A pedidos, um comentário meu na discussão “Auto-tune: ferramenta ou charlatanismo?” transformado em post: uma visão – através da retina do audiovisual – de como as tecnologias digitais mudaram as relações de produção na arte:
As formas de arte reproduzíveis (que, por conseguinte, são a base da indústria cultural) atravessam um momento de transição com o advento de tecnologias de captação, produção e correção, cada vez mais acessíveis. Algumas delas são capazes de "maquiar" qualquer problema que um filme/vídeo/novela possa ter. O que acontece na música acontece no audiovisual também: atualmente, todos os filmes passam por cuidados processos de finalização, onde se corrigem “defeitos” de fotografia e até mesmo problemas de cenário, som, objetos vazando no cenário e inclusive de atuação – a palavra “defeitos” está entre parênteses mesmo porque, às vezes, não são coisas erradas de fato: são frutos da vista preciosista dos seus realizadores na pós-produção. Por outro lado, vigora nos sets uma filosofia não declarada de “deixa assim que a gente arruma depois”, deixando para os finalizadores a função de acertar o que não foi corretamente pensado ou realizado no momento da captação.
Dentre as inúmeras possíveis maneiras de enxergar a situação, eu cito duas declarações – uma do Francis Ford Coppola e outra do Peter Jackson.
Coppola, no documentário O Apocalipse de um Cineasta, sobre a problemática produção de Apocalypse Now (muito recomendável, aliás), diz que um dia qualquer pessoa fará, com sua câmera caseira, o seu filme – ou, no exemplo que ele dá, “aquela garota gordinha de Ohio poderá ser o novo Mozart do cinema, usando a câmera de seu pai”. No vídeo do link, é aos 20 segundos que aparece a fala. Coppola está se referindo, na verdade, aos clássicos equipamentos de Super-8 (a entrevista já tem um certo tempo), mas o seu conceito certamente se expande para a revolução do home video e posterior criação de formatos digitais.
Em suma, a digitalização permite uma democratização inacreditável: os recursos ficaram mais acessíveis, menos complicados e menos custosos. Se não fosse assim, dificilmente eu, o Roberto, o André e o Chico estaríamos fazendo curtas-metragens na cara e na coragem (só pra citar os que contribuem com o Sol Desafinado). Estes recursos digitais de correção permitem também a qualquer pessoa poder tratar o seu material da maneira mais profissional possível e, assim, ter maiores chances de atingir um público mais amplo. Nas palavras de Coppola, isso enfim destruirá o “profissionalismo” do cinema, o que para ele significa transformar o cinema em arte de verdade
Esta democratização acontece na música há muito tempo, se formos pensar através deste viés. No mínimo, desde quando o punk "afirmou" que tu não precisava tocar para ser músico (eu já diria que esta democratização vem desde os tempos do jazz, que foi já um estilo com a pecha de bate-estaca). O que acontece é que a digitalização é a ferramenta de quem não tem necessariamente o talento necessário – levando-se em conta que todos têm o direito inalienável de se expressarem artisticamente. Que diga o Roberto, que gravou músicas para um certo rapper chamado Leco Lenda Viva.
Por outro lado, Peter Jackson, nos extras da edição especial do "King Kong" original (1933), ao comentar sobre o laborioso processo de efeitos especiais artesanais de 70 anos atrás, afirma que os cineastas de hoje são imensamente preguiçosos (infelizmente, não achei o trecho em questão no YouTube). A facilidade de se fazer virtualmente qualquer elemento visual dentro de um computador afastou os artistas de cinema daquela busca sofrida e calejada por um fim artístico maior, por patamares novos e desconhecidos. A própria falta de limites técnicos, na verdade, parece se refletir num limite, este sim grande, de criatividade. Antes, os cérebros dos artistas de cinema precisavam encontrar formas cativantes de se fazer coisas pensadas como impossíveis, cujo maior charme é exatamente seu efeito estético, não a sua perfeição.
A "democratização" seria danosa neste sentido, porque os filmes deixariam de buscar excelência artística - como os bons filmes clássicos faziam, com todas as limitações possíveis. As obras se nivelariam por baixo, por assim dizer. E de fato, nunca foram feitos tantos trabalhos autorais – que ninguém vê/ouve – como neste início de milênio.
Eu confesso que jogo nestes dois times. Sou um classicista assumido no que tange ao cinema e sou da opinião que “ser experimental” é algo muito fácil: bastamos produzir qualquer colagem de imagens em diferentes técnicas de captação e pronto, estamos sendo experimentais. Difícil mesmo é fazermos algo novo com conhecimento de causa, sabendo que está se fazendo algo novo. Entretanto, não fosse o acesso facilitado a várias tecnologias de produção audiovisual, estaria até agora reclamando de não ter nascido no subúrbio de Los Angeles, onde seria talvez mais fácil encaminhar uma carreira no cinema.
E então pessoal? O que acham?
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domingo, 5 de julho de 2009
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