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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Quando os clichês de jornalismo esportivo passam dos limites

Ontem à noite estava entre amigos comendo um xis e na TV passavam os gols da rodada. Vendo o comentário do Maurício Saraiva, brinquei que seria relativamente fácil programar um "gerador de comentários do Maurício Saraiva", alimentando ao programa as estatísticas da partida: gols com os tempos e autores ("Já aos ___ minutos, o ____ abriu o placar logo de cara com um belo gol de _____"), tempo de posse de bola ("Mesmo dominando o jogo no primeiro tempo, o _____ não conseguiu marcar"), estatísticas dos jogadores como roubadas de bola ("O destaque individual foi ______, cuja presença no setor _______ foi o diferencial de qualidade do time") e assim por diante.

Realmente, ainda mais agora depois dessa experiência de escrever os posts "Mesa redonda bola quadrada" aqui no blog, fica evidente que escrever toda rodada (ou todo dia, no caso dos profissionais) a respeito de uma coisa que é, na real, sempre mais ou menos igual, é um exercício de criatividade ingrato. É difícil não cair nos clichês, ou pior ainda, não acabar virando uma máquina de geração deles.

Hoje de manhã, curiosamente, o Jean me passou por email um link de uma notícia divertida, relacionada tanto a tecnologia como a futebol, dois de nossos assuntos prediletos: Robôs se enfrentam em jogo de futebol na Campus Party México. O mais curioso da notícia, porém, foi o descuido na aplicação dos clichês esportivos: (minha ênfase)
A partida seguiu o regulamento internacional da modalidade, que estipula dois tempos de 10 minutos. Os robôs de Monterrey levaram o gol contra no primeiro tempo e não conseguiram reverter o placar. No segundo tempo, os robôs pareciam cansados e não houve nenhuma situação de perigo, permitindo que os robôs da La Salle mantivessem o placar e conquistassem o campeonato.
Texto digno do Auto-Saraiva-Generator. :)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O valor dos clichês

Esses dias estávamos conversando por email e veio o assunto daqueles rankings bobos de "melhor guitarrista de todos os tempos" e "melhor filme de todos os tempos". Sobre os guitarristas, eu falei meio brincando que fazendo uma lista com Jimi Hendrix em primeiro e Eddie Van Halen em segundo, eles poderiam distribuir as demais posições à vontade. Pouco tempo depois, como eles sempre aparecem, pintou mais um desses rankings de guitarristas. O Chico comentou que Hendrix em primeiro já virou "modinha". O Ulisses fez um comentário interessante:
Jimi Hendrix melhor guitarrista é que nem Cidadão Kane como melhor filme: todo mundo aceita, mas ninguém lembra mais porquê.
Eu concordo com a observação, mas ao mesmo tempo se eu tivesse que fazer uma lista eu realmente colocaria o Hendrix em primeiro, mesmo não sendo nem de longe o meu guitarrista preferido. Motivo: os anos passam e eu não paro de me surpreender da influência que ele teve. De tempos em tempos eu me dou conta de que alguma coisa muito fundamental relativa ao mundo da guitarra se deve a ele (por exemplo: a música Sgt. Pepper's, dos Beatles).

Pra justificar o Hendrix em primeiro, é só ouvir o som da guitarra antes e depois do cara e tentar procurar alguém que promoveu tamanha mudança.

Cidadão Kane é um dos meus filmes preferidos (e preferiria revê-lo a ouvir um disco do Hendrix) e eu sei que nem de longe eu consigo dimensionar o impacto que ele teve na história do cinema, mas só pelo fato de que ele é um dos poucos filmes antigos que quando vi fiquei com a impressão "é um excelente filme" em vez de "é um excelente filme de mil-novecentos-e-guaraná-com-rolha", eu tendo a aceitar vê-lo em primeiro nas listas.

Sim, Hendrix em Kane em primeiro nas listas são dois clichês, mas os clichês não se formam do nada.

Falando em clichês, ontem o Chico me perguntou se eu tinha ouvido as músicas novas do Kiss e do Bon Jovi -- dois veteranos do rock que estão pra lançar discos novos. Não tinha escutado, mas depois parei pra ouvir.

A música nova do Kiss, Modern Day Delilah é um anacronismo intencional total: eles disseram que queriam fazer um disco que soasse como um dos seus álbuns clássicos dos anos 70. Sonoridade, letra e melodia totalmente retrôs, calcadas em cima dos clichês que o Kiss ajudou a construir. Curiosamente o bridge e o refrão (que eu achei a parte mais fraca da música) me soaram mais Kiss 80s do que Kiss 70s. Estou ouvindo agora uma segunda vez e tenho que citar o meu desgosto com o solo: o cara imita os trejeitos do Ace até no estilo da palhetada, pra fazer a música "soar Kiss". Só teve uma coisa que me deixou pensando quando ouvi a música a primeira vez ontem: tudo é clichê e genérico e não posso dizer que "gostei" da música, mas o riff é muito bom. Ouvindo agora a segunda vez, fico me perguntando se não é talvez a única coisa não-datada na música. Ele soa clichê também? Eu não sei, é uma pergunta pros amigos. Será que não soa clichê pra mim só porque eu gostei? Pra mim ele soa como se pudesse estar num disco do Led Zeppelin nos 70s, ou do Tesla nos 80s, ou do Soundgarden nos 90s, ou do Audioslave nos 00s. Por outro lado, talvez o "soar moderno" dele seja porque ele soa parecido com o tema principal de um single do Black Eyed Peas lançado no início desse ano! (Taí uma possibilidade de mashup engraçada!)

Já a música nova do Bon Jovi, We Weren't Born to Follow parece outro tipo de clichê. A música também é toda feita de elementos que a banda já explorou em anos e discos anteriores: a paradinha antes do refrão, a letra esperançosa, a dinâmica, o "jingle-jangle" do andamento mid-tempo... Por um lado ela me soa um pouco mais original que a do Kiss, porque os elementos são característicos da fase recente da banda e não um movimento retrô explícito -- ela é projetada pra tocar na rádio atual junto outras músicas e não soar "velha", enquanto a do Kiss é projetada pra tocar no shuffle dos fãs de Kiss junto com os outros clássicos. Mas não tem nada na música do Bon Jovi que me impressione; me soou como uma música "média" em todos os aspectos, e isso talvez seja pior do que soar datado.

E aí? O artista está na prerrogativa de viver à base dos clichês que ele mesmo criou? A tarefa de quem trabalha com processos criativos não seria, bem, continuar criando? Por outro lado, o clichê perde a validade com o passar do tempo? Aliás, ele não se constitui justamente com o passar do tempo? Ou é esse o tempo de vida de uma ideia, que nasce genial, vira clichê e, como disse o Kundera, depois vira kitsch e finalmente é esquecida?

terça-feira, 2 de junho de 2009

Falsas dicotomias: hipocrisia ou diversão?

Bom, o pessoal que caiu de paraquedas aqui no blog deve ter reparado num certo "padrão" em alguns títulos de posts, do tipo "X: Y ou Z?"... isso começou como uma piada durante a madrugada em que passamos na cozinha da casa de praia do Coutinho, num papo que foi até a manhã seguinte e que foi o embrião que resultou nesse blog.

Como em vários momentos a coisa parecia um daqueles programa de debates, começamos a tirar onda agindo como se fosse, com todos os clichês: "no próximo bloco...", "um oferecimento de...", etc. Um clichê que gerou muitas piadas posteriores foi é claro o padrão "X: Y ou Z?" tão usado nesses programas do tipo "mesa redonda de assuntos polêmicos".

Nesses programas os caras adoram pegar uma situação qualquer e pintá-la como uma dicotomia. Nas palavras da Wikipedia, pra poupar as minhas, a falsa dicotomia é "também conhecida como "falácia do branco e preto". Ocorre quando alguém apresenta uma situação com apenas duas alternativas, quando de fato outras alternativas existem ou podem existir". Coisas do tipo "a internet aproxima ou afasta as pessoas?" ou pior, "os ataques à Casa Civil têm fundamento ou o objetivo é desgastar Dilma Rousseff?" (sim, isso já rolou). Obviamente em ambos os casos há mais de duas opções!

Pra completar, os programas que fazem isso gostam de fazer "pesquisas interativas" onde os ouvintes tem a opção de "votar" em uma das duas opções. Votar? a opção certa vai ser eleita, então? Claro que eles não sugerem isso, mas o que se sugere é que é um snapshot da "opinião pública". E daí até saltar a outra falácia é um pulo, afinal de contas não cansam de dizer por aí que "vox populi, vox Dei". Um conjunto pequeno de pessoas que não foi sampleado aleatoriamente (pelo contrário, são pessoas com opiniões fortes a ponto de fazerem questão de fazer parte da pesquisa) e que não têm a possibilidade de expressar por completo o que pensam, apenas tentar se encaixar dentro de uma falsa dicotomia, não é representativo da opinião pública.

Aqui no blog a gente faz uma brincadeira com isso, botando nos títulos as falsas dicotomias sensacionalistas, mas elaborando as opiniões nos textos. E o mais legal é que aqui nesse meio do blog as pessoas podem elaborar suas opiniões também (e não apenas votar "sim" ou "não") e cada opinião fica associada à pessoa, e não derretida numa panela pra fazer uma porcentagem. (A essas alturas, deve estar claro que a "pesquisa" ali do lado não é pra ser levada muito a sério. :) )

Mas afinal de contas... "pesquisas interativas em programas de rádio e TV: veículo para participação ou manipulação da opinião pública?" ;) Os microfones estão abertos!