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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

70 anos da maior das guerras

Amanhã, dia primeiro de setembro, completa-se sete décadas do início da Segunda Guerra Mundial. Não só o maior conflito da história humana, como também o mais complexo, o mais determinante, o que mais mudou o planeta. Existe um mundo antes dela, e outro depois. O universo humano que surgiu pós-1945 era tão complexo que se precisou dar um nome genérico e pouco explicativo à nossa era: Pós-Modernidade. Antes da guerra, ainda existiam impérios coloniais, cientistas pregavam que havia seres humanos superiores aos outros, a política ditatorial era parte do senso comum dos cidadãos.

Apesar de ter data de início e de fim, a Segunda Guerra era um conflito inevitável, que começou bem antes. Iria acontecer, uma hora ou outra. Não por um pretenso "Destino da Humanidade", mas por conta de inúmeros interesses nacionais conflitantes. Ela pode ser vista como uma coletânea de várias guerras diferentes, sem necessariamente os mesmos objetivos, que apenas calharam de acontecer mais ou menos na mesma hora. Havia um conflito pelo controle do Pacífico entre Estados Unidos e Japão; o mesmo Japão que travava há anos uma guerra de extermínio contra os chineses, e que assinou acordos de não-agressão com a União Soviética -- nação que, por sua vez, praticamente venceu com suas próprias forças em terras europeias a Alemanha toda-poderosa, que precisava mandar seus exércitos à África para contornar as tolices estratégicas de sua aliada Itália, empenhada numa tentativa de recriar o Império Romano, sonho combatido até por pobres soldados do Brasil, devidamente recrutados pelos... Estados Unidos.

Não é à toa que se produz arte e pesquisa em quantidades cada vez maiores sobre o conflito: tantos foram os países envolvidos, que praticamente cada lugar do mundo tem sua história com a Segunda Guerra, da Tailândia à Etiópia, da Noruega à Austrália. Várias delas ainda não são de domínio público, mas conhecê-las nos faz ver que a Guerra foi muito mais do que bombardeios, campos de concentração, extermínio dos judeus e o Dia D.

Há, por exemplo, o caso singular da Finlândia, única democracia a se aliar à Alemanha Nazista. Isolada entre a Escandinávia e o Leste europeu, esta nação foi invadida pelo Exército Vermelho logo nos primeiros dias do conflito. Buscando apoio junto a Hitler, os finlandeses invadiram ao lado da Wehrmachat o território russo. Quando a balança pendeu favoravelmente aos soviéticos, a Finlândia tratou de assinar a paz e expulsar os alemães do país.

A própria posição da URSS é duvidosa: quando a guerra estoura, Stálin havia acordado um pacto de não-agressão com Hitler. Assim que os nazistas adentram na Polônia, os russos invadem imediatamente Letônia, Estônia, Lituânia e Finlândia, entre outros, e dividem o território polonês com os alemães -- não necessariamente aliados, mas como uma hiena e um coiote divindo a mesma carcaça, enquanto rangem dentes um para o outro. A Grande Guerra Patriótica (como os russos chamam a Segunda Guerra) começa mesmo em 1941, quando Hitler faz aquela besteira de atacá-los. Mesmo se aliando à Inglaterra e aos EUA, a União Soviética não abre guerra contra o Japão e, no fim das contas, foi a grande beneficiada politicamente com a paz, ao receber quase que de presente todo o Leste Europeu sob sua cortina de influência -- seu objetivo inicial ao começarem as batalhas.

Sem contar, claro, o Brasil. Todo mundo sabe que entramos no baile por conta do afundamento de navios na nossa costa (fora os interesses políticos norte-americanos em colocar um país sulamericano ao lado dos Aliados, para diminuir a força dos movimentos fascistas no continente, em especial na Argentina). O que pouca gente sabe é que morreu mais brasileiros em águas territoriais tupiniquins do que no gelos dos Apeninos italianos: foram 1.074 vítimas fatais nos naufrágios, enquanto 457 pracinhas pereceram na campanha da Força Expedicionária Brasileira. A maior parte das mortes foi causada por um único submarino alemão, o U-507, comandado por Haro Schacht. Esta embarcação foi responsável por torpedear, num espaço de oito horas na noite entre os dias 14 e 15 de agosto de 1942, nada menos que três embarcações, matando 551 pessoas (incluindo mulheres e crianças), mais do que as baixas totais (mortos e feridos) da FEB na famosa tomada de Monte Castelo. A tragédia maior foi a do navio Baependi: apenas 36 sobreviventes chegaram ao litoral, junto com os corpos de 269 vítimas.

Como toda boa história de guerra, o U-507 encontrou seu fim de maneira dramática: após pôr a pique outras embarcações brasileiras, foi flagrado por uma patrulha da Força Aérea Americana em janeiro de 1943, nas proximidades de Natal, sendo destruído com cargas de profundidade. Seus 54 tripulantes morreram. Apenas mais uma nota de rodapé nas imensas crônicas da Segunda Guerra Mundial.