrangeiros pretendem destruir o Sivam para seus carregamentos de armas e drogas entrarem livremente no Brasil. Detalhe: para desativar o sistema, eles querem usar nada menos que uma bomba atômica. Confira o trailer.

Momentos marcantes:

0:08: fala didática para o espectador entender tudo direitinho.
0:29: Milton Gonçalves como o presidente do Brasil desferindo uma frase supostamente de impacto, mas que não faz sentido léxico.
0:47: a perseguição nas estradas serranas do Rio (diacho, sempre quis fazer uma cena assim!).
0:56: por que as chamas estão ao contrário?
1:14: palavras do Hisham: "pra dizer que vai ter uma subplot romântica do tipo
'marmanjos, podem levar as namoradas'".
1:28: Thiago Lacerda ordenando que um bandido fiquei parado, mesmo já subjugado e imobilizado.
1:31: ah, bem... É uma, errr... Pois é. Sem palavras
1:51: "... E grande elenco" - não é filme nacional se não tiver isso no trailer.

A crítica e os cinéfilos de plantão já estão esboçando os dentes para o filme. No entanto, ele pode achar o seu nicho de mercado, se o grande público estiver inclinado a ver uma história de fundo nacionalista. Muita gente reclama que o cinema nacional "mostra sempre o lado ruim do país, e nunca o que ele tem bom". Será que é por este tipo de filme que eles estão esperando?

Eu, particularmente, acho que pode ser uma ótima guity fun - como são os filmes do James Bond, de tão absurdos divertem. Ainda mais que o filme parece ter o que nos EUA se chama production value: o bom trabalho de produção acarreta num filme bom (pra resumir).

O mais divertido é que este filme não está sozinho.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Já estamos em 2010...

Dizem que em ano eleitoral a gente sente que o ano passa mais rápido. Mas bem sinceramente. Todos os anos estão passando cada vez mais rápido. É o que muita gente tem sentido.

Será que agora além de anos de eleição, anos de tentativas de impeachment de governadores e escândalos de políticos no senado também vão fazer sentirmos que o ano está passando mais rápido?

Se for assim, infelizmente envelheceremos logo. Como se já não fosse suficiente o estresse da correria diária, da insegurança de sair de casa, ou até mesmo dentro de casa. Ainda mais essa.

O que antes era um ano sim outro não, está sendo um ano sim, o outro também. Chega um ponto que cansa. E não dá nem tempo para descansar. Alias, dá sim. No carnaval. E viva as mulatas seminuas e as festas. Afinal de contas, brasileiro adora festa. E as mulatas seminuas são como um bola de futebol para um menino. Falando em bola de futebol, em 2014 tem Copa do Mundo no Brasil. Sabemos que a arbitragem brasileira não está lá essas coisas. Seria influência da política? Só esperemos que para essa Copa não haja muita roubalheira. O que infelizmente certamente vai acontecer.

Claro, errar é humano. E juízes de futebol erram, jogadores erram, treinadores erram, políticos erram, aliás, e como erram! Mas tudo bem. Não adianta a gente gritar "vamo invadir!", ou "juiz ladrão, porrada é a solução", porque quem invade são eles, os políticos. Invadem nossos porquinhos com seus leiões e quem leva porrada é o povo.

Mas nem tudo está perdido, no Natal podemos ganhar panetones. Para quem não conseguir ser previlegiado dos panetones da capital, todo interior tem uma pizzaria. Não me recordo nenhum sabor que inclua pepino, e não seria por falta. Mas enfim. Tudo sempre acaba em pizza.
É... Viver é difícil. Mas que fiquemos tranquilos por um lado. Do jeito que vai, essa dificuldade vai passar rapidinho. Mas infelizmente nossa vida também.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Por que não verei o filme do Lula


Para retomar as postagens do blog com força total (e a pedido do Jean):

Lula, o Filho do Brasil, o longa brasileiro mais comentado do ano passado, chegou às telas dia 1º de janeiro, com pretensões de bater todos os recordes de bilheteria no país. Há uma intensa campanha do seu produtor, a raposa velha Luiz Carlos Barreto, para exibir a obra a preços populares (leiam este link, é exemplo de clientelismo puro) e em cidades que não possuem cinemas.

A discussão a respeito do uso político que seria feito de Lula, o Filho do Brasil é muito forte, especialmente sendo 2010 ano eleitoral. Produtor e atores usam extensamente o batido argumento de que "o filme não é político", o que obviamente é uma balela. Não se faz uma obra sobre uma liderança política sem tomar partido, e fosse o filme uma crítica a Lula (o que não é) ou uma elegia (o que é), de qualquer maneira estaria se posicionando contra ou favor de algo.

Então sim, Lula, o Filho do Brasil é político (até porque, como diriam os especialistas, "toda ação humana é política"), e isso se nota tanto na data do seu lançamento quanto na já referida campanha de divulgação para as massas. Há que se ressaltar, claro, que o orçamento de 17 milhões de reais (o maior registrado na nossa cinematografia) foi todo conseguido com patrocínio direto, sem o uso de leis de incentivo à cultura – portanto, sem dinheiro público. Foi uma tentativa de Barreto para diminuir a celeuma negativa em torno da obra.

Mas não é por nenhum destes motivos que eu não pagarei ingresso para ver o filme.

O motivo pelo qual não assistirei à Lula, o Filho do Brasil cabe em duas palavras: Fábio Barreto.

O diretor do filme, filho de Luiz Carlos e que sofreu um grave acidente na semana passada, é um dos piores cineastas nacionais. Ele é nascido numa família que sempre trabalhou com cinema: a mãe, Lucy, também é produtora e o irmão, Bruno Barreto, dirigiu sucessos como Dona Flor e seus Dois Maridos e O Que é isso, Companheiro?. Mas pode ser considerado o seu membro menos talentoso. Enquanto o irmão Bruno tem uma filmografia interessante e até realizações em Hollywood (ainda que fracas), Fábio tem em suas costas uma penca de filmes que transitam entre o ruim e o pavoroso.

É de sua responsabilidade o terrível A Paixão de Jacobina, uma verdadeira aula de como fazer mau cinema, além de outras drogas, como Bela Donna e Índia, a Filha do Sol. Seu único bom filme é o interessante O Quatrilho, e só.

Se Lula, o Filho do Brasil fosse dirigido por um cineasta mais talentoso ou mesmo por um estreante, confesso que as suas intenções políticas seriam o de menos na minha avaliação. Mas pagar para assistir a um filme conduzido por um diretor ruim (ainda mais quando a duração ultrapassa duas horas) não costuma fazer parte dos meus planos de férias.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Os caças para o Brasil: disputa política, econômica e militar


Sabe-se que há tempos as Forças Armadas nacionais andam sucateadas, especialmente a FAB (Força Aérea Brasileira). Os aviões de combate trazidos para cá nos 1960 e 1970 estão plenamente superados. Os velhos Mirage, projetados na década de 50 na França, foram substituídos às pressas uns anos atrás por novos Mirage 2000. Mas ainda assim o nosso poder aéreo continuava desatualizado.

Por isso, foi lançado um novo projeto de compra de caças, o FX-2, onde três empresas disputam a venda para o Brasil de 36 caças de nova geração: a norte-americana Boeing, a francesa Dassault e a sueca Saab. A concorrência parecia ter sido vencida no feriado de Sete de Setembro, quando Lula meteu os pés pelas mãos e, na presença do presidente francês Nicolas Sarkozy, afirmou que o governo compraria o caça apresentado pela Dassault, o Rafale.

Imediatamente, o presidente foi desmentido pelo Ministério da Justiça e pelas Forças Armadas -- ainda que o mandatário acredite que é ele quem decide que aviões a FAB deve usar. Mais imediatamente ainda foi a resposta dos outros envolvidos na concorrência: a Boeing resolveu defender o seu F/A-18 E/F Hornet e a Saab começou a fazer propostas irrecusáveis pelo seu Gripen.

A preferência do governo é pelo Rafale, por conta das relações diplomáticas que Lula quer estreitar com Sarkozy -- e, por conseguinte, com a União Europeia. No entanto, fora as motivações políticas, há o aspecto econômico: Dassault e Boeing estão desesperadamente afundadas na crise global. A fábrica francesa não conseguiu vender o Rafale para nenhum país até agora e corre o risco de fechar, e a diminuição do dinheiro para compra de equipamentos militares nos EUA afetou fortemente a Boeing. Saudável apenas é a Saab, que já vendeu o seu belo Gripen para várias forças aéreas mundo afora, mas quer entrar no mercado sulamericano.

Qual seria a melhor opção para o Brasil? De acordo com o meu amigo piloto privado Fabiano Schüler, com qualquer opção o país ficaria bem armado. Vejamos:
Dassault Rafale: a nova geração de caças da Dassault não repetiu o colossal sucesso de vendas da família Mirage (usado por quase todas as forças aéreas do mundo de 1960 até hoje). Aprovado em combate recentemente no Oriente Médio, o Rafale tem grande capacidade de armamento e um raio de ação muito bom para o nosso território nacional. A França prometeu transferência de tecnologia para o Brasil. O problema é que ele é muito caro.
Boeing F/A-18E/F Super Hornet: apesar de ser baseado num projeto dos anos 1970, a versão modernizada do velho Hornet é um supercaça: desempenha múltiplas funções e tem características stealth (ou seja, baixa assinatura de radar, um "avião invisível"). O histórico de combate é invejável (foi usado em todas as guerras estado-unidenses nos últimos vinte anos). O problema é que os EUA são relutantes na transferência de tecnologia.
Saab JAS 39 Gripen: os suecos optaram por uma posição neutra durante a Guerra Fria, o que os obrigou a investir numa indústria aérea própria, para não depender de caças ocidentais ou soviéticos. O resultado está no Gripen, a quinta geração de aviões de combate da Saab, quase todos belíssimos. Em termos de armamento e de de raio de combate, o Gripen é o menos adequado para as dimensões brasileiras, mas o grande trunfo é que ele seria montado aqui no país, em parceria com a Embraer.

Os mais pacifistas perguntariam o motivo destes gastos astronômicos por três dúzias de aviões (cada um deles custa uma média de 100 milhões de dólares). Bem, o motivo não declarado vive ao norte: a Venezuela de Hugo Chávez conta hoje com a mais moderna força aérea do bloco. A Aviación Militar Venezolana possui 12 caças norte-americanos F-16 e 24 unidades do todopoderoso avião russo Sukhoi Su-30, cuja tecnologia vetorial lhe dá a capacidade de fazer proezas aéreas inacreditáveis.

Com estas aquisições e o que já existe nos seus hangares, Chávez tem à sua disposição 47 caças de grande poder de combate. Sem o programa FX-2, o Brasil teria 69 aviões de defesa aérea, quase todos sucateados (os 57 F-5 Tiger da FAB estão na capa da gaita). Com o programa, a FAB aumentaria sensivelmente o seu poder de fogo e, neste âmbito, teria a maior aeronáutica da América do Sul, com 105 aviões de superioridade aérea. O caça é a primeira linha de defesa de uma nação e, portanto, uma espécie de outdoor da sua capacidade militar (não por nada que se gasta horrores nos designs dos aviões).

Corrida armamentista? Claro que não, imagina...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O Factóide das Bananas: notícia essencial ou falta de pauta?


Alguém aí está sabendo da nova preocupação nacional, de caráter absolutamente urgente? Não??? Seus desinformados!!! Não acredito que não saibam deste evento quase cósmico: agora, banana tem que ser vendida a quilo em São Paulo.

Notícia de tamanho peso (sem trocadilhos, eu juro) tem mesmo que ser comentada: ontem, quarta-feira, entrou em vigor uma lei que "determina regras de comercialização" para a banana no estado de São Paulo. A partir de agora, os feirantes não poderão vender a fruta por dúzia, como faziam antes. Precisam cobrá-la por quilo, sob risco de pesadas multas.

Desde ontem, uma série de reportagens da Rede Globo têm enfatizado o quanto que feirantes e consumidores perdem com a vigência desta lei (quem ganha são os temíveis latifundiários bananeiros). Nos telejornais da emissora e até mesmo no Mais Você vemos um revezamento de repórteres dando conta da notícia, fazendo comparações de quanto vai passar a custar o cacho e a penca. Parece que a emissora está entrando numa guerra justa pelo sacrossanto direito de se obter bananas mais baratas.

Isto, amigos, é uma das formas de expressão daquilo que chamamos de factóide: neste caso aqui, um fato trivial que se transforma em grande notícia ou comoção popular -- cujo melhor caso recente foi o chá de sumiço de Belchior, transmutado em drama nacional.

Bem, por que interessa ao país a nova legislação para bananas de um único estado para justificar este alarde? Nem comentemos o ridículo que é o ato em si de legislar sobre bananas (pior que isso, só deputado querendo legislar o churrasco), mas fiquemos no motivo da notícia: por que diabos isso seria importante? Falta notícia? Será mesmo algo essencial? Os adeptos das conspirações globais dirão que é mais um elemento no grande plano de alienação nacional (hum, não teriam razão?). E os solistas desafinados, o que pensam desta bananada toda?

Posfácio: e claro que, como toda boa lei brasileira, ela provavelmente virará letra morta em pouco tempo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Outros Onzes de Setembro

É difícil desvincularmos a data de hoje do episódio das Torres Gêmeas, em 2001. O "onze" conjugado com o "setembro" passou a ter um significado único. Parece, de certa forma, que este dia só começou a existir no calendário da cultura ocidental naquele ano.

Claro que é só entrar na Wikipedia, na seção "Neste dia..." para ver que 11 de setembro também é o Dia Nacional da Catalunha, que foi quando nasceram Brian De Palma (cineasta americano), Theodor Adorno (filósofo alemão) e Franz Beckenbauer (que, de acordo com o pessoal do Monty Python, também é um filósofo alemão).

Mas o dia de hoje tem significados históricos mais próximos de nós. Foi no 11/09 de 1973 que o Chile sofreu o golpe militar mais pavoroso da história da América Latina, com direito a bombardeio do palácio do governo, o La Moneda, pela Aeronáutica chilena, e à morte do presidente deposto, Salvador Allende (até hoje se debate a versão oficial, de que ele teria se suicidado com um tiro de metralhadora -- tudo indica que ele de fato se matou).

Para a América Latina, foi um baque inesperado e assustador: o Chile foi o primeiro país da região (e, até onde eu saiba, do mundo) a eleger um governante socialista, identificado com o comunismo, de maneira democrática, o próprio Allende. Também foi a última nação a cair no manto da obscuridade das ditaduras do Cone Sul, e a que produziu o regime ditatorial mais violento e espúrio. O próprio golpe, arquitetado pelo antes fiel protetor do presidente, general Augusto Pinochet, foi reflexo do que viria pelas décadas seguintes. A destruição do La Moneda pelos aviões de combate e as histórias tenebrosas do Estádio de Chile (transformado em campo de concentração pelos militares e que hoje tem por nome Víctor Jara, músico torturado e morto na ocasião) vivem no imaginário das esquerdas da América do Sul e de toda a população chilena até hoje.

Já outro 11/09, vejam vocês, é tipicamente gaúcho: é o dia em que o coronel rebelde, encrenqueiro-mor e sem-noção exemplar Antônio de Souza Neto proclamou a República Rio-Grandense, durante a Revolução Farroupilha, em 1836. A data consagrada ficou o 20 de setembro de 1835, quando começa a revolta numa escaramuça na Ponte da Azenha (como não poderia deixar de ser, logicamente; certas badernas acontecem até hoje por aquelas bandas...). Mas, quase um ano depois, os farrapos ainda eram tratados como simples rebeldes pelo Império do Brasil. Muito se debateu sobre as reais intenções republicanas dos integrantes do movimento (Bento Gonçalves, o líder, era abertamente monarquista) e hoje se acredita que a proclamação de independência de Neto teria muito mais valor estratégico do que ideológico -- obrigaria os regentes imperiais a dar mais importância às reivindicações farroupilhas, dando um novo nível ao conflito: de sedição pura e simples a guerra entre nações.

Seria justo dizer que, se EUA e Chile tiveram seus "onzes de setembro", que o Brasil também teve o seu -- e que os encrenqueiros da vez fomos nós? Brincadeirinha puramente retórica.

Aliás, mais sobre a Guerra dos Farrapos no Sol Desafinado nas proximidades dia 20 de setembro.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Gilberto Gil e Lei Rouanet: igualdade ou privilégio?

O site da Folha de São Paulo noticiou hoje que o ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, teve aprovado pela Lei Rouanet um projeto de um DVD baseado no seu atual show. A Lei Rouanet é aquela que dá a possibilidade a projetos culturais de recolherem, junto a empresas, dinheiro que elas usariam inicialmente para pagar o Imposto de Renda (a tal da renúncia fiscal). Surgida no início dos anos 1990, ela tem por objetivo fomentar a produção cultural no país, com projetos que contemplassem artistas consagrados e desconhecidos, direcionados a todos os públicos.

Prestes a sofrer alterações importantes, a Lei Rouanet é alvo, há tempos, de debates e polêmicas -- especialmente porque aprova captação de recursos para projetos e artistas não só consagrados, como comercialmente viáveis. O Cirque du Soleil, por exemplo, ganhou uma liberação espetacular de 9,4 milhões de reais em 2006. Seria ótimo se o incentivo fiscal deixasse os ingressos da apresentação mais acessíveis à população, o que não aconteceu. As entradas variavam de R$ 50,00 a R$ 370,00. Até mesmo Vanessa da Matta (R$ 900.000) e Caetano Veloso (R$ 1,7 mi) tiveram projetos aprovados. Pelo menos no caso de Caetano, o Ministério da Cultura exigiu que os ingressos girassem entre R$ 20,00 e R$ 40,00 -- e não R$ 200,00, como planejado incialmente pelos produtores.

Agora, Gilberto Gil é o beneficiado: seus produtores foram autorizados pelo MinC a captar o valor exato de R$ 445.362,50. Todo este dinheiro para produzir DVDs que custarão cerca de R$ 50,00, gravados em shows cujos ingresos podem custar R$ 60,00. Ou seja, os ganhos da produção ainda serão consideráveis, fora o dinheiro proveniente de renúncia fiscal.

Fora o fato de ser um absurdo em si (um artista consagrado pegando dinheiro que seria público para a confecção de um produto sobre o qual ele vai ganhar ainda mais dinheiro), Gil tem a resposabilidade moral e ética de não pedir dinheiro para o governo atual, do qual já foi parte integrante do Executivo. Para a lei não é, mas para mim é tráfico de influência. A justificativa? Um distorcido, porém irretocável, argumento de que a "lei é para todos". Busca-se explicar este ato (senão reprovável, pelo menos questionável) na base da igualdade. Já dizia o Humbertão: "uns mais iguais que os outros" -- ou ainda, como diria Jackson Ritter, "Explica mas não justifica".

Já tevem um tempo que o "P" de MPB quis dizer "popular". O que significaria agora?

Entendendo a Lei Rouanet - um resumo:

O funcionamento da Lei Rouanet é relativamente simples na teoria. Seria mais ou menos assim:

• O artista ou produtor cultural envia o seu projeto para o Ministério da Cultura, para que ele seja avaliado por uma comissão técnica. O projeto pode ser de qualquer atividade cultural: filme, teatro, música, artes plásticas, folclore, etc.

• O MinC aprova ou não os projetos. Em caso de aprovação, ele pode liberar todo o montante pedido pelo artista ou produtor cultural, ou apenas uma parte.

• Com a aprovação do MinC, o artista ou produtor cultural pode recolher o valor junto a empresas ou particulares. Elas podem dedicar uma porcentagem (4% para as pessoas jurídicas e 6% para as físicas) do seu Imposto de Renda devido, que elas invariavelmente dariam ao Estado, para estas produções, ganhando várias contrapartidas (publicidade gratuita e ganhos de bilheteria e comercialização).

• O artista ou produtor cultural realiza o seu projeto e precisa fazer uma criteriosa prestação de contas para o MinC.

• Ou seja: de forma indireta, o artista ou produtor cultural está se usando de dinheiro público (que seria usado para os gastos da União) para realizar a sua obra ou evento artístico. Este uso é o maior causador de discussões em torno da Lei Rouanet.

Vale-cultura:

Não sei o quanto os meus colegas Solistas Desafinados estão inteirados a este respeito: o Governo Federal lançou recentemente o programa Vale-Cultura, uma espécie de Bolsa-Família para bens culturais. De acordo com este projeto, os trabalhadores de baixa renda receberiam um cartão magnético, com o qual pode comprar livros e CDs, ir a shows, peças e cinemas. O valor inicial mensal é de R$ 50,00, mas há planos de aumentá-lo para R$ 150,00 com o passar do tempo. Pensa-se agora que professores devem também receber o Vale. De novo, a justificativa: apenas 13% da população tem acesso a manifestações culturais.

O Vale-Cultura custará aos cofres públicos o estimado de sete bilhões de reais. Ou seja, mais oneração aos cofres públicos e risco de aumento de impostos. No entanto, para nós da classe artísitica (e todos que escrevem neste blog o são, com maior ou menos intensidade), a notícia é simplesmente maravilhosa (e eu, como professor, seria duplamente favorecido).

Então, a questão para nós é: defendemos nossos próprios interesses e saudamos o Vale-Cultura ou nos preocupamos com o quadro geral, com o saneamento das contas do Estado, criticando o programa que vai gastar ainda mais dinheiro público? Deixo vocês responderem antes de dar minha posição.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

"Vossa Excelência é um canalha!": luta de titãs no Senado

Fazia um tempinho que o Senado Federal não nos brindava com algum bom bate-boca para animar o baile político de Brasília. De uns anos para cá, a chamada Câmara Alta do Congresso passou a rivalizar em chinelagem com a Câmara dos Deputados, costumeiro antro de negociatas e lar de políticos estúpidos (que rivalizam em idiotice, claro, com o povo que os elegeu). Nos últimos anos, tem sido frequente a encenação de farsas satíricas na tribuna (ou palco) senatorial, protagonizadas especialmente pelos seus presidentes -- como no caso de Jader Barbalho em 2002 (numa denúncia levantada, acreditem se quiser, pelo já-foi-tarde Antônio Carlos Magalhães).

Pois ontem tivemos um duelo de titãs no Senado, daqueles que mereciam uma crónica épica para si só. O fandango envolveu o sempre faca-na-bota Pedro Simon, eterno senador pelo Rio Grande do Sul (em seu quarto mandato), que pedia mais uma vez que o nosso já debatido José Sarney deixasse a presidência daquela Casa. Aliás, quem conhece a trajetória parlamentar de Simon sabe que ele defende com força a saída de senadores, ministros e que tais, quando estes paracem envoltos em confusões. Ontem, porém, ao discursar para um Senado vazio (bem ao modo das segundas-feiras no Planalto Central), Simon incorreu na fúria de dois monstros sagrados (mais monstros do que sagrados, vejam bem) da política alagoense.

O primeiro a tomar as dores do Lorde do Maranhão e do Amapá foi Renan Calheiros -- do mesmo partido de Simon, o PMDB, e ele mesmo um presidente do Senado destituído por conta de um escândalo, em 2007 (pelo menos, tem muito bom gosto para escolher suas amantes...). Renan começou a atacar Simon, ao proferir que era "esporte preferido" do senador gaúcho denegrir o ex-predidente durante os "últimos 35 anos", lembrando que Simon não queria Sarney na chapa de Tancredo Neves (no que, temos que convir, Simon tinha toda a razão). O caxiense não leva desaforo para cara e, para ficar no campo light do que poderia dizer, acusou Renan de ter feito alianças com Fernando Collor -- que, vejam vocês, foi eleito senador pelo estado de Alagoas (campanha pela emancipação deste estado do resto do Brasil, pelo amor de Deus!) e que, mais incrível ainda, estava dentro do Senado naquela hora.

Collor mandou Simon engolir suas palavras, digeri-las e fazer o que quisesse com elas -- ou seja, cagá-las. Collor, aliás, usou a sua conhecida expressão facial enlouquecida ao xingar Simon, olhos vidrados e dedo em riste. Há que se ter respeito pelo homem: seu pai, o saudoso senador Arnon Afonso de Mello, tentou matar a tiros (dentro do Senado!) seu inimigo político Silvestre Péricles de Góis Monteiro, em dezembro de 1963. O papai de Collor, porém, tinha mira ruim e acabou acertando três tiros no senador acreano José Kairala, que nada tinha que ver com a história e morreu. O que aconteceu com Arnon de Mello? Foi cassado mas não condenado, e retornou às funções senatoriais em 1970, sendo reeleito oito anos depois. Morreu placidamente no exercício da função.

Ora, vá que Collor tente acertar Simon e acabe atingindo, sei lá, o importantíssimo senador Papaléo Paes (não é brincadeira, tem um cara com esse nome). Simon vai ter que esperar (sentado) as denúncias que Collor ameaçou fazer ao senador riograndense durante o nhenhenhém de ontem.

Enquanto isso, o Conselho de Ética vai arquivando as denúncias contra Sarney. E nós, aqui, ficamos no aguardo do próximo escândalo, desejando ardorosamente que um parlamentar grite em alto e bom som para algum ilustre colega: "Vossa Excelência é um canalha!".

sexta-feira, 17 de julho de 2009

E Stanley Kubrick filmou a chegada à Lua

Dia 20 de julho próximo se comemora o quadragésimo aniversário da chegada do homem na Lua, na missão Apolo 11. Uma comemoração muito legal é a do Museu e Biblioteca John F. Kennedy, que pôs no ar o site We Choose the Moon, onde o internauta pode acompanhar em tempo real o áudio da Apolo, como se a missão estivesse de fato acontecendo (ontem, dia 16, fez 40 anos que o foguete Saturno V, que levava o módulo lunar, foi lançado, dando início à viagem). Dá, aliás, para seguir no Twitter.

Claro que tem muita que não acredita que o homem chegou na Lua. As imagens feitas pelos astronautas seriam, na verdade, realizadas dentro de estúdios em Hollywood. A mais extravagante destas teorias de conspiração é aquela que diz que Stanley Kubrick, um dos maiores diretores da história do cinema, seria o responsável pela produção deste material.

A ideia inspirou o cineasta francês William Karel a fazer um documentário, Opération Lune. Quer dizer, um documentário não, um “mockumentary” – subgênero de filmes cômicos ou satíricos, feitos em linguagem e formato de documentário (onde se enquadra os filmes de Sasha Baron Cohen, Borat e o ainda inédito no Brasil Brüno). O filme de Karel, muito além da comédia, é praticamente um estudo da cegueira intelectual humana: ao dar um tom poderosamente sério para o filme, o diretor faz com que o espectador médio não veja as pistas claras de que todo o conteúdo é uma grande bobagem.

Claro que Karel é engenhoso e dá um nexo (ainda que irreal) para a história que “defende”: a corrida espacial americana nada mais seria que o início do programa de defesa anti-ataque nuclear (o Guerra nas Estrelas) de forma encoberta; Stanley Kubrick obteve uma lente especial da Nasa para a produção de Barry Lyndon (de fato filmado com uma lente para fins astronômicos) como pagamento por seu “trabalho” na missão Apolo 11; o cientista Wernher Von Braun, responsável pelo início do programa espacial norte-americano, teria encontros constantes com Walt Disney para transformar as viagens espaciais em verdadeiros shows, etc.

Agora, divertido mesmo é ver atores contratados dando depoimentos como sendo pessoas reais, intercalados com gente de verdade mesmo. Karel entrevistou vários figurões do governo Richard Nixon (presidente estadunidense à época), incluindo Henry Kissinger (um dos nomes mais poderosos da Guerra Fria) e ninguém menos que o “falcão” Donald Rumsfeld (uma espécie de Sarney da segurança nacional dos EUA, pelo jeito...). Até mesmo Buzz Aldrin, segundo astronauta a caminhar na Lua, e a mulher de Kubrick, Christiane Kubrick, aparecem – todos cúmplices desta "pegadinha do Mallandro".

Quanto aos personagens interpretados por atores, seus nomes são tirados de filmes de Kubrick e de Hitchcock (um que, certamente, adoraria a brincadeira). Assim, temos uma falsa secretária de Nixon, Eve Kendall (uma agente dupla de Intriga Internacional); um pároco chamado Ambrose Chapel (que, em O Homem que Sabia Demais, parece ser o nome de alguém até que se descobre ser uma igreja, a Capela Ambrose); um ex-agente da KGB que hilariamente diz (num inglês sem sotaque) que os russos sacaram na hora a farsa e cujo nome, Dimitri Muffley, é uma mistura dos nomes de dois personagens de Doutor Fantástico, e por aí vai. Temos até um produtor da Paramount que atende por Jack Torrance – personagem de Jack Nicholson em O Iluminado.

No Youtube, dá para assistir a todo Opération Lune – que nos EUA, foi lançado, num toque de gênio, como The Dark Side of the Moon. Para não precisar ver uma hora e meia de material, alguém disponibilizou uma versão resumida de pouco mais de 25 minutos, dividida em parte 1, parte 2 e parte 3, em inglês. Sério, vale a pena assistir, nem que seja para valorizar a espirituosidade dos caras que se propuseram a este trabalho todo.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Quinze anos do Plano Real, acreditam?

Pessoal, vocês creem que nossa moeda debutou esta semana? Pois é, o Real fez 15 na quarta-feira. Para os que tem por volta dos 30 (como eu) devem lembrar bem da euforia da época. Eu tinha 15 anos e foi um evento ir até o banco para pegar as primeiras notas do novo dinheiro. Era muito legal ver as notas de R$ 1, 5, 10 e 50 (as de R$ 2 e 20 ainda não existiam, e a de R$ 100 sempre foi lendariamente rara), com os animais da fauna nacional.

Isso porque ninguém aguentava mais as constantes trocas de moeda (num espaço de dez anos, foi de Cruzeiro para Cruzado para Cruzado Novo para voltar ao Cruzeiro para Cruzeiro Real para, enfim, Real), as notas de valores estapafúrdios (quem lembra que existiam notas de dez mil cruzados?) e as homenagens a vultos públicos duvidosos.

A forma engenhosa que a moeda foi trocada é algo que eu acho brilhante até hoje. Como a pura e simples troca de denominação da moeda já não surtia efeito nenhum na hiperinflação (cara, que tempo diferente era aquele!), precisava-se de algo mais inteligente. Eram os tempos do governo Itamar Franco, vice de Collor que assumiu após o impeachment. Aliás, na minha opinião, Itamar foi um melhores e mais divertidos presidentes da nossa história: em apenas dois anos e meio de mandato, ele controlou a inflação, estabilizou a economia, realizou um plebiscito sobre o retorno da Monarquia, relançou o Fusca e agarrou modelos sem calcinha no Carnaval carioca.

O ano de 1994 foi de uma euforia que superou 2002, com a festejada eleição de Lula e o Pentacampeonato: ganhamos uma Copa desacreditada com uma seleção empolgante, o Real surgiu valendo o mesmo que o Dólar e, para completar a comoção nacional, foi quando morreu Ayrton Senna, o heroi nacional que faltava desde sabe-se lá quando. Parecia que, depois de uma década perdida, seríamos novamente o país do futuro.

Por enquanto, ainda vivemos na promessa.