Fazia um tempinho que o Senado Federal não nos brindava com algum bom bate-boca para animar o baile político de Brasília. De uns anos para cá, a chamada Câmara Alta do Congresso passou a rivalizar em chinelagem com a Câmara dos Deputados, costumeiro antro de negociatas e lar de políticos estúpidos (que rivalizam em idiotice, claro, com o povo que os elegeu). Nos últimos anos, tem sido frequente a encenação de farsas satíricas na tribuna (ou palco) senatorial, protagonizadas especialmente pelos seus presidentes -- como no caso de Jader Barbalho em 2002 (numa denúncia levantada, acreditem se quiser, pelo já-foi-tarde Antônio Carlos Magalhães).Pois ontem tivemos um duelo de titãs no Senado, daqueles que mereciam uma crónica épica para si só. O fandango envolveu o sempre faca-na-bota Pedro Simon, eterno senador pelo Rio Grande do Sul (em seu quarto mandato), que pedia mais uma vez que o nosso já debatido José Sarney deixasse a presidência daquela Casa. Aliás, quem conhece a trajetória parlamentar de Simon sabe que ele defende com força a saída de senadores, ministros e que tais, quando estes paracem envoltos em confusões. Ontem, porém, ao discursar para um Senado vazio (bem ao modo das segundas-feiras no Planalto Central), Simon incorreu na fúria de dois monstros sagrados (mais monstros do que sagrados, vejam bem) da política alagoense.
O primeiro a tomar as dores do Lorde do Maranhão e do Amapá foi Renan Calheiros -- do mesmo partido de Simon, o PMDB, e ele mesmo um presidente do Senado destituído por conta de um escândalo, em 2007 (pelo menos, tem muito bom gosto para escolher suas amantes...). Renan começou a atacar Simon, ao proferir que era "esporte preferido" do senador gaúcho denegrir o ex-predidente durante os "últimos 35 anos", lembrando que Simon não queria Sarney na chapa de Tancredo Neves (no que, temos que convir, Simon tinha toda a razão). O caxiense não leva desaforo para cara e, para ficar no campo light do que poderia dizer, acusou Renan de ter feito alianças com Fernando Collor -- que, vejam vocês, foi eleito senador pelo estado de Alagoas (campanha pela emancipação deste estado do resto do Brasil, pelo amor de Deus!) e que, mais incrível ainda, estava dentro do Senado naquela hora.
Collor mandou Simon engolir suas palavras, digeri-las e fazer o que quisesse com elas -- ou seja, cagá-las. Collor, aliás, usou a sua conhecida expressão facial enlouquecida ao xingar Simon, olhos vidrados e dedo em riste. Há que se ter respeito pelo homem: seu pai, o saudoso senador Arnon Afonso de Mello, tentou matar a tiros (dentro do Senado!) seu inimigo político Silvestre Péricles de Góis Monteiro, em dezembro de 1963. O papai de Collor, porém, tinha mira ruim e acabou acertando três tiros no senador acreano José Kairala, que nada tinha que ver com a história e morreu. O que aconteceu com Arnon de Mello? Foi cassado mas não condenado, e retornou às funções senatoriais em 1970, sendo reeleito oito anos depois. Morreu placidamente no exercício da função.
Ora, vá que Collor tente acertar Simon e acabe atingindo, sei lá, o importantíssimo senador Papaléo Paes (não é brincadeira, tem um cara com esse nome). Simon vai ter que esperar (sentado) as denúncias que Collor ameaçou fazer ao senador riograndense durante o nhenhenhém de ontem.
Enquanto isso, o Conselho de Ética vai arquivando as denúncias contra Sarney. E nós, aqui, ficamos no aguardo do próximo escândalo, desejando ardorosamente que um parlamentar grite em alto e bom som para algum ilustre colega: "Vossa Excelência é um canalha!".
